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Economia

Governos devem ser responsáveis pela poupança das pessoas, diz economista

30 de abril de 2019 Economia
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Por Ana Estela de Sousa Pinto, da Folhapress

SÃO PAULO – Quer poupar, mas não consegue? Há todo um ramo da ciência econômica que procura explicar por que isso acontece com tantas pessoas. Mais que isso, pesquisa formas de ajudar quem gostaria de guardar mais dinheiro, mas não consegue transformar os planos em prática.

​”É ainda mais difícil poupar hoje em dia, porque todas as grandes empresas usam milhares de dados para conhecer seus hábitos e fazer você consumir cada vez mais. Não é fácil resistir a tamanha tentação”, diz a economista Wendy de la Rose, 29, fundadora de um instituto para ajudar famílias a usar melhor seu dinheiro, o Common Cents Labs.

Ela criou também o Irrational Labs, na Universidade Duke, e é pesquisadora de economia comportamental na Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia.

Neste mês, Wendy participou em São Paulo da Silicon Valley Conference, evento que discutiu tecnologia e inovação.

A economista diz que uma das principais causas da dificuldade de poupar é o que os economistas comportamentais chamam de viés do presente (present-bias). Esse mecanismo psicológico faz com que se evitem sacrifícios presentes, que seriam necessários para ter benefícios no futuro.

É o viés do presente, por exemplo, que faz com que alguém devore uma pizza enquanto faz planos para emagrecer. O laboratório fundado por Wendy tem trabalhado com governos, ONGs e fintechs (empresas de tecnologia na área de finanças) para criar soluções que ajudem os indivíduos a vencer esses mecanismos antipoupança.

Isso passa não só por atitudes individuais, como agendar aplicações financeiras periódicas, mas por políticas públicas. Um dos pontos mais importantes, segundo ela, é automatizar os depósitos.

Governos e sociedades precisam decidir pelos cidadãos e construir regras que levem as pessoas a poupar automaticamente para a velhice e para emergências, diz ela.

“Só isso vai mover a agulha em direção à saúde financeira. É ingênuo achar que um indivíduo será capaz de vencer o cientista de dados de uma companhia que tem milhões de dados e é especialista em fazer as pessoas comprarem.”

Wendy diz que a ideia não é tirar a liberdade das pessoas, que poderiam desistir da poupança automática quando quisessem, mas assumir a responsabilidade pública de assegurar que as pessoas se preparem para o futuro.

“Não existe posicionamento neutro sobre isso. Não fazer nada significa deixar a maioria despreparada para o futuro, porque sabemos que, sem incentivo, elas não vão agir. Não intervir é decidir, como sociedade, não criar poupança para a aposentadoria.”

Do ponto de vista particular, os experimentos também mostram que algumas atitudes podem ajudar a vencer os mecanismos psicológicos que dificultam a poupança.

“Ninguém é pobre demais para poupar, mostram iniciativas em comunidades muito carentes de países subdesenvolvidos”, diz Wendy. Ela sabe do que está falando. Sua família emigrou da República Dominicana para os EUA quando ela tinha nove anos, e dificuldades financeiras eram o tema mais frequente das conversas.

Uma das principais preocupações da economista é com atuais mudanças no mercado de trabalho, que têm destruído vínculos de emprego e tornado as ocupações mais instáveis e até mais precárias.

“Precisamos encarar os fatos: estamos criando uma sociedade que não vai conseguir administrar suas finanças de uma maneira saudável, porque estamos eliminando os empregos estáveis. Não há planejamento possível num mundo imprevisível, e fica muito difícil para as pessoas tomarem suas decisões”, afirma ela.

Para Wendy, a solução não vem apenas de leis trabalhistas, mas de cobrar responsabilidade das empresas. “Acredito em capitalismo, em criar um ambiente no qual os negócios prosperem, mas a sociedade também precisa prosperar.”

Além do viés do presente, a economista aponta outros mecanismos psicológicos que dificultam a poupança, como o da comparação com os outros. “Se meu vizinho compra um carro novo ou uma casa nova, isso é visível. Já as finanças são invisíveis. Não tenho a menor ideia de quanto meu vizinho poupa, não há a pressão para que eu poupe tanto quanto ele ou mais.”

Parte dos experimentos desenvolvidos pelo laboratório chefiado por Wendy deve chegar ao país ainda neste semestre com a Olivia, empresa de inteligência artificial.

A ideia é lançar um assistente financeiro que, a partir dos dados gerados pelo cliente, programa investimentos e sugere medidas de economia.

Conselhos de Wendy para poupar

1. Programe investimentos automáticos

2. Em vez de pensar “só vou gastar x com restaurante”, estabeleça um número de vezes por mês, marque num calendário e siga o plano de ação

3. Arrume alguém que verifique se você está mantendo suas intenções

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Assuntos economia, poupança
Redação 30 de abril de 2019
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