A fatura ambiental do Amazonas

Certamente não sobrou espaço e tempo para, com 30 dias da nova gestão, levar uma proposta do Governo d Amazonas para a discussão do Acordo do Clima, na reunião da COP23, que ora se inicia na Alemanha. Ao menos não há notícia de debates amplos e representativos.  A pauta vai retomar o desmatamento da Amazônia e a saída dos Estados Unidos do compromisso firmado em Paris, em 2015.

Na última mensuração atmosférica autorizada pela ONU, o Brasil está em sétimo no topo do ranking dos países que mais emitem os gases do efeito estufa. Seríamos um potencial candidato ao protagonismo ambiental global, contudo o Brasil tem sido um vexame nessa matéria. Foi reprovado na sabatina ambiental da Noruega, por descumprir seu papel de reduzir o desmatamento.

Além disso, alguns ruralista promoveram um movimento para devolver os recursos desse Fundo Amazônia e alguns parlamentares da região, incluindo o Amazonas, querem reduzir as áreas de conservação florestal. Qual é o papel oficial deste Estado, na contramão do Brasil predatório, que mantém mais de 90% de sua cobertura vegetal graças a economia da ZFM? O padrão do desmatamento, pecuária tradicional e aumento das emissões ou a cobrança de green-bounds, retenção das verbas de P&D, para desenvolver bioeconomia e mais a manutenção dos incentivos constitucionais?

No padrão ruralista, adotar o padrão Centro-Oeste, que responde por 50% da balança comercial e das emissões do Brasil, seria a saída. A proposta é eliminar o ativo de que dispomos e que o mundo deve pagar, ou derrubar a floresta para mega-projetos no modelo que troca banco de germoplasma, o tesouro da bioeconomia, por proteína bovina, 500 kgs/hectare.

É preciso debater as duas saídas. Na primeira, cabe anotar, com 1 milhão de hectares de cobertura removida, o Amazonas pode acrescentar 6 zeros na produção de peixe em cativeiro, que gera 22 toneladas por hectare de espelho d’água. Com a vantagem de não emitir os gases do efeito estufa como a modelagem tradicional da pecuária. Lembrando, porém, que a EMBRAPA já evoluiu nessa opção.

O mundo vai caminhar na direção de promover uma economia sustentável, como faz a ZFM há 50 anos, uma economia sem chaminés que gera receitas generosas para a prospecção de bioprodutos, ambientalmente sustentáveis como a indústria aqui instalada.

Qual o sentido do Brasil defender o paradigma de expansão do atual modelo do agronegócio do Centro-Oeste para a Amazônia? O Centro-Oeste já sabe que, muito em breve, a certificação da carne, além de sanitária, não escravagista e socialmente justa, tem que ser ambientalmente equilibrada, como preconizou Samuel Benchimol. Eles precisam incorporar o padrão ZFM e não o contrário.

Cabe, também, lembrar que o Centro da Indústria do Estado do Amazonas tem-se mobilizado para precificar este ativo, os serviços ambientais do Polo Industrial de Manaus. Colocar preço no serviço ambiental, propiciado pela economia instalada no Amazonas, é um dos seus inúmeros benefícios para justificar renúncia fiscal, além da qualificação acadêmica paga pela indústria, que a UEA executa, mais as verbas, mais de R$ 1 bilhão/ano, para promover a economia sustentável do interior.

Caberia ao Amazonas, com seus estudos da dinâmica do carbono, o CADAF, pago pelo governo japonês, apresentar na Alemanha uma fatura com este perfil. O valor do cheque será definido pelo PIB Verde, recentemente aprovado no Congresso Nacional e que poderá dizer quanto custa manter uma floresta frondosa em 95% de seu porte e poder incentivar atividades produtivas de baixo carbono? Este é um dos desafios da FIPE Amazonas, que as entidades da Indústria estão pilotando para criar novas modelagens da economia da sustentabilidade, em que estamos ficando especialistas.

Ou algum outro Estado tem condições de responder ex-cátedra qual a importância econômica da floresta amazônica na busca do equilíbrio climático da Terra, a pergunta da hora que o Brasil disse em Paris, há dois anos, que saberia responder, com desmatamento zero e reflorestamento de 12 milhões de hectares.  Com tantos furacões e cataclismas não dá mais pra brincar com coisa séria.

(*) Alfredo MR Lopes é ensaísta e consultor em desenvolvimento regional  alfredo.loprs@uol.com.br

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