Que as múmias me defendam!

O futebol sempre gera conexões improváveis e surpreendentes. Dessa vez, conhecimentos e estudos sobre arqueologia, sacrifícios humanos e formação de múmias acabaram ajudando um famoso jogador a se livrar de uma polêmica condenação e garantir presença na próxima Copa do Mundo, que acontece este ano na Rússia.

Não se sabe exatamente qual foi a razão que motivou o assassinato ritual daquelas três crianças. Por serem considerados mais puros, muitos povos barganhavam com as divindades oferecendo as vidas de meninos e meninas.  O sacrifício das crianças era julgado como a melhor oferenda para aplacar a ira dos deuses, evitar ou interromper catástrofes, e também para a concretização de pedidos especiais como a abundância nas colheitas.

Entre os incas, um ritual religioso envolvendo o tributo de crianças aos deuses era chamado de ‘Capacocha’ (Qhapaq hucha), traduzido como ‘sacrifício solene’ ou ‘obrigação real’. A cerimônia também era muito utilizada quando um novo imperador assumia o trono, como forma de garantir longevidade ao governo.

As ‘oferendas’ poderiam vir de qualquer lugar do vasto império. As vítimas masculinas tinham que ter, no máximo, dez anos. As femininas podiam ter até 16 anos, mas era obrigatório que fossem virgens. A escolha era baseada na aparência. Eles precisavam ser arquétipos do melhor da humanidade: belos e perfeitos; nem mesmo uma sarda era admitida.

Uma das formas usadas no assassinato ritual era enterrar vivas as crianças em buracos feitos próximos de altares das mais altas montanhas. Antes, elas eram entorpecidas para ficarem inconscientes.

Em 1999, na província de Salta, localizada a noroeste da Argentina, próximo ao deserto do Atacama, fronteira com o Chile, no topo do vulcão Llullaillaco, descobriu-se que as três crianças incas sacrificadas tinham se transformado em múmias. No caso, o resultado nada tinha a ver com o peculiar processo envolvendo bálsamos e bandagens utilizado no antigo Egito.

Os pequenos se tornaram múmias naturais – quando o ambiente é determinante para afetar o processo de decomposição e preservar os corpos mesmo muitos anos após a morte. Na ocorrência, as baixíssimas temperaturas do local onde se encontravam, a 6.739 metros de altitude, foram decisivas para a perfeita preservação das ‘múmias de Llullaillaico’.

Os cientistas calcularam que o sacrifício teria ocorrido entre os anos de 1480 e 1532. As crianças – duas meninas e um menino – foram identificadas como ‘a donzela’, com cerca de 14 anos; a ‘menina do raio’, de seis anos (assim chamada porque, em algum momento em 500 anos, teve seu rosto e parte do corpo queimados por algum relâmpago); e um menino de sete anos, que teve a pélvis fraturada pela forma brusca com que foi amarrado. Teria ele resistido no momento final?

Nos estudos sobre as múmias, foram revelados muito dos costumes, hábitos e cultura dos incas. Ao analisar, por exemplo, o cabelo das crianças, os cientistas descobriram que os pequenos vinham de uma região pobre e passaram por uma mudança nas dietas. Antes, a comida deles era composta especialmente por vegetais comuns e batatas. No ano anterior à morte delas, as crianças passaram a se alimentar com a comida reservada à elite, sobretudo milho e carne seca de lhama. Isso porque, até o tempo do sacrifício, tudo era feito para que os infantes ficassem bem alimentados e felizes.

Outra comprovação feita foi que as crianças eram drogadas basicamente com folhas de coca. Entre os dentes da ‘donzela’, por exemplo, foram achados alguns exemplares da planta para ser mascada. Mesmo após alguns séculos ainda foi possível detectar nas crianças sacrificadas a presença de benzoilecgonina, metabólito presente na cocaína (que só veio a ser sintetizada pela primeira vez em 1859).

Essas revelações acabaram ajudando a defesa do jogador Guerrero. Um exame de urina do atacante peruano, realizado na penúltima rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, quando o Peru enfrentou a Argentina, acusou a presença do principal metabólito da cocaína, a tal da benzoilecgonina. A pena aplicada ao atleta foi de um ano, no dia 3 de novembro do ano passado. Com isso, o jogador do Flamengo não participou de vários jogos pela equipe brasileira e também não defendeu seu país no confronto contra a Nova Zelândia, pela repescagem.

A condenação também significaria que Guerreiro estaria fora da Copa do Mundo. No recurso do jogador, seus advogados incluíram os estudos sobre as múmias incas, o que reforçaria a tese da dopagem acidental, ao beber algum líquido em um copo que ainda contivesse resíduos de chá de coca.

O Tribunal de Apelação da Fifa aceitou os argumentos da defesa e reduziu a punição para seis meses. Está previsto para esse mês ainda um julgamento na CAS (Corte Arbitral do Esporte), no qual Guerrero pode ser absolvido.

Essa história é um exemplo de que o passado continua influenciando o presente, como se todos estivéssemos atados por bandagens de múmias.

O que não mudou ao longo do tempo é a perversa ideia de que vale a pena sacrificar crianças e matar o futuro para permanecer no poder.

 

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