
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Trabalhar na exploração de petróleo na foz do Amazonas é um dos objetivos do estudante Lucas Bonifácio, de 22 anos. Ele é aluno do curso de Engenharia de Petróleo e Gás na Ufam (Universidade Federal do Amazonas). “Eu tenho interesse em atuar nessa região, principalmente na área de engenharia de poços. É um novo desafio. Eu tenho buscado me preparar na parte técnica”, contou o estudante.
A licença para a exploração de petróleo na Foz do Amazonas foi emitida pelo Ibama em outubro de 2025, autorizando a Petrobras, empresa responsável pelo serviço, a perfurar o poço exploratório a 175 quilômetros da costa do Amapá. Após um vazamento que interrompeu a perfuração em janeiro deste ano, a obra foi retomada em fevereiro e, de acordo com nova previsão, deve ser concluída em agosto.
Embora o setor tenha potencial para empregar profissionais em áreas como engenharia, geologia, geografia e logística, a formação da mão de obra local enfrenta dificuldades, desde a falta de iniciativa nas universidades até a carência de oportunidades para os recém-formados. Na Unifap (Universidade Federal do Amapá), até houve a iniciativa de capacitar profissionais em 2015, com a promessa de criação de um centro de pesquisa e uma especialização em meio ambiente, petróleo e gás. O curso funcionou, mas foi encerrado em 2017.
“A licença [para a exploração na foz do Amazonas] começou a demorar muito. A gente fez uma turma com 20 alunos. De 12 a 14 dos estudantes das mais variadas áreas conseguiram concluir. Mas as empresas começaram a sair, não acenavam mais para a universidade. E isso foi esquecido. A gente entendeu que não valeria mais a pena continuar”, disse o professor de geologia da Unifap, Marcelo Oliveira, que coordenou o curso.
O professor conta que a ideia é retomar o curso a partir de novas tratativas com a empresa Halliburton, uma das maiores fornecedoras mundiais de produtos e serviços para a indústria de energia, que explora petróleo na Guiana. “O representante da empresa veio sondar o que nós temos de curso, o que nós estamos fazendo, porque eles vão precisar. Ele falou que eles têm em torno de 600 funcionários, mas só 60 são da mão de obra local”, disse Marcelo.

Por enquanto, não há parcerias concretas ou garantias para que as empresas exploradoras de petróleo na margem equatorial brasileira se abasteçam dos profissionais que se formam na Região Norte. Na atual fase de perfuração de poços, a operação do setor petrolífero na costa do Amapá exige atuação de geocientistas, geógrafos, engenheiros, especialistas em tecnologia da informação, mecânica e gestão ambiental.
A Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá espera que nas próximas fases haja procura por profissionais em cargos de nível técnico e superior nas áreas de logística e cadeia de suprimentos, setor portuário e nas indústrias naval e offshore.
Essa expectativa surge não apenas pela demanda na costa do Amapá, mas porque o estado está ao lado de dois países potentes no setor petrolífero. Na Guiana, a expectativa é aumentar a produção de petróleo até 2028. O Suriname está em processo de pesquisa de exploração.
Conhecimento prematuro
Para Marcelo Oliveira, a formação de profissionais para atender essa demanda precisa avançar. “A gente ainda não tem maturidade de conhecimento desse setor para dizer a hora que temos que formar. A gente tem visto surgir muitos cursos ofertados aqui, às vezes na modalidade EAD, ou ofertados por políticos, mas isso não está claro. Eles [os políticos] dizem ‘ah, a gente vai colocar mão de obra para trabalhar’ e não é bem assim”, disse.
A professora da Ufam, Tereza Cristina de Oliveira, estuda fontes de petróleo, poluição hídrica e sedimentos. Ela lembra que para explorar recursos naturais é necessário, primeiramente, formar pessoas, observar a demanda das empresas, investir em estrutura nas universidades e estabelecer parcerias para incluir os profissionais da região.
“É muito necessário que haja formação, que pessoas da região, sobretudo, que possam trabalhar, que possam pensar sobre a proteção. Se a exploração vai acontecer, se é ainda uma perspectiva para explorar para ver se existe a viabilidade econômica, tudo é futuro. Mas a exploração vai ter, pelo menos, a viabilidade econômica do uso dessa reserva. Só com essa iniciativa já é necessário ter pessoas formadas”, disse Tereza Cristina.

