O país apodreceu

A expressão é forte? Sem dúvida, mas não encontro outra que defina melhor a atual situação, diante do que vem acontecendo no Brasil. Fez-se em boa hora o impeachment de Dilma Rousseff, responsável pelo desastre econômico, com recessão, desemprego e inflação em alta, além da crise moral e ética patrocinada pelo lulopetismo. Puniu-se uma presidente faltosa e desidiosa. Independente do espetáculo tragicômico exibido quando da votação do impedimento na Câmara Federal, teve-se um momento de afirmação do parlamento e da democracia, referendado em julgamento do Senado Federal, fatos que permitiram cultivar esperanças do reencontro do país com os anseios da nacionalidade.

No entanto, observada a Constituição Federal, com a posse do vice-presidente Michel Temer, os sentimentos auspiciosos logo seriam sepultados. Em que pese ter formado uma equipe econômica respeitável, o novo presidente se cercaria do que há de pior na política brasileira. Levou figuras carimbadas para o núcleo de seu governo, como Eliseu Padilha e Geddel Vieira Lima. Romero Jucá chegou a ser nomeado para a pasta do Planejamento, mas em seguida se reconheceria inviável no ministério, renunciando ao cargo, sendo mais tarde designado líder do governo no Senado.

Com tal equipe, no coração do Planalto, tinha que dar no que deu, com o poder posto a serviço de interesses privados. Na triangulação, com Temer, Geddel e Padilha, afloraria um negócio escuso, celebrado à sombra do governo, com ingerências aéticas, nebulosas e não republicanas. Os diálogos entre os três e o ministro afastado da Cultura, Marcelo Calero, devidamente gravados, não deixam dúvida. Alinhava-se um concerto, avalizado pelo presidente, que passaria pela Advocacia Geral da União, a fim de resolver os óbices impostos pelo Iphan na concessão de licença de obra a um prédio faraônico em Salvador, defendida por Geddel, proprietário de uma de suas unidades habitacionais, não se sabe em que condições reais. Com o vazamento das gravações, as tratativas foram por águas abaixo e conduziram à exoneração do baiano Geddel, sem que se possa, mesmo assim, ter o imbróglio por encerrado.

Com idas e vindas, vacilante por excelência, sitiado pelo fisiologismo congressual e de auxiliares próximos, tudo indica que o governo Temer acabou. Em outra hipótese, tão grave quanto, ficará aí sangrando por mais dois anos, num quadro de acirramento da crise que hoje o Brasil experimenta.

Temer parece não entender em que conjuntura chegou à presidência, na crista de grandes manifestações populares, que pediram o fora Dilma e em defesa da ética na política, com movimentos de massa sem precedentes na história do país. A alienação do presidente chega ao ponto de anunciar que não vetará a anistia aos crimes de Caixa 2, corrupção e lavagem de dinheiro, tramada nos desvãos dos gabinetes parlamentares do PT, PMDB e PSDB. Noticia-se que já recuou, em busca de uma agenda positiva, assustado com a indignação geral dos brasileiros.

É demais, convenhamos. Enquanto Rodrigo Maia, inexperiente e inseguro, um equívoco a presidir a Câmara Federal, acertava com os partidos favoráveis a criminosa anistia, Renan Calheiros chancelava no Senado autorização para que parentes de políticos possam repatriar recursos ilícitos depositados em contas no exterior. É um escracho. O terror que assalta o Congresso em Brasília, com a delação da Odebrecht, que também alcançará ex-governadores, faz com que tudo seja possível na corrida enlouquecida do salve-se quem puder, presididos pelo cinismo levado às últimas consequências.

O quadro não é novo, mas essa gente continua cavando além do fundo do poço. Lembro de uma resposta de Ulysses Guimarães a alguém que reclamava na época contra o Congresso Nacional. Foi enfático o velho timoneiro do histórico MDB, ao dizer que ninguém se surpreendesse com o próximo a ser eleito, pois seria bem pior. É o que se vê hoje em Brasília, vencidas décadas das observações proféticas do Dr. Ulysses, com o parlamento dominado pela excrescência moral. E tudo resulta de um pacto indecente entre os eleitores e seus representantes, uma relação prom&i acute;scua, fundada na mercantilização do voto popular, que termina na outorgada de mandatos viciados na origem.

Esquecem-se, como o presidente Temer, que a opinião pública mantém-se vigilante, e qualquer fagulha pode levar tudo pelos ares, nesse barril de pólvora chamado Brasil. Milhões de brasileiros que foram às ruas contra Dilma podem se voltar a qualquer momento contra todos eles, uma vez que paciência tem limites. A ousadia e a intemperança atingiram níveis absurdos e insuportáveis. Temer com essa história de que estivera arbitrando uma divergência entre seus ministros, no caso Calero/Geddel, não convence nem o mais tolo dos néscios. Com maior ou igual gravidade, o Congresso tripudia sobre 2.600.000 assi naturas de cidadãos que subscreveram o projeto das 10 medidas contra a corrupção, ao tentar enfiar no seu texto a anistia em benefício de seus pares delinquentes.

Pelo andar da carruagem, não sei aonde ainda chegaremos.

paulofigueiredo@uol.com.br

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