
Por Igor Markevich, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – A aposentadoria existe no imaginário popular como um ponto de chegada. Um tempo de descanso, previsibilidade e algum conforto depois de décadas de contribuição. No Brasil, porém, ela parece cada vez mais uma curva fechada no meio do caminho. No dia 24 de janeiro, que em 2026 cai em um sábado, comemora-se o Dia do Aposentado, data que remete à Lei Eloy Chaves, de 1923, marco inicial da previdência social no país. Um século depois, o ideal de proteção e estabilidade não dá sinais de se concretizar plenamente.
De acordo com um levantamento da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, 50% dos aposentados recorreram a algum tipo de crédito para pagar contas e despesas. Outros 35% afirmam que costumam buscar crédito especificamente para cobrir gastos essenciais, como alimentação, moradia e saúde. A pesquisa foi realizada entre 22 de dezembro de 2025 e 11 de janeiro de 2026, com 952 aposentados, e tem margem de erro de 2,6 pontos percentuais.
Quanto à vivência dos beneficiários, 46% dos entrevistados relatam que o valor recebido mensalmente não é suficiente para manter o padrão de vida que tinham antes de deixar o mercado de trabalho. O mesmo percentual afirma sentir maior instabilidade financeira após se aposentar, um dado que desmonta a ideia de que o benefício previdenciário traz, automaticamente, tranquilidade.
A fragilidade aparece também nas situações mais básicas que compõem o cotidiano. Um terço dos aposentados, 33%, enfrenta dificuldades para manter as contas essenciais em dia. Quase metade, 44%, convive com oreceio de precisar de ajuda financeira de outras pessoas para fechar o mês. Não por acaso, o risco de endividamento passa a ser uma preocupação central nessa fase da vida.
Trabalhar depois de se aposentar não é uma exceção, mas parte de uma nova regra. Segundo o levantamento, 60% dos aposentados continuam exercendo alguma atividade profissional. Em 63% dos casos, o motivo principal é complementar a renda. Manter uma vida mais ativa aparece como justificativa para 57% dos entrevistados, enquanto 32% dizem que seguem trabalhando para continuar se sentindo produtivos. Há ainda quem busque ajudar financeiramente a família, 23%, ou encarar novos desafios profissionais, 11%.
Mesmo sob restrições, a aposentadoria também carrega expectativas e projetos. Entre os principais desejos declarados, 40% dos aposentados dizem querer viajar, o mesmo percentual afirma que pretende quitar dívidas e 39% querem aproveitar melhor o tempo livre. A lista revela uma tentativa de reconciliação entre o orçamento possível e uma ideia de qualidade de vida adiada.
O planejamento aparece como um fator de algum alívio, ainda que não seja uma blindagem completa. Segundo a pesquisa, 65% dos aposentados afirmam que fizeram algum tipo de planejamento financeiro para essa fase da vida. Ainda assim, muitos acabam recorrendo ao crédito.
No Brasil atual, segundo dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) de janeiro de 2025, cerca de 25 milhões de aposentados lidam todos os dias com a contradição entre o ideal fundador da Lei Eloy Chaves e a experiência concreta do beneficiário. A aposentadoria existe, mas, de acordo com a pesquisa, frequentemente não basta.

