
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – As adegas, ao contrário do que alguns defendem, não são ambientes de descontração a custos baixos para pessoas das periferias de Manaus. Assim como os paredões (equipamentos de som montados em carros para promoção de festas nas ruas) são, antes de tudo, um ambiente perturbador do sossego público.
No Brasil, a poluição sonora é tratada com desleixo pelas autoridades e usada com abuso por cidadãos e cidadãs, que acham-se no direito de transformar o ambiente num espaço privado seu, com o discurso de que “a rua é pública”.
Esse tipo de abuso inexiste em sociedades em que o respeito ao outro tem algum valor. Na Suíça, por exemplo, há leis rígidas que coíbem a poluição sonora e a perturbação do sossego alheio. Até descarga do banheiro à noite, depois de determinado horário, é proibida.
No Brasil, as pessoas acham que têm o direito de colocar uma música no volume que alcança todo o quarteirão, só porque está “em casa”. O problema é que quando faz isso, impede os vizinhos de também ouvir a música que gostaria e que não é a que o está incomodando. A vizinhança do vizinho barulhento fica impedida, por exemplo, de assistir a um filme no fim de semana, porque outro resolveu ouvir música alta.
As chamadas adegas são festas barulhentas organizadas determinado indivíduo que decide montar uma venda de bebidas e oferecer música acima de 80 decibéis no meio da rua. Esses eventos, regados a muita bebida e drogas, varam a madrugada e chegam a terminar com o sol a pino, nos fins de semana.
O problema é que elas acontecem em áreas urbanas residenciais. Ora, todo cidadão tem direito ao sossego diurno e noturno. O sossego noturno é algo inegociável, apesar de muito desrespeitado no Brasil.
Em algumas festas também aparecem os paredões. De tão potentes, esses equipamentos de som fazem os objetos tremerem dentro das casas próximas. O barulho é ensurdecedor. Por isso, deveriam ser proibidos em áreas residenciais a qualquer hora do dia e da noite.
Os paredões são uma aberração até para locais desertos. Próximo de florestas perturbam o sossego dos animais. Deveriam, na verdade, serem tirados de circulação. Um paredão em pleno uso em área urbana deveria ser apreendido e destruído com fogo, como fazem as autoridades ambientais com as dragas nos rios da Amazônia.
O tema do sossego alheio deveria despertar o interesse de vereadores, deputados e senadores para a criação de leis. Mas também deveria mobilizar as autoridades constituídas – Secretarias de Meio Ambiente, Polícia Ambiental, e demais forças de segurança – para a aplicação das leis ambientais, que já coíbem a poluição sonora.
Os cidadãos e as cidadãs têm o direito de dormir em paz, de descansar nos fins de semana sem o barulho do som do vizinho, sem a baderna das adegas ou o som dos paredões.
E o Estado é o responsável por garantir esse direito. Sem a mão do Estado, a correção desse problema pode gerar violência morte, uma vez que o respeito ao outro no Brasil costuma ter pouca adesão.

