Que país é este!

Será este o mais longo dos anos? Se começou tenso e esquentou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, ferveu nas últimas semanas. Foi intenso, de comoção popular a crise institucional. Foram tantas “ocorrências” que desafiariam qualquer renomado roteirista de filmes de suspense a fazer melhor.

Acidente aéreo que dizimou o time da Chapecoense comoveu e revoltou a todos, quando se teve certeza de que houve negligencia da companhia aérea, do piloto ou de ambos. Vidas ceifadas, lágrimas de chuva que marcaram o sepultamento. Explicações que mais pereceram “batatas quentes” sendo arremessadas de mão em mão, num joguete culposo. Para quem acredita que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, este deve ser um bom momento para se viajar de avião. Ninguém no mundo da aviação, por um tempo pelo menos, vai piscar na fiscalização e obediência dos procedimentos corretos, para não correr o risco de ser o próximo a ter que lidar com isso.

No entanto, tudo isso foi fichinha perto dos acontecimentos que chacoalharam os três poderes no mesmo período. Aprovou-se a PEC 55 em primeiro turno, remendou-se as 10 medidas do pacote anticorrupção, afastou-se o presidente do Senado Federal, que se recusou a sair, com apoio da Mesa Diretora, deflagrando, agora para valer, a guerra entre os poderes Legislativo e Judiciário.

O debate político polarizou-se de vez. Confesso, faz muito tempo que não via “manifestações” tão explicitas de extrema direita, pedindo a volta do regime militar e de extrema esquerda, fomentando a “revolução do proletariado”. O problema é que o meio termo está ficando “deslocado” neste tiroteio. Tem que escolher um lado (senão lhe colocam em algum rapidamente)? Coxinhas ou mortadelas? E, se por um acaso, alguém ver coisas positivas e negativas nos dois lados, faz o que?

Se alguém admirar o trabalho da Lava-Jato, Sérgio Moro e, ao mesmo tempo, ver com bons olhos as conquistas sociais, boa parte delas talvez, não pode? Não, pois quem é a favor da Lava-Jato é contra o PT, que é o “pai dos pobres” por causa do bolsa-família, a Lava-Jato persegue o Lula e blá, blá, blá, blá… A PEC 55 só tem duas visões possíveis? Não creio, em mãos bem intencionadas pode ajudar, apesar de achar desnecessária uma Lei para lembrar que não se pode gastar mais do que se arrecada (o que tem sido feito sem moderação). Entretanto, a mesma PEC 55, em mãos mal intencionadas podem representar duas décadas perdidas. Boicote aos programas sociais inseridos na saúde e educação ou melhor realismo orçamentário? Meu lado socialista me diz que devo ampliar os investimentos em educação e saúde, mas, meu lado administrador e capitalista me diz que tenho que ter como honrar estes aumentos. Conflito de interesses ou ideológico?

Na economia destaco como os dois maiores impactos o desemprego e a redução do poder de compra. Em efeito cascata, a economia em baixa sufoca empresas, que reduzem empregos, atrasam ou sonegam impostos, mergulham em juros altos para acessar capital, enquanto rumam para um definhamento fatal. Conheço as teorias absolutas e relativas de “Mais Valia”, mas, principalmente as empresas de micro, pequeno e médio portes não sobrevivem sem lucro e este não vem sem demanda. Como os 12 milhões de desempregados serão absorvidos? Pelo governo? Não, pelas empresas. Todavia, como pedir paciência e resignação, quando você compara o conteúdo de sua geladeira com a do ex-governador do Rio de Janeiro?

Renato Russo, se vivo fosse, perguntaria em um grito afinado “que país é este? ”. Penso que sim.

Se você, como eu, encontra pontos refutáveis em todas as “teorias” expostas, seja de esquerda e direita, não se desespere. Deve haver muitos como nós. Quando sou cobrado para me posicionar entre estes dois polos, recorro a René Decartes. Neste momento, meu raciocínio, no meio deste tsunami nacional, é cartesiano. Eu penso, logo existo! Nem coxinha, nem mortadela.

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