“É uma área muito grande, que pouco se conhece, com fauna e flora que ainda nem se conhecem. É muito carente de estudos, de se conhecer plenamente a região que vai ser explorada. Isso é um dos principais problemas. É uma área que precisa de investimento em laboratórios, financiamento estratégico para nós termos laboratório na Região Norte que consigam fazer esse tipo de trabalho”, acrescentou a professora.
De acordo com o professor Marcos Castro, do Departamento de Geografia da Ufam, a Região Norte tem potencial para colaborar com profissionais das áreas de geociências, que contribuem com os estudos socioambientais. “Os impactos que podem ser identificados estão relacionados a dois aspectos. O primeiro é aquele diretamente relacionado à natureza, ou seja, o cuidado com possíveis vazamentos e contaminação do estuário e leito do rio. O segundo aspecto são os impactos sociais decorrentes das mudanças estruturais que os arranjos da exploração podem trazer às comunidades e cidades”, disse.
O diretor-presidente da Agência Amapá, Wandenberg Pitaluga Filho, explica que, atualmente, apenas as empresas Forresea (operadora do navio sonda) e a OMNI Táxi Aéreo prestam serviços na etapa de pesquisa e perfuração na foz do Amazonas. Segundo ele, essas organizações trabalham com “profissionais de alto nível de especialização e experiência” e que “seus funcionários vieram de fora do estado”.
“A Agência Amapá vem promovendo diálogos permanentes com universidades, instituições de ensino técnico, Sistema S e empresas do setor energético para identificar demandas futuras de qualificação profissional. Esse trabalho ocorre por meio do mapeamento dos perfis profissionais demandados pela indústria de óleo e gás, divulgação das oportunidades do setor que ocorre por meio de seminários e palestras. A partir de agosto haverá ações nas escolas amapaenses para apresentar a indústria de óleo e gás aos estudantes”, disse, Wandenberg.
Ele conta que o Estado mantém diálogo com a Unifap para reabrir o curso de especialização na área de petróleo e gás. “A universidade irá aguardar o término da pesquisa, que está sendo realizada pela Petrobras, para só após a confirmação do petróleo na costa do Amapá, a universidade iniciar o processo de abertura de curso de petróleo”, disse Wandenberg.

Escassez de oportunidades
No Amazonas, o curso superior de engenharia de petróleo e gás foi criado na Ufam em 2009 para atender estruturas de exploração de gás natural, como o gasoduto Coari-Manaus (a 370 quilômetros de Manaus). Logo, o mercado se expandiu com a descoberta de novas áreas, criando possibilidades para o setor. Atualmente, o curso conta com 167 alunos e nove professores. Mas segundo o professor Rigley Jorge Correa, os profissionais ainda encontram dificuldades na abertura de vagas e parcerias com empresas.
“É muito sobre oportunidade. A gente tem mão de obra qualificada, mas como é a relação com as empresas? Quais são as oportunidades que são oferecidas para esses profissionais que saem da universidade? Tem muitos que vão para outras regiões, ou para o Nordeste ou Sudeste, que acabam sendo absorvidos por lá. Mas assim, nós temos estudantes que estão trabalhando na exploração lá em Silves, né? Então, eu acredito que a exploração na foz do Amazonas vai viabilizar as oportunidades”, disse Rigley.
De acordo com o professor, a universidade está voltando a estabelecer diálogos com a Petrobras com o objetivo de dar destino à mão de obra qualificada na exploração de gás natural e com a expectativa de atender a cadeia de petróleo na margem equatorial.
“Depois de muito tempo, nós retornamos essa parceria. A gente está buscando esse alinhamento para atender a demanda. Além da Petrobras, nós temos parcerias com empresas que estão voltadas em outras partes da cadeia produtiva de petróleo e gás. Com a Petrobras, a gente está novamente com essa aproximação, já que tem essa demanda da foz do Amazonas. E acredito que, futuramente, vai trazer grandes frutos”, disse.
Enquanto as áreas de mão de obra direta ainda buscam identificar oportunidades, setores como hospedagem, transporte, alimentação e inovação já estão se beneficiando indiretamente no Amapá. “Esse cenário de exploração de petróleo demanda uma robusta cadeia de fornecedores locais. Nós precisamos ter esses fornecedores capazes de atenderem às exigências técnicas e operacionais do setor de petróleo e gás. Em relação à mão de obra, a gente tem várias entidades atuando no estado na qualificação direta”, disse a analista técnica do Sebrae-AP, Maria Nilda Oliveira.
A reportagem procurou a Petrobras para saber como a empresa está incluindo os profissionais da Região Norte na indústria do petróleo, mas não obteve retorno.
