Enquanto as águas do Rio Negro avançam sobre a cidade de Manaus e seus igarapés, atingindo as famílias mais vulneráveis e desassistidas, outras mazelas igualmente representativas do nosso atraso coletivo pousam asas sobre nós. E essas mazelas não podem ser atribuídas à natureza, mas à natureza dos homens.
O Secretário de saúde, que se demite diante de cortes inaceitáveis na sua pasta; os gastos exacerbados com propaganda da Prefeitura em resposta à falta de merenda para as crianças do ensino fundamental; e a reação do Ministério Público Estadual, que encara como ataques os questionamentos sobre os ganhos de seus membros, são o triste retrato da nossa incapacidade para o debate público franco em torno de problemas ou a busca efetiva por soluções democráticas e eficazes.
O que há em comum em casos tão distintos é a pessoalidade com que nossos homens públicos – eleitos ou não – tratam assuntos de interesse coletivo. Ora, o que justifica os gastos em propaganda institucional no horário nobre, se há crianças estudando com fome, privadas daquela que seria, talvez a única refeição do dia? Que mal pode haver na divulgação dos ganhos dos funcionários públicos? E por fim, diante da crise, por que cortar primeiro os gastos com saúde e educação?
Se a transparência é um dos pressupostos da democracia – como vem decidindo o Supremo Tribunal Federal, que seja total e irrestrita, mas que possamos ir além, obtendo dos gestores não apenas dados ou números, mas também explicações e participação sobre o que é melhor para a cidade, o Estado e a sociedade, enfim.
Percebe-se que há muita energia e oportunidades desperdiçadas quando as autoridades públicas se deixam levar pela vaidade e pessoalidade no exercício de suas funções. Permitem o aumento de injustiças e da desigualdade social, alimentando uma falsa democracia, na qual o povo só é chamado a opinar no momento de votar.
A respeito da liberdade de escolha, o indiano Amartya Sen, ganhador do prêmio Nobel de economia, nos ensina, na obra A ideia de justiça (2011), que não existe democracia quando o único direito do cidadão é o voto. As crianças sem merenda não possuem escolha, os doentes nas filas dos hospitais públicos não possuem escolha, as famílias cujas casas são invadidas pelas águas não possuem escolha. Vivemos de fato uma democracia?
Nossa democracia precisa ir além do voto, precisa oferecer ao povo o direito à voz, o direito à participação e escolhas verdadeiras diante dos problemas sociais. A política e a administração pública se afastam de sua missão na medida em que abandonam seu principal objetivo: servir ao cidadão.
Como sempre, o Rio Negro continuará subindo e haverá pessoas sofrendo. Como sempre, a administração continuará improvisando e as ações serão pontuais e paliativas. Como sempre, haverá eleições e as mesmas pessoas, que há cinquenta anos prometem melhorar nossas vida, irão pedir uma nova chance. Temos escolha?
