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Política

Bolsonaro e Trump mostram sintonia na ONU, mas com ‘vilões’ diferentes

25 de setembro de 2019 Política
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Jair Bolsonaro e Donald Trump em encontro nos EUA no início do ano (Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)

Por Patrícia Campos Mello, da Folhapress

SÃO PAULO-SP – Se é que havia dúvidas, a Assembleia Geral da ONU foi a prova de que o presidente Jair Bolsonaro e seu ídolo, o americano Donald Trump, estão em sintonia – ao menos nos discursos. Ambos os líderes falaram essencialmente a mesma coisa, só os nomes dos vilões é que variaram: para Trump, o eixo do mal é composto por Irã, China e ONGs que defendem imigrantes, enquanto, para Bolsonaro, a encarnação do demônio é feita de Cuba, Foro de São Paulo, Venezuela e ONGs ambientalistas.

A narrativa de Trump e Bolsonaro é a mesma disseminada pelos populistas de direita, do húngaro Viktor Orbán ao filipino Rodrigo Duterte: precisamos combater o globalismo e fortalecer o nacionalismo. Abaixo organizações transacionais, como a própria ONU, que querem violar a soberania dos países para impor aos governos nacionais sua agenda de defesa das minorias e o que consideram bobagens de esquerda politicamente corretas. “O futuro não pertence aos globalistas, o futuro pertence aos patriotas, às nações independentes e soberanas que protegem seus cidadãos”, disse Trump na tribuna da ONU.

Minutos antes, em seu discurso com a marca registrada dos paladinos da luta contra o globalismo – o assessor internacional Filipe Martins e o chanceler Ernesto Araújo –, Bolsonaro havia dito: “Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global. É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer”.

Enquanto o resto do planeta concentra seus esforços em medidas (globalistas) para lidar com as mudanças climáticas, a grande bandeira abraçada por Trump e Bolsonaro é o combate à perseguição religiosa, principalmente a de cristãos. A pregação é música para os evangélicos, eleitorado importante para os dois líderes, e alívio para a indústria de combustíveis fósseis e seus acólitos céticos do aquecimento global. “O Brasil condena, energicamente, todos esses atos e está pronto para colaborar, com outros países, para a proteção daqueles que se veem oprimidos por causa de sua fé. É inadmissível que, em pleno século 21… Ainda haja milhões de cristãos e pessoas de outras religiões que perdem sua vida ou sua liberdade em razão de sua fé”, disse Bolsonaro.

Trump vai na mesma linha. “Americanos nunca vão abandonar seus esforços de defender e promover a liberdade de crença e religião”. Mas o republicano é mais explícito nos objetivos da recém-criada aliança para liberdade religiosa. “Sabemos que muitos projetos da ONU tentaram garantir direito a aborto financiado com dinheiro do contribuinte.

urocratas globais não têm nada que atacar a soberania de nações que querem proteger vidas inocentes. Como muitas outras nações aqui, nós, na América, acreditamos que todas as crianças, nascidas e por nascer, são um presente sagrado de Deus. Como bons populistas de direita que são, os dois demonizam o socialismo e usam a Venezuela como exemplo do fracasso desse modelo. Bolsonaro recorre ao socialismo para atacar os governos do PT, enquanto Trump tacha de socialistas os democratas, que vêm propondo programas de acesso universal à saúde e imposto sobre grandes fortunas.

“Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições”, disse Bolsonaro, para depois dizer que a Venezuela “experimenta a crueldade do socialismo”.

Segundo Trump, “os acontecimentos na Venezuela nos lembram que socialismo e comunismo não trazem justiça, igualdade”. “Socialismo e comunismo só servem para dar poder à classe dominante. Hoje eu repito para o mundo uma mensagem que já passei para nosso país – a América nunca será um país socialista. Os inimigos diferem, mas o tom é o mesmo. Trump classifica o Irã como maior estado patrocinador de terrorismo”, critica as práticas comerciais da China e ataca “ativistas radicais e ONGs que promovem tráfico de pessoas”, em uma ofensiva aos que defendem imigrantes.

Bolsonaro afirma que os médicos cubanos são agentes infiltrados de Cuba, que o Foro de São Paulo é uma “organização criminosa” criada para difundir o socialismo e que pessoas “apoiadas em ONGs” querem manter os “índios como verdadeiros homens das cavernas”. No Twitter, o deputado Eduardo Bolsonaro afirmou: “Aos que perguntam se Jair Bolsonaro e Donald Trump combinaram o discurso, pois deram recados semelhantes: isto foi apenas a síntese de ser conservador e falar a verdade sem se preocupar com o politicamente correto”.

Mas, apesar de todas as semelhanças, Trump não vai tão longe. Bolsonaro insiste em atacar um de seus espantalhos favoritos: a dita “ideologia de gênero”. “Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica”.

Já Trump afirma que os EUA “estão cooperando com outros países para acabar com a criminalização da homossexualidade”. “E estamos solidários com as pessoas da comunidade LGBTQ que vivem em países que punem, prendem ou executam pessoas por causa de suas orientação sexual?” Ainda que a menção seja hipócrita, porque Trump adotou políticas como o veto a pessoas trans nas Forças Armadas, o presidente americano é pragmático e faz ao menos um aceno ao eleitorado gay.

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Assuntos Jair Bolsonaro
Cleber Oliveira 25 de setembro de 2019
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