
Por Milton Almeida, do ATUAL
MANAUS – Pessoas que vivem na rua no Centro de Manaus têm preferência por praças e locais onde há pequenos comércios de comidas e lanches. Esses lugares são estratégicos. As praças proporcionam segurança, pois são áreas abertas e pontos de policiamento. Nos comércios é possível conseguir comida.
Segundo moradora de rua ouvida pelo ATUAL na Praça da Matriz, eles permanecem duas semanas em cada local e depois vão a outras praças e ruas de menor movimento, especialmente para dormir. A opção pela rua, em alguns casos, foi por necessidade.
Ex-vendedora, *Maria da Silva, de 59 anos, que vive há quatro anos na rua depois de perder a casa em que morava com a mãe em Manaus. “Nem na rua tenho o meu lugar para dormir”, diz.
Maria, desconfiada, conta que depois da morte da mãe cometeu o erro de assinar um documento para a venda da casa. “Quando a casa foi vendida, eu fiquei com pouco dinheiro para comprar outra. Eu também era empregada em uma loja. Depois de 4 anos fui demitida e como tinha mais de 50 anos não consegui um novo trabalho. Diziam que eu estava velha e tinha que me vestir melhor. E as coisas ficaram mais difíceis”, conta.
Informada pela reportagem que a consulta era para saber como conseguem alimento e fazer higiene, Maria relaxou. Ela disse que no início das dificuldades uma tia se comprometeu em ajudar com a comida, mas não tinha um quarto onde ela pudesse dormir. “Eu não podia morar com a minha tia. Então, eu tomei a decisão mais difícil da minha vida que foi morar na rua”, revelou. “Na rua você vê e aprende muitas coisas ruins, a brigar, a roubar, a fazer o mal”.
Maria revelou que teve uma filha, mas não tem contato com ela nem com a irmã devido a brigas familiares. “Eu sinto falta da minha casa, de um colchão, ventilador, um teto quando chove”, disse.

O ambiente da rua está associado a outros problemas sociais nas grandes cidades como o consumo de drogas. “Na rua você corre o risco de morrer. Alguém pode te confundir com outra pessoa e te matar. Já me confundiram e fui atacada. Acho que eles estavam sob efeitos de drogas. Dá muito medo”, disse.
Segundo Maria, quem mora na rua tem de ter um “protetor” porque as brigas e os roubos entre os moradores são constantes. De dia ela anda pelas praças do Centro, nas áreas onde há comércios de comida e pequenos restaurantes e à noite procura lugares considerados seguros para dormir.
“Uma vez me expulsaram do local onde eu estava dormindo, foi uma moradora bêbada que chegou e me expulsou às 11h da noite. Chegou gritando que o lugar era dela. Eu já estava dormindo e disse a ela que eu não ia sair. Chamei meu colega de rua, começou uma briga e ela desistiu”. Espaços de terminais eletrônicos de bancos também são usados como abrigos durante a noite.
Maria diz que quer voltar a trabalhar e espera por oportunidades. “Eu não uso drogas e procuro dormir nas áreas de menor perigo. Se eu durmo na Praça da Matriz, eles (moradores de rua) me roubam a sandália, a mochila, o lençol… roubam tudo. Você tem que se dar com eles”.
Rompimento familiar
Para o antropólogo e sociólogo da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Lino João de Oliveira, é na cidade que ocorre o rompimento dos laços familiares, de amizade e comunitários, o chamado “rompimento do tecido social” e uma parte das pessoas afetadas acaba vivendo na rua.
“Cria-se um estigma de que todos os moradores são ladrões. E não é assim. Alguns fazem uso de drogas, outros são alcoólicos dependentes. Portanto, temos de falar também de um problema de saúde pública, porque são pessoas vulneráveis que perderam suas relações familiares e de sociedade”, diz.
Segundo o sociólogo, a situação de moradores de rua é típica dos grandes centros urbanos onde as pessoas perderam as referências sociais. “Nas pequenas comunidades como as indígenas, as de quilombolas, as de camponeses, a gente não vê essa situação e nem crianças abandonadas. Nessas comunidades, a pessoa é integrada, é acolhida, é ajudada, apoiada. E na cidade essas coisas desaparecem”, diz Lino.
A situação de rua envolve também outros aspectos sociais como a segurança e os serviços de assistência social. Em nota, a Guarda Municipal de Manaus informou que em caso de “a população se sentir ameaçada por indivíduos em uso de entorpecentes ou ocupando espaços públicos de forma inadequada, a guarda intervém para garantir a segurança, mas não aborda pessoas simplesmente por estarem deitadas ou presentes em praças, a menos que haja um comportamento que justifique a ação”.
Também por nota, a Semasc (Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania) informa que realiza “constantes” ações sociais a favor das pessoas que vivem na rua e realiza a “abordagem social” para orientar os beneficiários sobre os espaços sociais e como são feitos os atendimentos nesses locais.

Conforme a Semasc, em 2025 será instalado o novo Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop), na área central da cidade. Atualmente existe um no bairro de Petrópolis, zona sul.
O Centro PoP promove o acesso a espaços de guarda de pertences, de higiene pessoal, de alimentação (café e almoço), proporciona endereço institucional que serve como referência do usuário para a provisão de documentação civil e encaminhamentos para a rede socioassistencial.
A maioria dorme na rua
Entre as pessoas em situação de rua registradas no Cadastro Único, 14% informaram ter trabalhado na semana anterior, com maiores percentuais no Norte (25%) e no Nordeste (21%) e o menor na região Sul (12%), dados de 2022. Quando perguntadas sobre locais para dormir, 55% informaram que dormem na rua, chegando a 70% na região Norte.
Entre os que trabalharam, 97% o fizeram por conta própria (bico, autônomo). A principal forma para ganhar dinheiro mencionada foi como catador (17%). Entre os que informaram já ter trabalhado com carteira assinada, a maior proporção está na região Sudeste (79%) e a menor no Norte (36%).
Os principais motivos apontados para viver na rua foram os problemas familiares (44%), seguido do desemprego (39%), do alcoolismo e/ou uso de drogas (29%) e da perda de moradia (23%).
Endereço das instituições sociais municipais que trabalham com pessoas que vivem na rua
Centro Pop – Rua Fragata, s/n, bairro Petrópolis
Albergue Gecilda Albano – R. Clotildes Marques, 3, bairro Morro da Liberdade
SAI Amine Daou – R. Silva Ramos, 420 – Centro
*Maria foi a única abordada pela reportagem que se dispôs a dar entrevista.
