
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – A expansão urbana de Manaus, impulsionada pelos ciclos da borracha e criação da Zona Franca, causou a degradação acelerada de cursos de água da capital. A constatação é de estudo que analisou as transformações econômicas, sociais, urbanas e ambientais desde o século 19.
O estudo é coordenado pela pesquisadora Veridiana Vizoni Scudeller, professora do Departamento de Biologia do Instituto de Ciências Biológicas da Ufam (Universidade Federal do Amazonas). De acordo com a pesquisa, o modelo de crescimento adotado desde o fim do século 19 privilegiou a lógica econômica, mas negligenciou a preservação ambiental e a inclusão social.
“A cada aumento populacional impulsionado por ciclos econômicos, as microbacias sofrem queda na qualidade ambiental devido à ocupação e uso do solo sem planejamento”, afirma Veridiana Vizoni.
‘Paris tropical’ e poluição
O levantamento histórico mostra que no primeiro ciclo da borracha (1870-1920) a população de Manaus cresceu de 29 mil para 75 mil habitantes – aumento de 158% em 50 anos. A riqueza gerada pelo látex modernizou o centro da cidade resultando em obras como o Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça.
Mas a modernidade tinha endereço certo: as áreas valorizadas. A maior parte da população foi empurrada para regiões afastadas do Centro e em grande parte às margens de igarapés.
“O centro se tornou um espaço de ostentação para a elite, enquanto as classes populares ocupavam áreas desprovidas de infraestrutura e serviços básicos”, diz a pesquisadora.
Com a queda do preço da borracha e a concorrência asiática, a economia retraiu e o crescimento urbano perdeu força. Nesse período, a intervenção agressiva no sistema hídrico da cidade foi causada aterros de igarapés e canalizações.
Entre 1942 e 1945, o segundo ciclo da borracha, durante a Segunda Guerra Mundial, trouxe de volta migrantes nordestinos – os “soldados da borracha” – para extrair o látex na floresta. O impacto em Manaus foi limitado, com poucos bairros novos e promessas não cumpridas de melhoria de vida. A expansão urbana seguiu tímida, mas com a mesma lógica de ocupações sem planejamento.
A força da Zona Franca
A mudança mais radical ocorreu com a criação da Zona Franca de Manaus em 1967. Nos 50 anos seguintes, a população da capital cresceu 473,52% passando de 314 mil para 1,8 milhão de habitantes.
“A Zona Franca foi um imã populacional, mas não veio acompanhada de políticas habitacionais ou de gestão ambiental compatíveis com o ritmo de crescimento”, afirma a pesquisadora.
A ausência de planejamento resultou em ocupações irregulares sobre encostas, várzeas e margens de igarapés. O trabalho de campo realizado no estudo, em seis microbacias da capital, registrou poluição visível, canalizações e assoreamento.
Consequências visíveis
As microbacias degradadas provocam alagamentos frequentes, perda de biodiversidade e risco à saúde da população. “O quadro é de perda contínua da qualidade ambiental. Isso compromete não apenas os ecossistemas aquáticos, mas também a vida de quem depende deles direta ou indiretamente”, alerta a pesquisadora.
O levantamento revela que, em 1960 Manaus concentrava 24,3% da população do Amazonas; hoje, abriga 51,7%. A concentração humana e a pressão sobre os recursos naturais transformaram a capital em um caso emblemático de crescimento urbano acelerado e insustentável.
Para Veridiana Vizoni Scudeller, romper o padrão histórico é essencial. “Manaus precisa conciliar desenvolvimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Se isso não for feito, a cidade continuará repetindo um modelo que compromete o futuro de suas águas e da sua população”.
O estudo deixa claro que o progresso que impulsionou Manaus também cobrou um preço alto, e que a fatura ambiental ainda está sendo paga.
