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Dia a Dia

Um ‘crime cruel, uma maluquice’, diz ministro da Justiça sobre Dom e Bruno

16 de junho de 2022 Dia a Dia
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Suspeito foi levado pela PF (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
Amarildo da Costa Oliveira levou policiais ao local onde enterrou corpos, segundo a PF (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
Por Camila Mattoso, da Folhapress

BRASÍLIA – O ministro da Justiça, Anderson Torres, classificou como “crime cruel” e “uma maluquice” o caso envolvendo o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira, 41, e do jornalista britânico Dom Phillips, 57. Nesta quarta-feira (15), a Polícia Federal divulgou que um dos suspeitos investigados confirmou participação no assassinato dos dois.

Segundo a PF, o pescador Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como Pelado, indicou às autoridades o local onde enterrou os corpos, bem como onde ocultou a lancha em que viajavam Pereira e Phillips.

O próprio ministro da Justiça disse nas redes sociais, na noite de quarta, que “remanescentes humanos” foram encontrados nas buscas, pouco antes da divulgação oficial – em forma de entrevista em Manaus. A polícia aguardará os resultados de perícias para confirmar se os corpos encontrados são deles.

“É um crime cruel, uma maluquice. Me solidarizo com a família dos mortos. Estou profundamente triste pelo acontecido. Ninguém gostaria de encontrar restos mortais de ninguém, mas foi um trabalho [de investigação] espetacular que foi feito. Queríamos ter encontrado os dois vivos”, afirmou à Folha.

“O esforço foi muito grande. Ainda falta bastante coisa, precisa achar o barco e terminar a materialidade e autoria do crime. A região é muito difícil”, completou o ministro. Desde a notícia do sumiço, o presidente Jair Bolsonaro deu declarações criticadas sobre o tema.

Primeiro, ele disse que os dois estavam em uma “aventura” não recomendada. Depois, afirmou que Phillips “era malvisto na região” porque fazia reportagens contra garimpeiros e que ele deveria ter tido mais atenção “consigo próprio”.

O isolamento da área na margem do rio Itaquaí onde depois foram achados pertences das duas vítimas se deu pelo trabalho de indígenas da região.

Ministro Anderson Torres classificou crime de 'maluquice' (Foto: Valter Campanato/ABr)
Ministro Anderson Torres classificou crime de ‘maluquice’ (Foto: Valter Campanato/ABr)

Eles integraram equipes de buscas feitas pela Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Um indígena mayoruna notou diferença na vegetação em um local específico e suspeitou que poderia ter sido resultado da passagem de uma embarcação.

Além do pescador que confessou participação no caso, uma segunda pessoa foi presa. Oseney da Costa de Oliveira, 41, conhecido como Dos Santos, irmão de Pelado, também é investigado pela morte dos dois. De acordo com a PF, ele nega participação.

A PF ainda apura a motivação do crime. Como mostrou a Folha, investigadores que atuam no caso têm afirmado reservadamente que as evidências e provas até o momento reforçam a hipótese de que as atividades ilegais de pesca e a caça na região são o pano de fundo do assassinato de Pereira e Phillips. Ainda assim, a polícia não descarta outras possibilidades e trata o cenário como nebuloso.

Reportagem desta quarta da Folha mostrou que o governo federal abandonou o assentamento rural e o plano de manejo sustentável do peixe pirarucu na região do desaparecimento.

O desmonte do PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago de São Rafael, criado em 2011 para assentar 200 famílias ribeirinhas, e do plano de manejo do pirarucu contribuiu para o incremento da pesca e da caça ilegal na região – com conflitos constantes encabeçados por pescadores ilegais.

Além da perícia que vai ser realizada nos remanescentes humanos localizados, há também dois laudos aguardados para sair nos próximos dias.

Um deles é sobre um vestígio de sangue encontrado no barco de Pelado. O outro é a análise de um material “aparentemente humano” encontrado na região do rio Itaquaí, por onde Pereira e Phillips passaram antes do desaparecimento.

De acordo com pessoas envolvidas no caso, esse material está deteriorado, o que atrasou o processo de perícia. Outro ponto que ainda será esclarecido é a circunstância das mortes. Segundo a PF, Pelado disse que ocorreram com disparo de arma de fogo, o que ainda deverá ser confirmado.

A Polícia Federal também disse, em entrevista nesta quarta, que novas prisões podem ocorrer com o objetivo de que o caso seja esclarecido. O superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Fontes, é o terceiro chefe do órgão regional desde o início do governo Bolsonaro. Ele foi nomeado em abril e nem chegou a ter a cerimônia de posse realizada.

Dom Phillips e Bruno Pereira estavam desaparecidos desde a manhã do dia 5 de junho. O sumiço dos dois mobilizou a sociedade civil e ganhou repercussão internacional.

O possível crime é o de homicídio qualificado, segundo o delegado da Polícia Civil Alex Perez, que comanda a delegacia em Atalaia do Norte (AM).

As buscas por vestígios de Pereira e Phillips estavam concentradas num trecho do rio entre São Gabriel e a comunidade Cachoeira. Segundo a polícia, Pelado indicou que a lancha em que viajavam Pereira e Phillips foi afundada propositadamente.

A dupla fazia uma viagem pela região próxima ao território indígena, a segunda maior do país, com 8,5 milhões de hectares, no extremo oeste do Amazonas. A região do desaparecimento é marcada por forte exploração ilegal do pirarucu e de tracajás, principalmente dentro da terra indígena.

Há relatos de tiros contra bases de fiscalização da Funai (Fundação Nacional do Índio) por parte de pescadores ilegais. O cenário de conflitos levou a um reforço da vigilância empreendida pelos próprios indígenas, a partir de uma iniciativa da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).

Pereira era servidor federal licenciado da Funai e prestava serviço à Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Ele atuava como um fomentador da vigilância indígena.

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Assuntos Atalaia do Norte, Bruno Pereira, Dom Phillips, indigenista e jornalista desaparecidos, manchete, Vale do Javari
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