
Por Marcelo Godoy e Luiz Vasallo, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – A Avibras reiniciou na quinta-feira (30) suas operações em sua planta de São José dos Campos. A antiga empresa, hoje administrada pelo Fundo Brasil Crédito, encerrou em março uma greve que durou 1.281 dias, renegociou as dívidas trabalhistas e contratou cerca de 300 funcionários para retomar a produção de mísseis, foguetes sob um novo nome: Avibrás Aeroco.
O reinício da produção da empresa ocorreu após o empresário Joesley Batista, controlador da J&F, assinar um contrato para participar do funding da nova Avibras, coordenado pelo Fundo Brasil Crédito, que arrecadou R$ 300 milhões com investidores privados. Além de ser o principal credor da empresa, em recuperação judicial desde 2022, o fundo foi o autor do plano alternativo de reestruturação da Avibrás, aprovado pela Justiça e por credores.
Segundo o diretor-presidente da nova empresa, Sami Hassuani, a Avibrás Aeroco reúne todos os ativos estratégicos e um portfólio tecnológico consolidado de produtos, serviços e sistemas da antiga Avibrás Indústria Aeroespacial. “Agregar consistência e visão estratégica ao negócio é fundamental para o desenvolvimento da Avibras Aeroco, especialmente em um setor que exige planejamento de longo prazo, relações de confiança e continuidade nas parcerias”.
Em seu comunicado, a empresa, envolta em uma batalha judicial que se arrastou por anos, sublinhou que, “constituída como uma nova empresa, ela começa suas atividades com bases sólidas de governança, de estrutura financeira e de operação, alinhadas aos desafios atuais dos setores de Defesa e Aeroespacial e aos interesses de seus clientes, colaboradores e do Brasil”. Ou seja, o caos financeiro que levou à recuperação judicial teria ficado para trás.
O plano de reestruturação financeira da empresa previa inicialmente que, além dos R$ 300 milhões privados obtidos com o funding, outros R$ 300 milhões viessem do setor público por meio de financiamento. Mas a direção do Fundo Brasil Crédito decidiu ir adiante e retomar a produção já em maio, mesmo sem ter ainda os recursos públicos.
A Avibrás tem atuação global e projeta, desenvolve, fabrica e comercializa sistemas de defesa e soluções espaciais civis, incluindo mísseis, foguetes, veículos especiais e lançadores espaciais. Segundo a empresa, a companhia “detém o domínio de tecnologias críticas de propulsão e integração de sistemas complexos, apoiada por uma base industrial robusta e elevados padrões de qualidade e desempenho”.
Segundo o anúncio da empresa, tudo isso estará preservado na nova empresa. “As capacidades de engenharia, industrial e de certificação de produto nas áreas de propulsão e integração de sistemas tornam a Avibrás Aeroco um ativo único, cobiçado e altamente valorizado por diversas nações e de difícil obtenção, diante das restrições à transferência desse tipo de conhecimento”, informou o comunicado.
O dinheiro de Joesley e dos outros investidores resolve um dos maiores desafios enfrentados pelo Ministério da Defesa no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A sobrevivência da empresa, que chegou a ser a maior indústria bélica do País, era considerada fundamental em um contexto em que seus produtos ganharam nova importância em razão da realidade geopolítica criada pelo atual governo dos Estados Unidos.
Esse ponto foi destacado pelo comunicado da empresa, ao dizer: “O atual contexto global, marcado por instabilidade e imprevisibilidade, torna essas capacidades fundamentais para o Brasil e para os seus clientes no cenário geopolítico”. Os principais contratos mantidos atualmente pela Avibrás são com o Exército e com a Força Aérea.
A empresa é responsável pelo sistema de foguetes balísticos Astros, a joia da coroa da artilharia do Exército. Trata-se de um produto vendido para mais de uma dezena de países, entre eles a Indonésia e a Malásia. De início, a nova empresa deve manter a parceria com o Escritório de Projetos do Exército para concluir o desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300) — 90% do projeto já foi concluído, faltando apenas a campanha de tiro.
A Força Terrestre também está desenvolvendo o Míssil Tático Balístico (MTB) S+100, que deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibrás. Trata-se de um projeto novo e considerado de grande potencial de vendas no mercado exterior.
As negociações estão sendo feitas pelo Comando de Logística (Colog) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), do Exército. Hassuami ressaltou a importância de “alinhar tecnologia e propósito, e de reforçar o papel das soluções desenvolvidas em função das necessidades operacionais e estratégicas de nossos clientes”.
O plano é usar os recursos para investimentos na Defesa garantidos pela Lei Complementar nº 221, que autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em despesas com projetos estratégicos de defesa nacional do arcabouçou fiscal até 2031. São essas encomendas que devem sustentar a empresa em sua retomada.
“Mais do que tecnologia, a Avibras Aeroco é impulsionada pelo talento de seus profissionais, pela geração de empregos de alta qualificação e pelo desenvolvimento de soluções confiáveis e inovadoras, que fortalecem a segurança e a soberania de seus clientes”, conclui o comunicado.
