
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – A filha da terapeuta manauara Glaucimar Almeida ganhou um celular aos 10 anos de idade. A mãe adiou ao máximo o acesso da criança ao aparelho por acreditar que o uso precoce poderia trazer prejuízos ao aprendizado e ao desenvolvimento infantil.
“Eu falo para a minha filha que ela precisa ter consciência, porque a criança não tem estrutura para entender que aquele aparelho pode prejudicá-la a longo prazo. A criança não deve ter celular e, quando tiver, é necessária a supervisão de um adulto”, disse Glaucimar.
Hoje, aos 11 anos, a menina utiliza o celular de forma supervisionada, mas a mãe relata que enfrentou resistência ao impor limites para o uso do aparelho. “Eu percebia que, quando ia tirar o celular, ela ficava indignada e irritada. Eu colocava vídeos educativos para ela assistir e explicava para ela: ‘você está vendo como você está se comportando?’ Eu tento mostrar que nós temos uma vida real a ser vivida, fora das telas”, contou.
Impactos no aprendizado
Crianças menores de 5 anos que usam diariamente o celular aprendem menos. Essa é a conclusão de um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) publicado em maio. A pesquisa foi realizada com 25 mil crianças de 5 anos em nove países, incluindo o Brasil, e revelou que o uso diário desse aparelho prejudica habilidades cognitivas e socioemocionais. No Brasil, participaram crianças dos estados de São Paulo, Ceará e Pará.
De acordo com os dados, em média, as crianças que usam o celular todos os dias obtiveram 11 pontos a menos em habilidades de compreensão de números e medidas e 10 pontos inferiores em vocabulário em relação àquelas que não fazem uso diário do aparelho. O levantamento também revelou defasagem em Matemática, em que o desempenho ficou 44 pontos abaixo da média registrada entre os países participantes da pesquisa.

O professor de Língua Portuguesa Peterson Luiz, que dá aulas em um curso preparatório em Roraima, explica que o uso do celular prejudica o aprendizado porque interfere em uma condição básica para aprender: a capacidade de sustentar a atenção por um período mais longo. Crianças e adolescentes precisam permanecer diante de uma tarefa tempo suficiente para compreender uma explicação, formular hipóteses, lidar com dúvidas e construir respostas próprias.
Segundo o especialista, o ambiente digital estimula mudanças rápidas de foco e oferece recompensas imediatas. Com o tempo, isso pode dificultar o envolvimento com atividades que exigem concentração contínua.
“Hoje, muitas crianças chegam à educação infantil já habituadas a consumir vídeos, jogos e conteúdos digitais diariamente. Essa tendência acompanha uma transformação mais ampla da vida social. O celular passou a ocupar um espaço central na organização das rotinas familiares, funcionando como ferramenta de entretenimento, distração e até de regulação do comportamento infantil”, disse.
Livro em vez de celular
O tempo em frente à tela pode ser usado para ler um livro. É o que jovens entre 18 e 34 anos têm feito com mais frequência. De acordo com a Câmara Brasileira do Livro, o Brasil ganhou mais de 3 milhões de compradores de livros em 2025.
O professor Peterson Luiz destaca que o cérebro não nasce preparado para ler, mas desenvolve essa habilidade por meio da criação de circuitos neurais que dependem da prática frequente e do contato prologado com textos. Por isso, a orientação é que esse hábito seja adquirido desde a infância por meio de livros físicos, evitando a velocidade de estímulos constantes das plataformas digitais.
“Muitos estudantes conseguem consumir uma grande quantidade de informações ao longo do dia, mas encontram dificuldade para permanecer alguns minutos diante de um texto mais complexo. A escola trabalha justamente com esse tipo de esforço intelectual. É nesse ponto que o uso excessivo do celular pode comprometer o processo de aprendizagem”, disse Peterson.
“A primeira infância é um período em que o desenvolvimento da linguagem, da atenção, da imaginação e das habilidades sociais depende fortemente da interação com outras pessoas e da exploração do mundo concreto. O uso excessivo de telas antes dos cinco anos pode produzir impactos que aparecem diretamente no cotidiano da sala de aula”, acrescentou o professor.

Ansiedade e desinteresse
Segundo a pedagoga Maria Helena Campinas, que trabalha na rede pública de educação em Itapiranga (a 340 quilômetro de Manaus), o uso excessivo de telas no ambiente doméstico tem reflexos diretos na rotina escolar. Ela observa que muitos estudantes estão habituados a estímulos constantes oferecidos pelos dispositivos eletrônicos.
Também é comum que as conversas entre os alunos girem em torno de desenhos, programas e conteúdos consumidos fora da escola. A pedagoga destaca ainda que algumas crianças reproduzem comportamentos vistos em desenhos com cenas de luta, fatores que podem comprometer tanto a aprendizagem quanto o processo de socialização dos estudantes.
“Os alunos que estão acostumados no celular o tempo todo em casa, a escola deixa de ser interessante para ele. Eles demonstram o comportamento de ansiedade também. Ficam pensativos em algo distante, roem unhas, rasgam papéis e isso está prejudicando na aprendizagem do aluno. Com consciência e bom senso, os pais ou demais responsáveis precisam orientar que tipos de canais e desenhos que as crianças devem assistir”, disse a pedagoga.
