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© 2022 Amazonas Atual
Sandoval Alves Rocha

2ª Romaria do Fórum das Águas pede maior cuidado com o planeta

21 de março de 2025 Sandoval Alves Rocha
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MANAUS – Neste Dia Mundial da Água todo o planeta se volta para as questões relacionadas à água, sem a qual a vida não seria possível. É uma data em que nós refletimos sobre a nossa relação com este bem essencial para todos os seres vivos. A Amazônia que possui o maior reservatório hídrico do planeta não pode ficar de fora desta reflexão sob o risco de cair no erro da omissão.

Podemos oferecer significativa contribuição neste debate, pois somos quase seres anfíbios e sabemos os perigos e as oportunidades ofertadas pelas águas.

Diante deste maravilhoso fenômeno do Encontro das Águas do Rio Negro com o Rio Solimões sentimos a nossa sintonia com o planeta e com todos os seres que nele habitam. Contemplando o abraço destas águas formando o Rio Amazonas, percebemos que é possível caminhar juntos no respeito e valorização das diferenças. É possível construímos sociedades democráticas, justas e sustentáveis. A contemplação da natureza nos mostra que é possível viver unidos, apresentando o melhor que temos e que sempre pode ser aperfeiçoado.

Esta relação simbiótica nos impõe a obrigação de levantar a nossa voz em prol do cuidado das águas e do planeta.  Sentimos que não podemos calar diante de tantas agressões e maus-tratos contra a natureza. Notamos que as práticas pautadas nas lógicas utilitaristas não nos fazem bem.

Não podemos reduzir a importância da natureza à sua capacidade de produzir lucros para beneficiar a poucos. Este sistema está nos matando! Toneladas de agrotóxicos são lançadas nas águas todos os dias pelo agronegócio, visando expandir as taxas de rentabilidade dos grandes empresários e multinacionais. O garimpo descarrega materiais poluentes nas águas amazônicas, prejudicando todos os seres vivos do entorno.

A mineração é uma atividade essencialmente predatória, que passa matando o solo, as águas, as pessoas e a natureza em geral. Ninguém sobrevive a esta atividade mortífera, que fere a terra e as águas, deixando destruição e beneficiando uns poucos. As grandes cidades não são mais produzidas para o encontro e a convivência, mas para expandir o mercado e reforçar a exclusão e a desigualdade.

Manaus é uma cidade desigual e desorganizada, que possui uma gestão sem nenhuma sensibilidade ambiental. Não há políticas públicas que cuidem dos nossos rios e igarapés. As indústrias lançam seus resíduos nos corpos hídricos causando a morte das águas, das espécies e o adoecimento das populações.

O saneamento básico de Manaus é uma tragédia! Sob o controle de uma empresa privada, o esgotamento sanitário é ausente na maior parte da cidade, causando doenças e matando as nossas águas. Sem uma fiscalização adequada, a empresa faz o que deseja na cidade, oferecendo serviços precários e enganando o povo. Nas oficinas que o Fórum das Águas tem realizado nos bairros é notável a irresponsabilidade da empresa Águas de Manaus e a sua frieza com o sofrimento que provoca naquelas populações.  

A baixa qualidade dos serviços de água e esgoto de Manaus é destaque nacional, descortinando os verdadeiros objetivos do mercado da água, que é produzir lucros à custa do trabalhador e da devastação ambiental.

As cobranças exorbitantes associadas aos serviços precários investigados em diferentes ocasiões pela Câmara dos Vereadores do Município fazem da privatização uma prática a não ser seguida. Temos as tarifas mais caras da região amazônica, o que promove o colapso econômico das famílias e perpetua a desigualdade social na cidade. Manaus, que tem o potencial de ser modelo de justiça hídrica para o Brasil, trata os direitos humanos à água e ao saneamento como privilégio de poucos nas zonas mais nobres da cidade, deixando a maioria da população revoltada.

Desabamentos e alagações se transformaram no símbolo do inverna manauara. É resultado da falta de saneamento básico, que mata pessoas e traz à tona a má qualidade dos nossos gestores públicos. Crianças desaparecem nos bueiros, famílias inteiras são soterradas, igarapés são transformados em esgotos a céu aberto, rios são poluídos, ruas esburacadas, e direitos fundamentais desrespeitados. Nossa cidade está abandonada! Este é o triste cenário que nós encontramos hoje em Manaus.

Queremos que a Conferência sobre Mudanças Climáticas em Belém considere toda essa situação, encaminhando soluções democráticas e plausíveis para a Amazônia e para o mundo. Queremos ser ouvidos pelos tomadores de decisão, uma vez que somos os primeiros a sofrerem as consequências das suas deliberações.

Sem a participação popular, a COP30 será mais uma encenação tediosa que não responderá aos desafios atuais, mas poderá até agravar este cenário desafiador que nos envolve. Não queremos soluções provisórias e enganosas. Estamos cheios de promessas não cumpridas!

É necessário ir à raiz dos problemas e a solução será encontrada quando tiverem a coragem de questionar o atual modelo civilizatório que coloca todas as suas esperanças no mercado, na tecnologia e na frieza da ciência descomprometida com a vida.  Encontraremos saídas na medida em que respeitarmos o princípio da vida, que estimula a colaboração e a complementariedade. É preciso ações rápidas e eficientes e quanto mais democráticas forem estas decisões mais teremos chances de reverter esses processos destrutivos.


Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Encontro das Águas, Fórum das Águas
Cleber Oliveira 21 de março de 2025
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