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Sem categoria

A minha Manaus

11 de julho de 2015 Sem categoria
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Nestes tempos de crise, reproduzo em parte crônica que escrevi sobre a minha cidade, a pedidos. Manaus anda tão maltratada, uma tristeza, uma agressão a seus amantes irrenunciáveis.

“Mexendo em meus alfarrábios, encontrei cópia de uma entrevista que concedi ao jornalista Gilberto Barbosa, há mais de duas décadas. Gil, como era conhecido, amigo de longa data, hoje não está mais entre nós. Deve habitar as pradarias do além, como diria o poeta Ernesto Penafort, outro estimado amigo também já ausente.

Em sua coluna na imprensa local, Gil inaugurou um espaço semanal dedicado a Manaus. Nele, denominado “A minha Manaus”, recolheu entrevistas com críticas e outros sentimentos sobre a cidade e sua gente. Conseguiu revelar um quadro real da urbe na época e de suas perspectivas futuras. Havia muita sensibilidade poética, fruto da visão lírica do colunista.

Acompanhei-o no jornalismo desde o início. Fui testemunha do convite que lhe foi feito por Umberto Calderaro, a fim de que assinasse uma coluna social em seu jornal, num dos nossos finais de tarde no Key Club, piano-bar que ficava ao lado do Teatro Amazonas. No local, cultivávamos a melhor música e o melhor piano da Amazônia, sob a regência de Gil, ao lado de amigos queridos e de um bom uísque.

Bem, mas vamos à entrevista. É lamentável que tudo o que disse naqueles anos distantes pode ser reiterado, sem tirar nem pôr, vencidas várias administrações municipais. Reclamava que a cidade deixara-se violentar. Dizia que ninguém conseguia responder, de modo satisfatório, a indagação básica que identifica o grau de desenvolvimento da urbe, desde Fustel de Coulanges, em obra clássica, “A Cidade Antiga”: como mora, como trabalha, como se transporta e como se diverte o seu povo?

Lá atrás, nunca deixei de alimentar esperanças, embora ande descrente, culpa de meus cabelos brancos. Admitia que chegáramos a um ponto de exaustão e a que a ruptura com a situação estaria bem próxima, o que jamais aconteceu. Aqueles que se apresentavam como novos, como paladinos de métodos e transformações profundas, decepcionaram, porquanto foram fundo em práticas condenáveis.

A minha paisagem urbana continua inalterada e seguirá comigo para sempre, como disse na ocasião: ‘Manaus, pelo rio, pelo Rio Negro. Nada mais encantador e comovente do que chegar à cidade pelo rio. O barco fazendo bigode macio nas águas carameladas do Negro e o encontro com o cais, o velho ‘roadway’ da minha infância e adolescência. Dá uma pontada no peito lembrar dos passeios nas tardes de domingo pelo porto de Manaus. Do encontro com a namorada, do terno e doce aperto de mão e do beijo furtivo. De suas velhas lanternas de iluminação e de seus velhos carregadores, com seus carros de rodas metálicas, ruidosas e sibilantes sobre as tábuas soltas das passarelas do tempo dos ingleses. Do lenço solto no ar, na hora do adeus, com os olhos em véspera de lágrimas’.

Indignação, a mesma de sempre: o assalto às ruas por predadores que destroem tudo à sua volta, os novos hunos das urbes brasileiras, com o passado bastante desfigurado ou destruído.

E sobre as mais fortes recordações, dizia: ‘São tantas e tão plenas. Da luta política nos tempos de estudante, do Colégio Estadual, do Dom Bosco e do “footing” na Praça da Polícia e na Eduardo Ribeiro. Do “morcegar” nos bondes até o Alto de Nazaré e dos nossos antigos cinemas, do Guarani, do velho Vasco, e das sessões de arte no Avenida, com dona Iaiá e seu Aurélio. Dos encontros e paixões na penumbra do Politeama e da inauguração do Odeon. Os bares, o Bar Avenida, toalhas de linho branco, engomadas, o Bar Americano, o Restaurante Central, o restaurante do Grande Hotel, o Normal, o Ponto Chic, a Pensão Maranhense. Do cachorro-quente de carne moída do Mudinho, com sua banca em frente ao Guarani. Do sanduíche de pernil do português Messias, no Castelo de Bronze, e que molho, uma delícia guardada na memória gustativa. E dos salões de sinuca e bilhar, no Sombra e no Café da Paz. Do Café do Pina, onde discutíamos, varando as madrugadas, os destinos do mundo, de nossa pátria e de nossa gente. Depois, a ditadura, as prisões e a noite que parecia não ter fim’.

No final, a crença na cidade, a certeza de que um dia daríamos a volta por cima. No mais, bem, no mais, somente as melhores lembranças do nosso Gil, talento na pena e no piano, um estilo só seu, inimitável”.

Mais grave é que as expectativas não são nada animadoras, passados muitos anos. Paciência, um dia, talvez quem sabe?

[email protected]

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Valmir Lima 11 de julho de 2015
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