
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Defensores dos direitos dos animais consideram grave, inaceitável e brutal a conduta dos policiais militares que atropelaram três cães na Avenida Coronel Sávio Belota, bairro Novo Aleixo, zona norte de Manaus. Para eles, a atitude é sintoma de uma crise de empatia e banalização da vida animal na sociedade.
A presidente da Proteama (Protetores dos Animais Manaus Amazonas), Nete Moura, afirmou na manhã desta segunda-feira (2) que a conduta dos policiais foi totalmente errada. Ela disse que os agentes “não se importaram com os cães, não pararam o veículo nem esperaram que eles se afastassem”.
“Esses agentes públicos deveriam ser exonerados. Quem deveria respeitar e proteger os animais agiu com brutalidade, demonstrando que não está preparado para defender a vida. Cães e gatos comunitários ainda são tratados como objetos, mas isso precisa mudar”, afirma.
O caso, registrado em vídeo divulgado nas redes sociais, mostra que os cães estavam deitados na rua, sem trânsito no local, quando foram atropelados por uma viatura da Polícia Militar. Um dos animais morreu na hora, outro ficou gravemente ferido e também não resistiu. Apenas um sobreviveu.
A socióloga e protetora de animais Saadya Jezine avalia o comportamento dos policiais militares como grave e inaceitável. “Independentemente das circunstâncias ou da instituição em que estes profissionais estão inseridos, atropelar animais e sair do local sem prestar socorro demonstra falta de empatia, descumprimento do dever legal e desrespeito à vida”, afirma.
Para Saadya, “não podemos generalizar diante de uma situação em que envolve alguns PM’s, mas quem tem a missão de proteger deve agir com responsabilidade, humanidade e exemplo, inclusive diante dos animais, que são seres sencientes e protegidos por lei”. Ela lembra que atropelar um animal sem prestar socorro configura crime de maus-tratos, previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98, art. 32).
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Questionada sobre o que atribui esse tipo de comportamento, a socióloga afirmou que “esse tipo de atitude não está ligada a uma instituição específica e sim a uma banalização da vida animal, à ausência de conscientização adequada e, em alguns casos, à sensação de impunidade, o que torna tudo isso mais grave e atinge várias esferas da sociedade, onde quem sofre sempre é o mais vulnerável, nesse caso, os animais”.
Segundo ela, “quando não há formação contínua sobre direitos dos animais e consequências legais, comportamentos assim acabam se repetindo. Por isso, é fundamental investir em educação, treinamento e responsabilização, sem exceções”.
Saadya Jezine também comentou sobre os diversos casos de maus-tratos a animais que têm ocorrido no país inteiro. Para ela, isso é sintoma “de uma crise de empatia e de valores sociais”. “A forma como uma sociedade trata seus animais reflete diretamente o nível de humanidade que ela cultiva. Onde a crueldade se normaliza, a violência se expande. Combater os maus-tratos aos animais não é apenas uma pauta animal, é uma pauta de civilidade, saúde pública e respeito à vida”.
A socióloga cita que “quando estamos falando de leis mais rigorosas para quem comete maus-tratos, não é apenas para privar o animal de crimes, mas para que não tenhamos na sociedade, pessoas que cometam crimes com pessoas também”. Ela menciona estudos científicos que comprovam que pessoas que cometem crimes contra animais também cometem com pessoas, sobretudo mais vulneráveis, como crianças e idosos, conforme aborda a Teoria do Elo.
“Semanalmente recebo vários relatos em que protetores são ameaçados e ou agredidos simplesmente por colocarem ração e água para animais em situação de rua. Para além disso, desde o dia 2 de janeiro vivenciamos situações onde cravaram chave de fenda em animal, casos de zoofilia, e outras situações graves de agressão aos animais. São ocorrências onde agrediram, mutilaram ou esquartejaram animais. O que podemos esperar de uma sociedade em que pratica esse tipo de crime?”, questionou.
Para Saadya, “dois a cinco anos de reclusão é pouco se queremos construir uma sociedade mais empática e humana. Aliás, estamos em um caminho muito distante disso”.
“O caso do Orelha não foi um caso isolado, é uma realidade onde nós, da causa animal, vivenciamos todos os dias, e simplesmente estamos tristes, exaustos, revoltados. O Orelha simboliza a causa animal, mas também as leis do nosso país que ainda deixam muito a desejar aos que buscam justiça”, acrescenta.
A socióloga concluiu dizendo que “a causa animal é um retrato claro da realidade em que vivemos em todas as outras causas: se falta educação na ponta, o crime é o caminho e a impunidade é o desfecho”.
Urgência de políticas públicas
Nete Moura ressaltou que casos de maus-tratos são frequentes e que é urgente que a sociedade e o poder público tomem medidas para proteger os animais. “Todos os dias, presenciamos casos de maus-tratos. Isso não é de hoje, mas a sociedade está finalmente tomando consciência de todo sofrimento, especialmente dos animais em situação de rua, que estão criticamente ameaçados. A Proteama pede justiça, também em nome da cadela e sua filhote”, afirmou.
A presidente também defende a necessidade de políticas públicas mais eficazes para proteger os animais comunitários, como castração em massa e leis mais rigorosas. “Faltam políticas públicas, como castração em massa, para essas matilhas que tentam sobreviver ao caos. É preciso também o fortalecimento de leis mais rigorosas para a defesa dos animais. O caso do Orelha ganhou repercussão nacional, infelizmente. Mas precisamos destacar a urgência da prática da cidadania ambiental e da proteção animal. Animais comunitários devem ser respeitados, e violência, abandono e negligência não podem ser ignorados”, disse.
O que dizem as autoridades
A Polícia Militar do Amazonas informou que os agentes envolvidos foram afastados das atividades de rua e passaram a desempenhar funções administrativas enquanto a ocorrência é investigada. Um procedimento administrativo disciplinar foi aberto pela DJD (Diretoria de Justiça e Disciplina), e a corporação ressaltou que não compactua com a conduta apresentada pela guarnição.
A Polícia Civil do Amazonas registrou flagrante no 6º DIP (Distrito Integrado de Polícia) e instaurou inquérito policial para apurar responsabilidades e possíveis desdobramentos. A ocorrência também será encaminhada à DEMA (Delegacia Especializada em Meio Ambiente).
