
MANAUS – Temos demonstrado nos últimos artigos publicados no site Amazonas Atual que a cidade de Manaus não apresenta grandes diferenças em relação aos seus tempos coloniais. Podemos trazer muitas observações, relatos e pesquisas científicas que mostram a baixa qualidade de vida enfrentada pela maioria da população aqui instalada. Como antes, a riqueza socialmente produzida hoje não é adequadamente distribuída pelo conjunto da população, mas é retida na sua grande maioria nas mãos de pequenos grupos políticos e empresariais.
Assim como nos tempos coloniais, o povão ainda é empurrado para as áreas mais distantes da cidade, sendo obrigado a sobreviver em situações de privação e humilhação, amargando a falta ou a precariedade de serviços essenciais: água potável, saneamento, transporte, educação, saúde, lazer, moradia, trabalho, etc. Do outro lado, uma pequena elite ostenta riqueza, usufruindo tudo do bom e do melhor.
Este reduzido setor possui nas mãos o poder político e econômico, controlando a justiça, o legislativo e o executivo, salvo poucas exceções, que confirmam a regra. Este pequeno grupo impõe o domínio geral, recorrendo a múltiplas táticas e estratégias, se necessário violentas, para manter e conservar a ordem estabelecida: golpes, alienação, desinformação, corrupção, intimidação, racismo, exploração, espoliação… (o repertório é longo e variado).
A morte, no entanto, não controla a vida. A vida exerce um misterioso encanto e uma irresistível atração. Não é por acaso que nos aventuramos perigosamente no espaço sideral, buscando vida em outros planetas. A vida não pode ser engolida pela morte e o desejo de viver prevalece. O povo, para viver, aprendeu que é necessário resistir e faz da resistência o sentido da sua existência. A busca misteriosa pela vida é que produz mil formas de mobilizações, manifestações, organizações, transformações e revoluções.
É animador perceber que o desejo de viver mobilizou pessoas de toda Manaus para a Romaria das águas, no último Dia Mundial da Água. Este desejo que arrastou lideranças e pessoas comprometidas ao Encontro das Águas para denunciar as agressões feitas aos rios e igarapés; a má qualidade dos serviços de abastecimento hídrico e a falta de saneamento na cidade; a concessão privada do saneamento que engana a população há vintes e cinco anos; as indústrias que poluem os rios com material tóxico, minando a vida aquática; os poderes públicos que não representam a população, nem apresentam uma política pública adequada para defesa das águas.
Recentemente o Fórum das Águas do Amazonas realizou palestra sobre os direitos humanos à água e ao saneamento no bairro Monte das Oliveiras, junto à Associação de Idosos Trabalhando com Alegria. É encantador perceber que o desejo de viver mobiliza idosos para lutar pela vida. Direitos à água potável, ao saneamento, ao lazer, ao transporte, à saúde, à cidade. Enfrentando situações de precariedade, muitos idosos espalhados por Manaus não se rendem às humilhações impostas pela concessionária e pelas classes políticas corrompidas, mas resistem!
O desejo de vida mobiliza lideranças de todos os lugares da Amazônia para defender a vida nas florestas, nas águas, nas terras firmes e várzeas e nas cidades amazônicas; mobiliza centenas e milhares de pessoas para o XI Fórum Social Pan-amazônico – FOSPA; mobiliza artistas, organizações, trabalhadores, indígenas, afrodescendentes para defender a Mãe Terra; mobilizar para projetar a sociedade do Bem Viver.
A atração exercida pela vida mantém o Fórum das Águas em mobilização com parceiros de diferentes lugares para a realização da V Tribuna das Águas, na Praça da Polícia (04 de maio de 2024) e pela defesa e restauração do Igarapé do Gigante, que é poluído pela falta de saneamento.
Mobilização contra a ideologia da privatização que não suporta a existência dos bens públicos, mas oferece o patrimônio público às empresas privadas para reforçar uma sociedade capitalista que mata a natureza e fere o ser humano. Por tudo isso mobilizar é preciso, pois se mobilizando o cenário é ruim, imagina sem mobilização.
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

Muito importante esse trabalho do Padre Sandoval, que nos incentiva ainda mais na luta pela Cidade mais organizada, com suas Redes de Esgoto tratadas não uma enganação como está até hoje, com esgoto indo para dentro dos Igarapés poluído sua água, que no passado as pessoas tomavam banho. Vamos lutar para o futuro dos nossos filhos e netos para dias melhores.