Os contrastes na Amazônia

Poucas pessoas sabem que há fome na Amazônia quando as águas sobem e a proteína sofre penosa diminuição. Os peixes buscam as águas profundas, os animais silvestres procuram terra firme e as plantações ficam submersas. Para enfrentar este fenômeno natural, as populações criaram diversas soluções, sobretudo com a utilização da mandioca beneficiada para alimentação em tempo de escassez: a paçoca, o beiju, as diversas farinhas, o guaraná em pó, o peixe defumado ou salgado, entre outras. A tecnologia de desidratação do guaraná para mitigar a fome na subida das águas foi igual à utilizada pela corrida espacial para permitir naves tripuladas. Apesar de tudo, há muita fome na Amazônia. Na Mesorregião do Alto Solimões e adjacências, estão 9 dos 50 piores IDHs do Brasil, apesar de o Estado ser um dos oito que mais recolhem do que recebem recursos da União.

Daí por que merece aplauso e prestígio a realização do I Fórum de Discussão Multidisciplinar: A questão da fome, pobreza e desigualdade na Amazônia, onde, ironicamente, estão mais de vinte por cento da biodiversidade, dos seres vivos do mundo vegetal e animal da Terra. Os alimentos funcionais, orgânicos e integrais habitam aqui, mas a pesquisa precária a respeito deles não ajuda a desenvolver soluções alternativas que se somem às tecnologias tradicionais/indígenas.

O Fórum é organizado pelo Laboratório de Geografia Humana (LAGEHU) do Departamento de Geografia, do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais, e pelo Departamento de Economia e Análises, da Faculdade de Estudos Sociais, ambos da Universidade Federal do Amazonas, e pelo Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos (NERU) da Universidade Federal Fluminense – Campos dos Goytacazes. Seria oportuno mobilizar mais agentes, tanto no âmbito federal como no estadual e municipal, para apresentar soluções criativas e misturar demandas e propostas.

A proposta interdisciplinar tem de ser, também, interinstitucional, embora o Fórum seja destinado a pesquisadores, estudantes da graduação e pós-graduação, gestores públicos, agricultores, órgãos de fomento, entidades de classe, OAB, Ministério Público… todos precisam assumir a compreensão do problema para a formulação inteligente de saídas objetivas. Em sua ementa, o Fórum descreve a justificativa adequada para submeter a questão à classe política, de quem dependem tomadas de decisão para reverter a realidade aqui encontrada.

Há que se favorecer o clima para o diálogo multidisciplinar entre as instituições já que não temos essa rotina, nem nos debruçamos sobre essa urgência, afinal a temática das desigualdades regionais persegue este pedaço tão rico em potencialidades e tão perverso ao criar desigualdades. Deveríamos exigir que toda classe política lesse e meditasse sobre a obra “Formação Econômica do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, “Casa Grande &Senzala”, de Gilberto Freyre, e, principalmente, “Amazônia, Formação Social e Cultural”, de Samuel Benchimol.   É necessário entender o Brasil, as perdas causadas pela gestão incompetente e pela prática do ilícito contumaz, para apontar saídas e dizer NÃO a todas elas que nos levaram a essa encruzilhada. O evento será realizado nos dias 17 e 18 de maio de 2018, no Auditório Rio Solimões (IFCHS) da Universidade Federal do Amazonas. Constitui, sem dúvida, um momento importante para refletirmos sobre a incoerência do Poder Público, embora, seja o mais rico em tamanho e potencialidades apresenta taxas constrangedoras de Desenvolvimento Humano. Mudar isso, certamente, passa pela mobilização de todos e, sobretudo, por nossa sabedoria em escolher representantes comprometidos com a coisa pública.

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