
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – O calor intenso típico de Manaus também ocorre no interior do Amazonas, mas a diferença é a sensação térmica que pode ser bem mais alta em cidades como Parintins e Autazes. A umidade do ar é a responsável por tornar a temperatura mais alta.
“No termômetro, o interior alcança Manaus, mas não a supera de forma geral”, afirma Leonardo Vergasta, meteorologista do Labclim (Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre) da UEA (Universidade do Estado do Amazonas).
Ele cita o dia 22 de setembro quando a temperatura coincidiu em Autazes (38,8°C), Manaus (38,6 °C), Manacapuru (38,5°C) e Itacoatiara (38,4°C). “Foi um episódio regional, não só da capital”, disse.
Segundo Vergasta, entre agosto e setembro Autazes passou de 37°C em 24 dias, contra 15 de Manaus. Ele ressalva que a cidade tem só 56 dias de dados. Parintins, Boca do Acre e Humaitá chegaram a 38,1°C.
Para a meteorologista Andrea Ramos, o interior pode registrar máximas iguais ou maiores que as de Manaus em vários períodos do ano, especialmente na seca. “Isso tende a acontecer com maior frequência em áreas do sul e sudoeste do estado, como Lábrea, Boca do Acre, Humaitá e Manicoré”, diz. Ela cita menos nuvens e chuva, solo mais seco e mais sol. Neste ano, o Cemaden acompanha a intensificação da seca em partes do Amazonas.

A meteorologista Juliane Querino lembra que a resposta muda ao longo do ano. “Sim, em alguns municípios do interior a temperatura do ar pode ser maior que as registradas em Manaus, mas isso vai depender da época do ano, das condições atmosféricas, da cobertura vegetal, da umidade do ar.”
Parintins
Os dados do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) mostram a diferença entre temperatura e sensação térmica. Em Parintins, a média das máximas foi de 35,7°C, contra 35,8°C em Manaus. A sensação média à tarde, porém, foi de 40,7°C na cidade do interior e de 37,5°C na capital.
“Em 46% das horas da tarde, Parintins passou de 41°C de sensação, contra 2% em Manaus. Autazes vem em seguida, com 39,1°C”, diz Vergasta.
A umidade explica a diferença. Em Parintins, a umidade média à tarde foi de 56%, contra 47% em Manaus. Em Barcelos e Novo Aripuanã, a umidade à tarde fica entre 62% e 68%. O termômetro marca menos, mas a sensação chega a cerca de 36°C.
Umidade, vento e sol
Segundo Leonardo Vergasta, a sensação de calor, tecnicamente chamada de índice de calor, depende de três fatores. Na Amazônia, o que mais pesa é a umidade. Ele dá um exemplo. Com 36°C e 50% de umidade, a sensação é de cerca de 43°C. Com os mesmos 36°C e 70% de umidade, sobe para 54°C.
O sol também pesa. “O termômetro oficial mede na sombra. Quem está na rua, sob o sol, sente ainda mais calor do que está sendo medido no termômetro”, afirma Vergasta. Isso ocorre em função da grande quantidade de concreto e asfalto e à falta de arborização.

Andrea Ramos reforça. “Duas pessoas expostas à mesma temperatura do ar podem sentir condições muito diferentes se uma estiver sob sombra e a outra sob sol intenso”.
No interior, segundo ela, também pode haver maior exposição direta ao sol, menos sombra em determinadas áreas, atividades ao ar livre e menor circulação de vento. “Tudo isso aumenta a carga de calor recebida pelo corpo”.
Juliane Querino cita que o uso do solo influencia os efeitos da temperatura. “Um ambiente mais arborizado apresenta temperaturas mais amenas do que em um espaço com mais concreto”.
Ela acrescenta: “No interior, fatores como desmatamento, menor disponibilidade de sombra, redução da umidade do solo e maior exposição à radiação solar podem alterar o microclima local e aumentar essa sensação de calor maior que na capital. Entretanto, como dito anteriormente, vai depender da época do ano, das condições atmosféricas e das características de uso do solo de cada município”.
Dia e noite
Na capital, o calor intenso está associado à urbanização. “O asfalto e o concreto da ilha de calor guardam energia durante o dia e a dissipam à noite”, diz Vergasta. “A cidade esquenta muito durante o dia e perde pouca energia durante a noite. No interior, a combinação de temperatura alta e umidade alta é o que faz as pessoas sentirem mais calor”.
Andrea Ramos diz que em Manaus a urbanização, a nebulosidade variável e a influência de rios e áreas vegetadas criam diferenças locais importantes.
O centro de Manaus ficou 3°C mais quente que a Reserva de Cuieiras, a cerca de 30 km da capital, em cinco dos 12 meses de 2025. Um estudo da UEA mediu diferença máxima de cerca de 3,5°C entre estações urbanas e rurais. Por satélite, nos meses mais secos, áreas de asfalto e concreto chegaram a até 10°C acima das de floresta.
A “mancha” urbana passou de 91 km² em 1973 para 242 km² em 2008. A temperatura média da cidade subiu 0,7°C entre 1961 e 2010 devido a ocupação de áreas de floresta.

