
Por Iolanda Ventura, do ATUAL
MANAUS – Escolas de educação infantil e ensino fundamental do Vale do Javari em Atalaia do Norte (a 1.136 quilômetros de Manaus) terão professores com formação pedagógica específica para ministrar aulas a indígenas.
Para conclusão do curso, os 34 docentes enfrentaram a pandemia de Covid-19 e a insegurança na região, onde foram mortos o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips.
Nesta sexta-feira (16), a UEA (Universidade do Estado do Amazonas) realizará a formatura do Curso de Pedagogia Intercultural para Professores Indígenas do Vale do Javari. A UEA é a primeira universidade do país a oferecer a formação em Pedagogia Intercultural Indígena. O curso é para formação de profissionais que devem trabalhar como docentes e gestores nas escolas indígenas do Vale do Javari, segundo maior território indígena do Brasil, na região da tríplice fronteira com o Peru e a Colômbia.
Nesta região da Amazônia vivem os povos Marubo, Matis, Mayoruna e Kanamari. Concentra também o maior número de grupos indígenas isolados do mundo.
A coordenadora do curso, Célia Betiol, disse que a formação tem ênfase no idioma indígena e o português como segunda língua. A produção de materiais didáticos é específica para os indígenas. “Isso é um diferencial muito grande porque não é uma formação generalista, mas é uma formação que leva como referência a cultura, a língua desses povos, um diálogo intercultural”, disse.
Dificuldades

Durante a pandemia de Covid-19, na última etapa antes do encerramento do curso, as aulas foram suspensas e a morte do aluno Benedito Marubo deixou a turma de luto. “Como nossos alunos moram em aldeias distantes da cidade de Atalaia [do Norte], então a gente ficou paralisado desde março de 2020. Faltava um módulo para terminar, esse módulo foi concluído só em 2021”, explicou Célia Betiol.
A formatura estava prevista para julho de 2022, mas foi adiada após o assassinato do
indigenista Bruno Pereira, colaborador do curso desde o momento da implementação, e do jornalista Dom Phillips.
“Nós estávamos com a formatura prevista para 8 de julho e diante do brutal assassinato do Dom e Bruno, que deixou um clima de insegurança, muita tensão e perigo para todos esses povos, nós fomos adiando o momento da outorga de grau. E só agora, 16 de dezembro de 2022, é que eles vão finalmente poder fazer a formatura e receber o diploma”, afirmou a coordenadora.
O antropólogo e professor Luciano Cardenes afirma que Bruno Pereira viabilizava o transporte dos professores indígenas que vinham da Vale do Javari para o município de Atalaia do Norte. “Eu penso que as dificuldades enfrentadas estão bastante relacionadas às condições para a permanência desses estudantes no curso durante a estadia em Atalaia do Norte. Então, conseguir alimentação, esse apoio de combustível com a Funai que o Bruno Pereira possibilitou, e outros agentes indigenistas locais possibilitaram, foi de grande ajuda”, afirmou o professor.

Cardenes afirma que o curso foi afetado pelas inseguranças que passam os povos indígenas do Vale do Javari. “É uma região que tem muita dificuldade em relação ao acesso de políticas públicas, não apenas na área de educação, mas na área de saúde e nos últimos anos, sobretudo, em relação à segurança e à vigilância da terra indígena”.
Célia Betiol ressalta que essas questões afetam não só o curso, mas a vida dessa população. “É preciso proteção aos territórios indígenas, é preciso denúncia contra todo o tipo de extorsão, contra todo o tipo de crime, de violência contra os povos indígenas que estão nos seus territórios e aqueles que estão fora deles”, destacou.
Benefícios
Cardenes afirma que esse é o quarto curso de licenciatura intercultural que a UEA oferta. “O primeiro curso ocorreu em 2006 com o fim em 2011. Foi uma licenciatura para professores indígenas do Alto Solimões, realizado na Aldeia Filadélfia, na região de Benjamin Constant para os professores indígenas do Alto Solimões: Tikuna, Kambeba, Kokama e Witoto. Naquele momento era também o surgimento das licenciaturas interculturais aqui no Brasil”, explicou.
De acordo com o professor, o curso do Vale do Javari é o mais aperfeiçoado que a UEA tem voltado para a formação indígena nos últimos anos. “Esse curso possibilita a efetivação do direito constitucional à educação diferenciada que os povos indígenas têm como um dos grandes direitos”, afirmou o professor.
A formação diferenciada traz vários benefícios para as crianças das aldeias. “O primeiro porque a gente passa a ter professores indígenas da própria etnia atuando em sala de aula a partir da língua indígena, do conhecimento das suas realidades em diálogo com outros conhecimentos, com outros saberes”, pontuou.
Cardenes acrescenta que a formação promove a autoestima das comunidades e reforço positivo do ensino das línguas indígenas nas escolas. “É uma grande política de ação afirmativa, na medida que a gente tem promovido a possibilidade desses professores indígenas serem os próprios professores das comunidades”, disse.
Além do conhecimento da língua, é importante que os docentes conheçam o que é o processo de desenvolvimento das crianças de cada povo. “Então esses professores indígenas são os que têm maior conhecimento acerca do que é a realidade em que essas crianças vão crescer”, explicou Cardenes.
Novas turmas
Célia Betiol informa que em março de 2023 será formada uma nova turma em Manaus e uma em Tefé para atender indígenas dessas cidades. Para o segundo semestre, há previsão de turmas nos municípios de Beruri e Barcelos.
No período de 12 a 16 de dezembro, uma série de atividades marcarão o encerramento das trajetórias da primeira turma de pedagogos indígenas do Vale do Javari. Além da formatura, acontecerão reuniões com lideranças, professores indígenas, a avaliação do curso pelo Conselho Estadual de Educação do Amazonas e a aula da saudade.
