

Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – A participação indígena nas eleições do Amazonas cresce em candidaturas, mas a representatividade efetiva avança em ritmo lento, especialmente para as mulheres. Embora o estado lidere o volume de registros no país — saltando de 467 em 2020 para 558 em 2024 —, o total de eleitos subiu apenas de 46 para 47 (um crescimento modesto de 2,2%, concentrado em 16 municípios). Foram eleitos 43 vereadores, um prefeito e três vice-prefeitos.
Em 2020, o estado elegeu 46 indígenas para cargos municipais, segundo levantamento da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Em 2024, os nove estados da Amazônia Legal somaram 1.274 candidaturas indígenas, o maior número desde o início dos registros de etnia pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Desse total, 107 indígenas foram eleitos no primeiro turno. O Amazonas concentrou a maior parte dos eleitos: 47, o equivalente a 44% do total da região.
Um dos exemplos mais expressivos é São Gabriel da Cachoeira, município com forte presença indígena. Dos seis candidatos que disputaram a prefeitura em 2024, cinco eram indígenas.
Com 91% do eleitorado autodeclarado indígena, o município elegeu Egmar Curubinha (PT), da etnia Tariana e sobrinho do ex-prefeito Curubão (PT). Eliane Falcão (PT) é a vice-prefeita.

A presença indígena também foi dominante na Câmara Municipal: 12 dos 13 vereadores eleitos são indígenas. Porém, as mulheres ficaram em minoria: apenas três das 12 vereanças indígenas foram ocupadas por mulheres — Rosa Motta, Dra. Suely e Jackeline Vieira. Os dados são do TSE.
Apesar desse avanço, a representatividade é baixa. Em 2024, os 43 vereadores indígenas eleitos no Amazonas foram distribuídos por 16 municípios. São Gabriel da Cachoeira liderou, com 12 eleitos, seguido por Tabatinga (5), Amaturá (4), Benjamin Constant e Santo Antônio do Içá (3 cada).
Outros 11 municípios elegeram entre um e dois vereadores indígenas. Manaus não elegeu nenhum vereador autodeclarado indígena, apesar de concentrar a maior população indígena urbana do país, com cerca de 71,7 mil indígenas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística).
Reconhecida como uma das principais lideranças indígenas e femininas do Amazonas, Vanda Witoto disputou uma vaga na Câmara Municipal de Manaus em 2024, mas não foi eleita. Em 2026, ela concorre a uma vaga de deputada federal pelo Amazonas ao sair do partido Rede Sustentabilidade e ingressar ao MDB, do senador Eduardo Braga.
Para as eleições de 2026, os registros ainda estão em atualização. Até o momento, são 8 candidatos autodeclarados indígenas a deputado estadual, equivalentes a 3,03% das 264 candidaturas ao cargo. Para deputado federal, são 3 candidatos indígenas, ou 2,73% das 110 candidaturas.
O estado soma 11 candidaturas autodeclaradas indígenas identificadas nos dados parciais, incluindo Isael Munduruku, candidato ao governo. Do total, sete são homens (58,3%) e cinco são mulheres (41,7%).
Entre os candidatos a deputado estadual, as etnias declaradas são Mura (37,5%), Munduruku (25%), Kambeba (12,5%), Tariana (12,5%) e Tikuna (12,5%). Na disputa para deputado federal, 66,7% são Mura e 33,3% Witoto.

Defesa dos interesses
Para Leland Barroso de Souza, analista judiciário do TRE-AM (Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas), especialista em Direito Eleitoral e professor de Direito Público, o crescimento da participação indígena está ligado à maior conscientização sobre a importância da representação política.
“Penso que a explicação passa pela conscientização de que, somente elegendo representantes, especialmente para os parlamentos (municipal, estadual e federal), os indígenas terão aprovados projetos de leis que defendam seus interesses”, avalia.
Leland também destaca a expansão dos meios de comunicação nesse processo. “Com a expansão dos meios de comunicação, os indígenas estão mais esclarecidos de que também são cidadãos merecedores de todos os direitos que os demais, e de que esses direitos só serão protegidos com a criação de leis”.
Segundo o professor, a ampliação também pode ocorrer porque pautas defendidas pelos povos indígenas passaram a despertar maior interesse da sociedade.
“Cresce, também, o número de pessoas que percebem que os princípios defendidos pelos indígenas são de interesse geral, todos buscamos a proteção do meio ambiente, um saudável relacionamento com a natureza, a proteção do direito de todos, etc”, afirma.

Preconceito
Apesar do crescimento das candidaturas e dos indígenas eleitos, Leland Barroso cita um obstáculo social. “Penso que, apesar do avanço, ainda existe um certo preconceito com relação aos indígenas, daí a baixa votação nos outros municípios e na capital”.
Segundo ele, o desconhecimento sobre os povos indígenas também é uma barreira. “Acho que um dos principais obstáculos é o desconhecimento da cultura indígena e dos interesses desses povos”.
Igualdade de condições
A ativista e liderança feminina Eliza Sateré, do Parque das Tribos, em Manaus, também considera o crescimento das candidaturas um avanço, mas afirma que ainda existem dificuldades para tornar essas disputas mais equilibradas.
Integrante da coordenação do Fórum Indígena de Políticas Partidárias (FIPP), Eliza defende que os candidatos indígenas tenham as mesmas condições de disputa.
Para ela, aumentar o número de candidaturas e garantir que elas sejam competitivas são questões diferentes. “Nossa luta é para que a candidatura indígena seja tratada com a mesma seriedade, respeito e dignidade que qualquer outra candidatura. Não queremos privilégio. Queremos igualdade de condições, reconhecimento e respeito à nossa representatividade”.
Ela cita como exemplo as pesquisas eleitorais. “Eles tentam invisibilizar os indígenas, principalmente os candidatos indígenas. Eu não vejo nenhum aparecer, na verdade”.
Eliza Sateré diz que o eleitorado que se autodeclara indígena no Amazonas passou de 37.359 em 2024 para 73.580 em 2026, crescimento de aproximadamente 97%.
Para Kleber Mura, representante do povo indígena Mura em Autazes, o crescimento da participação indígena nas eleições é um passo importante para fortalecer a defesa dos direitos das comunidades. “Avaliamos como um passo importante para o desenvolvimento do nosso povo indígena. Precisamos ter representatividade em todas as esferas, para lutarmos e defender nossos direitos”.

