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Sem categoria

O Templão

1 de fevereiro de 2014 Sem categoria
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Em casa de amigos, mais do que isso, seguidores fieis, mandou instalar em área privilegiada uma sucessão de câmeras para acompanhar o dia a dia da construção da nova Arena da Amazônia. Embora morando bem distante de Manaus, nunca saía de casa sem dar uma olhadinha na evolução das obras, desde o início do início – ‘the begin of the begin’ –, como fazia questão de ressaltar, usando linguagem bíblica, muito a seu gosto. Era o ‘big brother’ particular do famoso pastor brasileiro, somente dele e de mais ninguém. Com ciúmes do que via, mania de ‘voyeur’, não dividia o prazer da espiadinha nem com os mais próximos.

Testemunhou a destruição do Vivaldão e vibrou com cada viga ou parede demolida, com a mesma intensidade com que a Nação haveria de encontrar-se com a conquista do campeonato mundial, segundo suas expectativas. Indignou-se contra quem condenou a iniciativa, mais do que ninguém ciente de que o povo, além de pão e circo, também precisava de muita religiosidade, sem a qual jamais suportaria as agruras do cotidiano, cada vez mais pesadas. Arre, não conseguia entender como se podia ser tão negativo, como se podia usar a crítica pela crítica, pelo simples prazer de dizer não, sem alcançar a grandeza e os elevados objetivos da obra. Que não fosse somente em benefício do futebol, mas que também servisse para abrir os corações pela fé e pelos recursos que brotariam em cascatas, em nome do Senhor que tudo provê e abençoa.

Com intensa alegria, olhava agora o projeto pronto e acabado, com as autoridades locais em visitas constantes e já cansativas ao Arenão, melhor dizendo, ao Templão. Lá, em sua inauguração, ele e todos brindariam com brancos de castas selecionadas e superiores das melhoras cepas europeias, numa homenagem atribuída a si próprio, ao seu nome religioso.

Ali teria seu grande palco, gigantesco anfiteatro, muito conforto, camarotes para os privilegiados, subvencionadores do paraíso, e arquibancadas para a ralé, contribuinte modesta, mas indispensável na corrida do tostão ao milhão. Uma acústica irretocável, sob o ovalado céu amazônico, sistemas avançados de televisão, com circuitos de alta tecnologia e transmissões simultâneas, ambiente ideal para gladiar com os inimigos do sagrado e de seus mais arraigados princípios religiosos, diante da assistência e da  solidariedade de milhares e milhares de acólitos fanáticos.

Bem, venceu, conseguiu o que sempre quis, sem gastar um centavo sequer. Coisas do governo, com dinheiro público, exclusivamente público, de ninguém, porquanto de todos, segundo concepções convenientes. E assim esfregava as mãos de contentamento. Restava-lhe apenas aguardar os quatro jogos pingados da Copa, que logo passariam, para que o Arenão lhe caísse no colo. Tudo a um custo ridículo, diante do potencial de arrecadação dos donativos domingueiros, ao vivo e em cadeia nacional.

Alimentava convicções irrefutáveis. Futebol regional não havia e o maior clássico baré não conseguia reunir mais do que mil torcedores. Os custos fabulosos de construção do estádio, herança nefasta a ser paga pelos contribuintes do futuro, filhos e netos da geração presente, já tinham sido transferidos para as calendas, mas a manutenção do mastodonte era realmente insuportável. Benza a Deus, ponderava consigo mesmo, que nunca abandona quem nele confia, pois somente com suas pregações messiânicas a solução fora encontrada. Tinha plena consciência de que apenas com um púlpito de imensas proporções seria possível dar uma destinação ao incrível surto de megalomania cabocla.

É verdade que nem tudo saiu como desejava e a falta de estacionamento revelava-se um dos graves defeitos do empreendimento. Incomodava-se em não ter como abrigar os carrões importados de seus colegas e dos mantenedores endinheirados de sua religião. Mas, vá lá que seja, nem tudo é perfeito. No final, dariam um jeito, ainda que continuasse inconformado com a falta de previsão sobre a construção de garagens, que poderiam realmente aumentar os rendimentos de suas ações de mercantilização do credo e da ingenuidade.

Importante era logo se ver no palco, microfone nas mãos, a voz arrastada, alternando-se entre metálica e rouquenha, os equipamentos sofisticados de transmissão via satélite e a audiência de milhões e milhões de seguidores pelo mundo afora, atentos às suas palavras, místicas e reconfortantes para os deserdados da vida, infelizes e vulneráveis. Atrás da monumental ribalta, o tilintar glorioso e ensurdecedor das caixas registradoras, na rolagem de cifras crescentes e milionárias, num vai e vem frenético e sem fim, a alimentar a fantástica indústria da fé.

Movia-lhe, agora mais do que nunca, a certeza de que o governo ajuda quem cedo madruga. O Arenão era o seu Templão, todo seu, exclusivamente seu. E quem reclamasse que fosse se queixar ao bispo. Qual bispo, seu bispo?

[email protected]

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administrador 1 de fevereiro de 2014
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