
Por Felipe Campinas, da Redação
MANAUS – O Amazonas já bateu recorde, em 2020, no número de queimadas registradas nas últimas duas décadas, com 15.815 focos de incêndio detectados entre 1º de janeiro deste ano até terça-feira, 13, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Para o biólogo Lucas Ferrante, o aumento é resultado do desmonte de órgãos ambientais, como o Ibama e o ICMBio, e da falta de atuação rigorosa do poder público.
De acordo com dados do Inpe, o número de queimadas registrado até a terceira semana de outubro deste ano superou a quantidade detectada nos doze meses de 2005 (15.644 focos de incêndio). Antes disso, conforme a série histórica do total de focos ativos detectados pelo satélite de referência, que reúne dados desde 1998, o recorde havia sido registrado em 2015, com 13.419 queimadas.

De acordo com Ferrante, na comparação dos dados registrados entre 1º de janeiro e 13 de outubro deste ano com o mesmo período do ano passado, houve aumento de 35% do total de destruição.
“Nós observamos que no Estado do Amazonas houve um incremento de 35% do número de queimadas em 2020 em relação ao mesmo período de 2019. Entre 2018 e 2019 já havia ocorrido o incremento de 17% nas queimadas”, afirmou.
O biólogo também cita que, em relação a Amazônia Legal, os dados do Inpe apontam que entre janeiro e a terceira semana de outubro houve aumento de 26% no total de focos de incêndio em comparação ao mesmo período no ano passado. Em 2019, o satélite de referência detectou 101.818 queimadas e, em 2020, 128.420.
Nos dez meses do ano de 2019, a Amazônia Legal já havia registrado aumento de 45% em comparação a 2018, saltando de 69.944 para 101.818 queimadas. Antes disso, em 2018, a região obteve redução de 38% no número de focos de incêndio, caindo de 113.980 (2017) para 69.944 queimadas.
Ferrante associa o aumento de queimadas na região à falta de fiscalização pelo poder público. “Todo esse aumento de fogo, tanto no Estado do Amazonas quanto na Amazônia de forma geral, é por conta de um desmonte ambiental e das políticas ambientais do Brasil, principalmente, o sucateamento dos órgãos ambientais, como o Ibama e ICMBio, e essa nova gestão, que através do Conselho Amazônia, não tem protegido a floresta”, disse.
De acordo com o biólogo, esse “sucateamento ambiental” foi denunciado em artigo publicado no final de 2019 na Revista Environmental Conservation, editada pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. “Esse artigo, que passou pela revisão pelos pares, analisou todo esse sucateamento ambiental propiciado na atual gestão, já avisando que, como resultado disso, iria ocorrer aumento de desmatamento e queimadas”, disse.
O artigo, intitulado “O novo presidente do Brasil e ‘ruralistas’ ameaçam o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e o clima global”, está disponível para leitura no site da Universidade de Cambridge. O material traz críticas aos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Agricultura, Tereza Cristina Dias, e à agenda ruralista adotada pelo governo Bolsonaro.
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“A atual gestão não está empenhada em combater as queimadas e o desmatamento. É exatamente isso que está demonstrando esse aumento. Quando nós comparamos com os governos anteriores, seja o governo Temer, o governo Dilma, o governo Lula, as queimadas estão aumentando no governo Bolsonaro”, completou Ferrante.
Ao criticar a declaração do vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), de que um suposto opositor do governo no Inpe divulga dados negativos sobre queimadas, o biólogo afirmou que a fiscalização do Conselho da Amazônia, coordenado pelo vice-presidente, não alcançou os locais onde os incêndios estão concentrados.
“O Conselho da Amazônia realizou ações de fiscalização onde os incêndios não estavam concentrados. Além disso, o vice-presidente criou teorias fantasiosas para dizer que dentro do Inpe existia um inimigo que divulgava os dados das queimadas e do desmatamento contra o Brasil. Esses dados sempre foram públicos”, disse Ferrante.
Força tarefa
Nesta quarta-feira, 14, o MP-AM (Ministério Público do Estado do Amazonas) anunciou a criação de um grupo de promotores para atuar no combate a desmatamentos e queimadas ilegais no Estado nas esferas administrativa, civil e penal. O grupo é composto pelos promotores Míriam Figueiredo, Gabriel Salvino, Jarla Ferraz, Vinícius de Souza, Wesley Machado e Sylvio Duque Estrada.
De acordo com o MP, os promotores atuam em municípios do Sul do Amazonas, parte da região conhecida como “arco do desflorestamento”, onde ocorre a maior quantidade de focos de queimada e derrubada de floresta nativa da Amazônia brasileira, região das mais afetadas por queimadas no Estado do Amazonas, de acordo com o Inpe.
A procuradora-geral de Justiça do Amazonas, Leda Mara Albuquerque, afirmou que o objetivo da ‘força tarefa’ é exercer uma fiscalização maior sobre as ações criminosas, responsabilizando os autores de crimes contra o meio ambiente. “O nosso Estado vem sendo apontado, sistematicamente, como um dos grandes responsáveis pelas áreas em que são recorrentes as ações de queimadas”, disse Albuquerque.