Entrave partidário
A advogada indígena Inory Kanamari afirma que falta apoio financeiro e partidário aos indígenas. “Quantos desses candidatos indígenas realmente tiveram condições reais de disputar as eleições de 2024? Quantos receberam recursos financeiros que os permitissem disputar de forma igual com os demais candidatos? Quantos tiveram estrutura partidária e apoio efetivo do seu partido político?”, questiona.
Segundo Inory, é preciso ter cuidado para não confundir o aumento das candidaturas com o fortalecimento da representação política. “Esse crescimento das candidaturas indígenas é um sinal de mudança, mas ainda não podemos chamá-lo de avanço efetivo da representação política. Precisamos ter muito cuidado para não confundir candidatura com representatividade”, afirma.
Inory cita que o Amazonas possui a maior população indígena do país, mas essa realidade ainda não se reflete nos espaços de poder.
“Quando olhamos para a história política do Amazonas, percebemos que a presença indígena no Executivo e no Legislativo ainda é uma exceção. Se somos o estado mais indígena do Brasil, deveríamos ter indígenas em todos os espaços de decisão. Isso, infelizmente, não ocorre”.
Para a advogada, o avanço real acontece quando as candidaturas se transformam em mandatos. “Ter indígenas candidatos não significa, necessariamente, ter indígenas participando do poder. O avanço de fato significaria ter indígenas eleitos, ocupando espaços de decisão e ajudando a definir políticas públicas”.
Inory também aponta casos em que candidatos indígenas seriam usados apenas para compor chapas ou demonstrar diversidade partidária. “Há uma diferença enorme entre convidar alguém para ser candidato e trabalhar para que essa pessoa seja eleita”.
Segundo a advogada, a desigualdade também está ligada às condições econômicas e ao racismo estrutural. “A maioria dos candidatos indígenas, infelizmente, não tem condições econômicas para disputar uma eleição”.
Para Inory, a mudança também depende dos próprios partidos. “A legislação por si só não vai resolver o problema. O problema será resolvido quando as pessoas, a sociedade e os partidos políticos começarem a entender que precisam realmente apoiar a candidatura indígena e não apenas usar o indígena como um enfeite eleitoral”.

Espaço de resistência
A presidente da Cooperativa de Empreendedores Indígenas do Parque das Tribos, a advogada Danielle Baré, avalia que o aumento das candidaturas indígenas no Amazonas representa uma resposta histórica dos povos originários à falta de representação nos espaços de poder. “Esse aumento expressivo vem ser uma resposta histórica de um povo que cansou de ter não indígenas falando por eles e decidiu que poderia falar por si mesmo”, afirma
Segundo ela, durante muito tempo a política institucional manteve os povos indígenas afastados das decisões. “A política não indígena sempre tratou os povos originários como objeto de tutela ou mesmo uma estatística distante, tentando inviabilizar a presença indígena, sobretudo nos contextos urbanos”.
Para Danielle, o crescimento das candidaturas é resultado do fortalecimento dos movimentos indígenas e das lutas por direitos. “O salto que vimos reflete um amadurecimento da militância indígena, principalmente dos movimentos sociais, da luta por moradia nas grandes cidades e da defesa intransigente dos nossos direitos”.
Danielle afirma que os povos indígenas passaram a enxergar a política como mais um espaço de resistência.
“Os indígenas passaram a compreender que a luta social e a luta institucional caminham lado a lado. Quando o indígena coloca seu nome à disposição da sociedade para um pleito eletivo, ele traz consigo sua ancestralidade, sua sabedoria coletiva e a exigência de que o Estado cumpra seu papel institucional”.
Apesar do crescimento das candidaturas, Danielle ressalta que a representatividade não se resume à ocupação de cargos. “Estar nos espaços de poder é o primeiro passo para quebrar barreiras, mas a verdadeira representatividade acontece quando essa presença se traduz em políticas públicas concretas, em dotações orçamentárias reais e na garantia de que os nossos direitos sejam respeitados.”
“A nossa expectativa é transformar a indignação dos povos indígenas em leis justas e a invisibilidade em políticas públicas permanentes”, acrescenta

Protagonismo
Danielle Baré afirma que o fortalecimento da representação indígena também é importante para ampliar políticas públicas voltadas às necessidades das comunidades. Ela cita a saúde diferenciada, a educação indígena, o empreendedorismo e a qualificação profissional.
“A questão da saúde diferenciada ainda é uma demanda importante. Nós ainda não temos uma saúde efetiva em muitas comunidades. A educação também precisa avançar, com uma educação de qualidade e diferenciada, como os povos indígenas querem e merecem ter”.
Ela destaca ainda a necessidade de apoio aos indígenas que vivem nas cidades e buscam oportunidades de trabalho e formação. “Os indígenas que vêm para a cidade buscam qualificação e melhores condições de vida. Precisamos de políticas que apoiem aqueles que estão nas comunidades e também aqueles que vivem no contexto urbano”.
Danielle conclui afirmando que o protagonismo indígena será fundamental para o futuro do estado. “O futuro do Amazonas passa obrigatoriamente pelas mãos e pelas vozes de seus povos originários”..