Fumaça
Atingida por fumaça de incêndios florestais desde o início de outubro, Manaus ficou encoberta e com grau de poluição do ar em nível perigoso à saúde. A fumaça, porém, não esquenta o ar de forma direta, mas piora o mal-estar. “Para quem respira, o ar poluído cansa e soma-se ao calor, então a pessoa se sente pior mesmo sem o termômetro subir”, diz Leonardo Vergasta.
Em meses de muitas queimadas, a radiação solar que chega ao solo pode cair até 30%. “Em compensação, a fumaça atrapalha a formação de nuvens e de chuva, o que prolonga a seca”, afirma o pesquisador.
O cenário deste ano preocupa. O Amazonas somava 7.815 focos de queimada até 12 de outubro, contra 3.611 no mesmo período de 2025.
Floresta e rios
“A floresta e os rios amenizam o calor, e a cidade grande o acumula: é o que os estudos mostram para a Amazônia”, diz Leonardo Vergasta. Os valores de “temperatura da superfície” vêm de satélites e costumam ser mais altos que os do termômetro, porque medem concreto, asfalto, telhados e copas das árvores.
Sobre a floresta, ele explica: “As árvores liberam vapor de água pelas folhas, a evapotranspiração, e isso resfria o ar, como o suor resfria o corpo”.
Em áreas da Amazônia com menos de 60% de floresta, a temperatura da superfície na seca foi cerca de 3°C maior que em áreas preservadas, e a evapotranspiração foi cerca de 12% menor. Em áreas muito desmatadas, a superfície ficou cerca de 0,4°C mais quente que a floresta vizinha. Nos três meses mais secos, onde a perda de cobertura passou de 60%, a diferença chegou a 1,5°C.
Sobre os rios, perto de Manaus há uma brisa de rio e de terra movida pela diferença de temperatura entre a água e a floresta. “A água esquenta e esfria mais devagar que o solo, e essa circulação movimenta o ar perto dos rios”, diz Vergasta. Mas o efeito em cada cidade ribeirinha “ainda é pouco medido”, e os dados do Inmet não permitem separar essa influência.

Calor é sensação pessoal
Andrea Ramos lembra que a sensação térmica nem sempre bate com o índice calculado só com temperatura e umidade. “A sensação é aquela temperatura que a pessoa sente e varia de pessoa para pessoa. Tem gente que sente mais frio, outras mais calor”.
Tanto a temperatura ambiente quanto a sensação térmica têm efeitos sobre o corpo humano. O corpo se resfria suando, mas o suor só refresca quando evapora. “Para evaporar, o ar precisa ter espaço para receber mais vapor de água. Em dia úmido, o ar já está quase cheio e o suor fica na pele sem esfriar. É o mesmo motivo de a roupa não secar no varal em dia úmido”, explica Leonardo Vergasta.
Ele resume o efeito: “A pessoa transpira mais e se refresca menos, e o corpo sente o calor como bem mais forte do que o termômetro indica. Por isso o índice de calor dispara quando temperatura alta e umidade alta se somam.”
Juliane Querino diz o mesmo. “Quanto maior a umidade, menor a perda evaporativa de suor pelo corpo. A pessoa pode continuar suando bastante e, ainda assim, sentir que o corpo não está esfriando, causando uma sensação desconfortável”.
Para ela, a transpiração é a forma de o corpo se proteger. “É uma maneira do corpo resfriar o organismo para não entrar em exaustão. Quanto maior a sensação de calor, maior a transpiração do corpo para regular o organismo, e isso dependerá de pessoa para pessoa”.
Juliane também lembra que a Região Norte tem registrado valores altos nos últimos meses. “Se a temperatura máxima no dia é 37°C, o valor da sensação térmica é de 41°C”.
O vento ajuda a esfriar? “Ele leva embora o ar quente e úmido colado na pele e ajuda o suor a evaporar. É o efeito de um ventilador. Sem vento, o mesmo calor pesa mais”, diz Vergasta. Ele ressalva que, na região, os ventos são de fracos a moderados e não contribuem de forma direta para o cálculo.
Juliane tem a mesma leitura. “O vento ajuda a remover a camada de ar quente e úmida próxima à pele, favorecendo a evaporação do suor. E a exposição à radiação solar aumenta a temperatura corporal”. Para ela, é a soma desses fatores, e não só a temperatura, que “determina boa parte do estresse térmico experimentado pelas pessoas”.
