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Augusto Barreto Rocha

Amazônia: a busca da relevância

18 de fevereiro de 2019 Augusto Barreto Rocha
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Há uma frase várias vezes repetida “todo o mundo está interessado na Amazônia”. Não acredito nela, pois não é o que constatei nas vezes que perambulei pelo exterior estudando ou trabalhando. O interesse não difere sobremaneira de outras áreas distintas do mundo. O que percebo é que sequer nós estamos interessados na Amazônia, porque muitos habitantes se permitem ser fortemente influenciados por grupos de interesses estrangeiros. Quais são os nossos interesses na região? O que queremos fazer de relevância para o mundo, além de simplesmente existir?

Fala-se que há uma riqueza na região. Também não consigo constatar isso. Pelo que vejo na história é que riquezas advém de algum tipo de produção (descartando as pilhagens ou guerras como alternativas válidas). O que produziremos a partir de nosso ambiente que terá relevância global? A Espanha, por exemplo, possui uma expressiva indústria de azeite de oliva, detendo cerca de 45% do mercado global, seguida pela Itália com 20% do mercado. Há uma quantidade enorme de Pesquisa & Desenvolvimento em ambos os países para este produto.

O Cerrado brasileiro é reconhecido por sua produção de soja e o Brasil é o 2º produtor mundial, logo depois dos EUA. O café de nosso país é o líder global disparado. Entretanto, qual a relevância da Amazônia e do Amazonas? O que produzimos? O que produziremos? Quando se verificam publicações mundo afora sobre a produção da região, o que se constata é um alarmismo (justo, em certa medida) sobre o quanto da floresta está sendo devastada para a produção de carne ou produtos agrícolas.

Como encontrar relevância? Onde estão os cientistas brasileiros para indicar como produzir algo com a responsabilidade necessária? Por ser pesquisador e professor sinto-me muito à vontade para perguntar de mim e de meus colegas. O que podemos fazer na região? Como agir responsavelmente em meio a uma área de grande potencial? Potencial, precisamos parar de dizer rica. Há aqui diversas das áreas mais pobres do país em meio a uma diversidade ambiental exuberante.

Não seria incompetência não termos ainda alguma produção sustentável advinda de alguma riqueza da floresta e com uma marca global? Quando teremos uma indústria local voltada para os insumos locais? A indústria atual é voltada para o mercado nacional, com capital estrangeiro e insumos estrangeiros. Um projeto de desenvolvimento precisa ser realizado, com a urgência de quem perdeu muito tempo.

A indústria pesqueira portuguesa poderia ser um bom modelo para exploração do pescado na região. Em Portugal há o maior consumo de peixes per capita do mundo. Em nossa região não localizei estatísticas, mas é bem provável que seja semelhante no lado do consumo. Deixo aqui uma sugestão para que seja estruturada uma cadeia produtiva completa, com alvo local, nacional e internacional. O que será necessário para isso? Há estudos já feitos. Por exemplo, Gleriani Ferreira, orientada pelo Prof. Jacques Marcovitch fez uma Tese de Doutorado em Administração na USP em 2016 analisando a cadeia produtiva do pirarucu. As restrições já foram estudadas e estão postas: falta de frigoríficos, falta de aproveitamento dos resíduos e falta de marketing para pescados. Há novos governos no país e há um discurso de Liberalismo. Belo momento para atacar os problemas com as soluções já encontradas. Espera-se que quem chegou agora não ouse dizer que vai desprezar o que já foi feito na Ufam, Inpa, UEA, USP, UFRJ etc. Buscar o que já está posto será muito melhor do que ir atrás de consultorias estrangeiras ou de um gestor júnior local que nem sabe como se operam políticas públicas. O estudo acima é mera indicação e certamente existem outros. A falta de continuidade nas ações é um dos motivos de seguirmos presos nas mesmas histórias do passado onde a conclusão é o mesmo fracasso anterior. Não aprender com a história, com os erros e acertos nos levará a cometer os mesmos erros. Precisamos parar de perder tempo repetindo erros do passado. Sem isso, manteremos a condição de irrelevância e seremos reconhecidos como os predadores da última grande oportunidade de floresta e de biodiversidade do planeta. Que não cometamos esta brutal incompetência.


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia
Cleber Oliveira 18 de fevereiro de 2019
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