
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – No fim do discurso denso de Milton Hatoum na posse como imortal, na Academia Brasileira de Letras, em que passeou ela história da literatura brasileira e mundial, com citações dos grandes escritores e das obras clássicas, o amazonense reservou um espaço para homenagear sua professora primária, Maria Luíza de Freitas Pinto, que o alfabetizou, e o livreiro Joaquim Melo, proprietário da Banca do Largo, já falecido.
A Banca do Largo, que segundo Hatoum, foi considerada pelo jornal britânico The Guardian como a menor livraria do mundo, era onde o escritor amazonense sempre fazia o lançamento de suas obras.
No discurso, Milton Hatoum lembra da amizade, da generosidade de Joaquim Melo, e dos presentes que dele recebia, como símbolo de uma sólida relação humana entre os dois.
A lembrança do livreiro no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras é também uma lição de humildade e humanidade de um escritor que sempre se mostrou modesto, apesar da profundidade dos trabalhos com que brinda seus leitores. Milton Hatoum é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, mas resistiu aos assédios para se tornar imortal até o ano passado, no alto de seus 73 anos de idade. E ao tomar posse, não exaltou o fato em si, a imortalidade. Disse, alto e bom som: “Não tenho pendor à imortalidade, não estava no meu horizonte ser imortal. Acho que imortais são os clássicos, e nunca tive pretensão de escrever clássicos.”
Milton pode não ter tido a pretensão de escrever clássicos, mas Dois Irmãos é um deles, como bem citou a escritora Ana Maria Machado, no seu discurso de boas vindas a Milton Hatoum.
Abaixo, o fragmento do discurso de Milton em que cita a professora primária Maria Luíza de Freitas Pinto e o livreiro Joaquim Melo:
“Por fim quero evocar uma mulher, a professora que me alfabetizou, e um amigo livreiro. Nos seus 104 anos de vida, dona Maria Luíza de Freitas Pinto acompanhou quase toda minha produção literária e foi ao lançamento dos meus livros em Manaus, na Banca do Largo, do saudoso amigo Joaquim Melo.
Lembro do lançamento conjunto com o querido Ailton Krenak, numa noite memorável, com a presença de muitos leitores, e claro, de Joaquim e sua filha Helena e a companheira dela, a médica baiana doutora Tereza Cristina. Elas estão aqui e ele vive na nossa memória.
O jornal The Guardian nomeou a banca do largo como a menor livraria do mundo. E eu acrescentaria o seguinte: uma das mais generosas. Joaquim doava bons livros a todo mundo, estudantes de escolas públicas, não só de Manaus, que passavam por lá e ele via que não podiam comprar livros, ele dava.
Ele me enviava caixas de isopor com peixes e farinha do Amazonas, geleia de bacuri feitas em Belém; queijo coalho, pimenta murupi, que minha amiga querida Rita Chaves certamente conhece.
Enfim, supimpas iguarias, como dizia Ubaldo na caso do turco Assis, o Ababa, no Curralinho [referência à obra de Guimarães Rosa – Uma Estória de Amor].
Certa vez, sem saber como agradecer, eu disse ao Joaquim que aquelas dádivas que tinham viajado quase 3 mil quilômetros era uma loucura. Ele se saiu com essa: ‘Mano, loucura é comer tilápia sonhando com tambaqui na brasa e farinha do Uarini’. Pode uma coisa dessas? E é mesmo. Isso é que é loucura.
E os últimos presentes de aniversário que ele me enviou são dois objetos muito valiosos: uma rara edição francesa de três contos do Flaubert e a primeira edição de Vidas Secas. E num bilhete ele escreveu o seguinte: ‘Para que não esqueças das professoras que te levaram à literatura. Não me esqueci.
Então é isso. As professoras e aos professores que formaram e continuam a formar leitores críticos dedico esse texto Imigrantes do Imaginário, que é também uma modesta homenagem a todos vocês, cuja presença nesta noite é uma alegria para sempre; alegria do conhecimento, como escreveu o poeta Drumond. Muito obrigado.”

