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Dia a Dia

Ofensiva contra o CV no Rio deve gerar alerta no AM, dizem ex-secretários

29 de outubro de 2025 Dia a Dia
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Moradores enfileiraram corpos em praça da Penha, no Rio: resultdo de megaoperação contra o Comando Vermelho (Foto: Tomaz Silva/ABr)
Moradores enfileiraram corpos em praça da Penha, no Rio: resultdo de megaoperação contra o Comando Vermelho (Foto: Tomaz Silva/ABr)
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL

MANAUS – A megaoperação policial no Complexo da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, nesta terça-feira (28), deixou 119 mortos, segundo o Governo do Rio, incluindo líderes do Comando Vermelho. Alguns, possivelmente, com vínculos diretos no Amazonas. A Secretaria de Segurança Pública do Rio ainda não confirmou as identidades.

O ex-secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel da PM Amadeu Soares, afirma que a facção fluminense controla a chamada “Rota do Solimões” utilizada para o tráfico internacional de drogas no estado. “O Comando Vermelho controla a rota aqui na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Essa rota é estratégica porque conecta os produtores de cocaína e maconha tipo skunk aos grandes centros do país”, diz.

“O acesso pelos rios da Amazônia, aqui Solimões, o próprio Rio Amazonas, que é o rio que leva até o oceano, é o que leva também a outros estados. A nossa hidrovia aqui é utilizada em larga escala por eles”, afirma Amadeu.

Segundo o coronel, há indícios de que membros do CV no estado estavam alojados no complexo carioca de onde comandariam ações no Amazonas. “De lá, eles comandariam as ações aqui no Amazonas, incluindo aí foguetório e as ações de repressão que o comando da facção determina para cá”.

Amadeu Soares ressalta que, caso as lideranças do Amazonas tenham sido atingidas na operação, haverá reflexo imediato na estrutura local da facção. “Em caso de morte, eles recompõem rápido a liderança. Sempre há essa movimentação. Uma nova liderança é alçada e precisa montar seu time. Isso mexe com a dinâmica do crime aqui”, explica.

Conforme o coronel, a ofensiva no Rio deve gerar um alerta nacional. “O coração da facção foi atingido. E como a Amazônia é uma região estratégica para o tráfico, isso precisa ser tratado como prioridade pelos três níveis de governo. Temos que bloquear, de forma estruturada, o envio de drogas, armas e violência para o resto do Brasil”, afirma.

Sobre o controle financeiro do crime organizado, ele acrescenta: “A venda de drogas e de armas representam um lucro muito alto. E o comando da facção, com os membros daqui lá próximo a eles, tem, sim, um mecanismo de controle maior sobre o envio desses recursos, dessa droga e dessas armas para a Região Sudeste.”

O também coronel da PM Walter Cruz, ex-subcomandante da Polícia Militar e ex-secretário Extraordinário de Governo, avalia o episódio como uma consequência natural da expansão do CV. “Quando o Comando Vermelho se instalou no Amazonas, estabeleceu uma parceria com o grupo do Rio. Se um integrante daqui tem problema, vai pra lá. Fica um tempo, o que eles chamam de ‘engorda’, até o cenário acalmar”, explica.

Walter Cruz confirma que um dos mortos na operação era conhecido no meio policial amazonense. “Um deles, o Neném, é do Comando Vermelho. Já foi preso várias vezes. Esses indivíduos costumam se refugiar no Rio quando estão com mandado (de prisão) em aberto ou pra se reorganizar. Lá, recebem treinamento, tratam do dinheiro do tráfico e de outras atividades da facção”, disse.

O coronel não vê risco imediato de represálias no Amazonas. “Hoje o Comando Vermelho é hegemônico no estado, ele toma conta de praticamente quase 100% das operações no estado do Amazonas. Então, eu não vejo nenhum problema. Se tivesse outras facções aqui atuando, aí sim, toda vez que uma facção vê que os seus membros ou os seus chefes são mortos, sempre vai haver uma questão de disputa de território”, comenta.

“Eu não vejo, por enquanto, nenhum motivo para tipo de represália. Claro que eu tenho certeza que as autoridades devem estar tomando as suas medidas, ativando as suas agências de inteligência”, acrescenta.

Amadeu Soares pensa diferente. “Riscos sempre há. Agora, eu acredito mais em represálias lá no próprio Rio de Janeiro, considerando aqui que eles ficaram ofendidos com a ação contundente que o Estado do Rio de Janeiro tomou contra eles”.

Carros incendiados e moradores assustados: cenário de guerra no Rio (Foto: Tânia Rêgo-ABr)
Carros incendiados e moradores assustados: cenário de guerra no Rio (Foto: Tânia Rêgo-ABr)

Conexões reveladas

Um levantamento da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil do Rio, publicado na série “Conexões do Crime” do Jornal EXTRA, identificou 152 traficantes de diferentes estados abrigados em complexos de favelas fluminenses. A maioria é do Pará (78 criminosos) e 21 são do Amazonas.

Walter Cruz detalha as rotas. “A droga sai do Peru, Colômbia, aí vem pelo Solimões, passa por Manaus, Belém e Recife. De Recife vai para a Europa. Então, resta saber como é que o Comando Vermelho estava fazendo essa ligação e quem ainda aqui em Manaus está fazendo isso”.

Amadeu Soares cobra prioridade governamental. “Tem uma importância estratégica para esse comando dessa facção. E isso tem que ser tratado como prioridade pelas três esferas de governo para que se crie um bloqueio, mas um bloqueio estruturado, e ir jogando duríssimo contra esse tipo de ação aqui para a gente coibir que o Amazonas continue exportando drogas, armas e violência para o resto do Brasil”.

Para Walter Cruz, o desafio agora é estratégico. “O que aconteceu no Rio serve de alerta. A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas tem que agir agora e não é ficar esperando. Tem que sentar, rediscutir as suas ações, e verificar para o enfrentamento da questão do tráfico. Porque apesar do número de homicídios ter diminuído, a quantidade do tráfico aumentou, roubos e furtos aumentaram, e nós não podemos ficar reféns desse processo todo”.

Sobre a integração entre forças de segurança, Amadeu Soares afirma: “Um e-mail, às vezes até uma mensagem no WhatsApp, um ofício do secretário, na hora, as polícias estaduais têm, sim, uma cooperação muito grande”.

Walter Cruz reconhece avanços, mas aponta fragilidades. “Hoje há uma política de cooperação, a gente chama de interagências. Então, elas vivem se comunicando, dizendo fulano foi preso aqui, tá dizendo que tinha uma passagem aí pelo Estado do Amazonas”.

Ele critica, porém, a falta de integração federal. “Hoje mesmo eu tava vendo, assistindo o diretor da Polícia Federal dizendo que tinha recusado participar da operação junto com as polícias militares. Isso é um problema que nós temos já há muito tempo. Essa falta de integração das polícias federais com as polícias estaduais, o governo federal precisava resolver”.

Walter Cruz também aponta problemas no sistema judicial que facilitam a reincidência dos criminosos. “Esses caras já foram presos 10, 12 vezes. Há um problema. O país precisa rediscutir isso. Essa política do não encarceramento, ela faz com que o indivíduo volte a ter atividade criminosa. Ele era do Comando Vermelho, aí ele fica de tornozeleira eletrônica, você acha que ele vai virar pedreiro? Claro que não. Ele vai pro crime”.

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Assuntos Amazonas, Comando Vermelho, manchete, Polícia Militar, rio de janeiro, tráfico de drogas
Thiago Gonçalves 29 de outubro de 2025
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