
Da Redação
MANAUS – Arqueólogos descobriam na Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé (a 522 quilômetros de Manaus), artefatos indígenas descritos nas crônicas de Gaspar de Carvajal, padre espanhol que navegou pelo Rio Amazonas no século 16. A área fica em unidade de conservação federal sob gestão do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
“Não podemos dizer que é um sítio arqueológico só. O que a gente está vendo é um complexo arqueológico de vários sítios, que podem ter histórias diferentes, mas que estão interligadas”, disse Rafael Lopes, pesquisador associado ao Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia do Instituto Mamirauá.
A expedição envolveu mais de 40 pessoas durante um mês de trabalho e encontrou uma grande quantidade de vestígios arqueológicos de pelo menos cinco ocupações humanas diferentes no local. Algumas delas, como as cerâmicas da tradição Pocó, podem ser datadas de até 3.000 anos atrás. As diferentes tradições são conjuntos de vestígios em cerâmica, como vasos e urnas funerárias, com padrões como decorações e adornos similares e que estão relacionadas a períodos específicos.
O complexo arqueológico é marcado pela presença de um vasto castanhal que, segundo moradores locais, apesar de se estender por quilômetros, não se prolonga por mais de 500 metros na mata em relação à praia.
O padrão não natural na dispersão dessas castanheiras é mais um indício de que a área abrigou uma grande quantidade de pessoas que, provavelmente, já manejavam essa e outras espécies vegetais há centenas ou milhares de anos. Outra evidência é a presença de terra preta – solo extremamente fértil associado a ocupações humanas de longa duração em um mesmo local.
Além do material cerâmico, foram coletados carvões de sementes e material lenhoso, que permitirão uma maior compreensão das datas associadas às diferentes ocupações encontradas no local e de como elas se relacionavam com a paisagem. “O mais impressionante do sítio foi a diversidade do contexto arqueológico que ele mostrou. Ficamos um mês aqui trabalhando e conhecemos 1% dele”, disse Rafael.
De acordo com Rafael, as estimativas mais concretas apontam que cerca de 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia no momento da chegada dos europeus. “Só chegamos a uma quantidade de pessoas parecida com a que existia em 1499 no final do século 20 na região”.


