
Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS – Em junho de 2019, o estudante Carlos Eduardo Almeida, de 25 anos, comprava a carne bovina em conserva de 320g por R$ 4,99 em um supermercado popular de Manaus. Hoje, o mesmo produto custa entre R$ 7,95 e R$ 13,09 na capital, segundo site Busca Preço, da Sefaz-AM (Secretaria de Fazenda do Amazonas).
A alta no preço dos alimentos, potencializada pelos efeitos da pandemia de Covid-19 na economia brasileira, também alcançou outros produtos considerados “acessíveis” e “práticos” como sardinha enlatada, charque e ovos. “Antes a gente conseguia comprar quatro ovos por R$ 1. Agora com esse valor eu só compro um”, disse o estudante.
De acordo com notas fiscais acessadas pelo ATUAL, a sardinha em lata de 125g custava R$ 3,55 entre junho e novembro de 2019. Em março de 2020, o produto da mesma marca e quantidade passou a custar R$ 7,19. Hoje, segundo o site “Busca Preço”, o consumidor tem que desembolsar entre R$ 6 e R$ 11,49 para comprar a lata com o pescado.
Além da incidência tributária e a questão logística, o aumento da demanda gera a alta de preços, segundo a professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Michele Lins Aracaty e Silva. No caso de produtos industrializados, a alta na procura é ocasionada pelo empobrecimento (perda do poder aquisitivo ) das famílias, que passam a buscar produtos mais baratos.
“Toda vez que eu tenho o aumento da demanda por esses produtos, nesse caso, causado pela perda do poder aquisitivo das famílias, o empobrecimento das famílias, nós temos também um aumento do preço desses produtos. Então, aumentou a demanda e eles também elevaram os preços”, afirma a professora universitária.
“Quando você ganha muito pouco ou então quando é assalariado, além da alimentação pesar na sua cesta de consumo – corresponde, por exemplo, entre 20% e 30% do que você ganha -, você acaba sendo obrigado a comprar produtos que vão te fazer mal, que são produtos que vão te trazer uma característica de subnutrição ou insegurança alimentar”, completa Michele Lins.
Existem três níveis de segurança alimentar: leve – quando a família opta por uma qualidade inadequada de alimento para ter quantidade suficiente para todos; moderada – a família reduz a quantidade de comida ou o número de refeições para que todos sejam alimentados; e grave – quando a família passa fome por falta de dinheiro.
Michele integra grupo de pesquisas da USP (Universidade de São Paulo) que estuda sobre a insegurança alimentar e a renda. Segundo a professora, os últimos levantamentos indicam que as pessoas de menor poder aquisitivo estão consumindo mais produtos industrializados e menos frutas, legumes e hortaliças. Ainda assim a cesta de alimentos tem pesado.
“A cada ano que passa as pessoas de menor poder aquisitivo estão se alimentando pior, apesar de que o peso da alimentação na renda deles estar aumentando – hoje corresponde a 30%. Trinta por cento do que eles ganham vai para a alimentação e é justamente uma alimentação completamente incorreta, que são esses produtos industrializados”, afirmou Michele.

Acessíveis
De acordo com a professora, os alimentos industrializados estão mais acessíveis a comunidades carentes. “Tem uma característica geográfica e econômica que diz o seguinte, principalmente nessas favelas ou comunidades muito carentes: o que realmente está disponível para eles? refrigerantes, suco de caixinha, achocolatados, pães e massas”, disse Michele.
“Essa disponibilidade força ainda mais as pessoas de baixa renda a comprarem esse tipo de produto. Para sair de uma comunidade carente e ir até uma feira onde a gente vai comprar frutas e legumes, produtos mais saudáveis para eles isso está completamente distante da realidade deles”, completou a professora.
Michele também chama a atenção para uma questão industrial que tem afetado consumidores de forma silenciosa. É que as empresas tem reduzido a quantidade do produto na embalagem sob justificativa de “segurar os preços”, mas, na prática, “o preço do produto ficou mais elevado”. “Não foi somente nos produtos relacionados a alimentação”, disse a professora.
“Praticamente todos os produtos passaram por esse processo. O papel higiênico é mais caro hoje, mas tem menor quantidade por metro. A indústria fez esse processo de transformação também. O consumidor muitas vezes compra o produto e não olha, não tem essa percepção, mas ele está pagando mais caro pelo produto que tem menor quantidade”, completou Michele.

Pandemia
De acordo com a professora, a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, desorganizou todas as cadeias produtivas e a escassez de produtos impulsionou a alta de preços. “O desabastecimento desses produtos foi frequente principalmente nos ‘atacarejos’ e também nos grandes centros onde a população vai adquirir esses produtos e mercadinhos”, disse Michele.
“No momento em que o produto está escasso no mercado, o revendedor, o fabricante ou o distribuidor eleva o preço do produto. Nós tivemos elevação substancial do preço de inúmeros produtos, inclusive dos industrializados. E o consumidor sentiu. No momento em que ele voltou às compras, ele percebeu quanto mais caro ficou o produto”, completou a professora.
Michele explica que, em razão das medidas restritivas, empresas não conseguiam entregar a mesma quantidade de produtos nos supermercados, o que gerava a escassez. “Muitos consumidores iam nos ‘atacarejos’ e supermercados, procuravam produto e não achavam porque ainda não tinha condições de ser entregue em tempo hábil”, afirmou.
Marcas de segunda
No período da pandemia, a saída econômica para famílias de baixa renda foi compra de produtos de marcas desconhecidas. “Os consumidores passaram a procurar marcas que são menos conhecidas. Aquelas marcas de segunda e terceira linha que geralmente ficam na parte debaixo nas prateleiras dos supermercados”, afirmou Michele.
“Nesse período da pandemia, o consumidor aprendeu a olhar para a parte inferior das prateleiras e passou a comprar produtos de marcas até então desconhecidas, justamente para que ele possa continuar consumindo produto – por exemplo, sabão em pó, farinha e café – mesmo que não seja da marca que ele estava costumado a comprar”, completou a professora.
Os preços dos produtos, elevados na pandemia, foram mantidos mesmo após a reorganização das cadeias produtivas. Michele afirma que o país está vivendo dois processos: aumento do preço e perda do poder aquisitivo por causa da inflação. “Você vê a sua renda comprar menor quantidade de produto cada vez que você vai ao supermercado”, disse a professora.
