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Cebola e tulipa

Mesmo antes da existência de greves de caminhoneiros ou de locautes de empresários de transporte, a perda de mercadorias sempre tirou o sono dos cidadãos. Na época, naufrágios de navios ou ações de piratas poderiam impedir a chegada de uma carga preciosa e trazer vultosos prejuízos.

Por isso, um rico comerciante holandês ficou muito contente quando soube que uma remessa de valiosos produtos havia chegado em segurança ao porto da cidade. Em agradecimento à boa notícia, o negociante recompensou o marinheiro com uma refeição grátis.

O prato estava saboroso, mas o marinheiro gostava de comida mais temperada. Sentiu-se com sorte quando viu aquele bulbo de cebola no balcão e, sem pensar ou pedir permissão, adicionou o condimento à sua ceia. Foi quando descobriu que a família do comerciante era histericamente “louca por cebola”. O marido, a esposa, os filhos, os servos ficaram desesperados quando o viram mastigando a planta. A polícia foi chamada. O marinheiro foi condenado a ficar seis meses na prisão.

Aviso aos navegantes: não foi cebola que o marujo comeu. Na verdade, ele virou prisioneiro porque havia consumido uma rara tulipa. Naquele lugar (Holanda) e momento da história (século 17), isso significava que o mareante havia destruído uma verdadeira fortuna. No caso, era um bulbo de tulipa Semper Augustus pelo qual o mercador havia pago três mil florins. Este bulbo era tão valioso que, se fosse vendido, o produto da venda poderia ter alimentado toda a tripulação de um navio durante o ano inteiro.

A razão de uma flor virar motivo para prisão ou passar a valer fortunas nos Países Baixos começa em 1593, quando o botânico Carolus Clusius trouxe alguns bulbos de tulipa da Turquia. Seu objetivo era usar a planta para fins medicinais, mas algum tempo depois a flor (cujo significado em turco é turbante) se tornou símbolo de status. Quanto mais rara a tulipa, mais valiosa ela era considerada. Especuladores logo perceberam que podiam lucrar com a demanda e passaram a comprar bulbos para revendê-los a preços ainda mais caros.  Em 1623, um simples bulbo de uma variedade famosa de tulipa poderia custar muitos milhares de florins holandeses.

Para driblar questões naturais, como o fato da tulipa só florescer entre sete a 12 anos após ser plantada, os negociantes inventaram uma nova forma de ganhar dinheiro apostando na alta do preço das tulipas: a especulação financeira. Nas tavernas holandesas, os mercadores não vendem apenas os bulbos de tulipas, mas também o direito à colheita nos anos sucessivos. Todos acreditam que os preços sempre subirão.

Assim, tulipas foram trocadas por terras, animais valiosos. Algumas variedades podiam custar mais que uma casa em Amsterdã. Dizia-se que um bom negociador de tulipas conseguia ganhar seis mil florins por mês, quando a renda média anual, à época, era de 150 florins. Um bulbo de tulipa passou a ser vendido pelo preço equivalente a 24 toneladas de trigo.

Por volta de 1635, a venda de 40 bulbos por 100 mil florins foi um recorde. Naquele ano, uma tonelada de manteiga custava algo em torno de 100 florins e oito porcos graúdos custavam 240 florins. O recorde foi a venda de um dos mais famosos bulbos, o Semper Augustus, por seis mil florins, em Haarlem.

Até que, no inverno de 1636-1637, alguém percebeu que estavam pagando fortunas por nada mais do que uma planta de jardim. Um comprador não honrou o seu contrato e o primeiro calote gerou um pânico que fez com que todos quisessem vender as “ações da tulipa”. Em questão de dias, os preços despencaram.  Muitos dos que haviam dado tudo o que tinham para ter uma tulipa, agora se encontravam apenas com uma planta de pouco valor. O resultado foi uma crise socioeconômica que durou anos para ser debelada.

No futebol atual também há muita distorções de valores e especulação. É difícil entender como jogadores podem custar exorbitâncias equivalentes à renda de países e receber salários de prêmios de loteria. Muitos empresários de atletas enriquecem da noite para dia. Clubes gastam hoje, já contando com “colheitas futuras”. Alguns times gastam o que não têm, contratam jogadores que não podem pagar e ganham títulos que não mereciam; numa espécie de “doping financeiro”.  Nem todos honram os contratos que assinam.

Como forma de prevenir o início de um pânico ou uma crise incontrolável no mercado, a Fifa teve que baixar, recentemente, uma determinação pelo qual irá punir o clube que der calote com perda de pontos e até rebaixamento.

Ou seja, pode provar um gosto muito amargo – e até chorar – quem ter gastos de “tulipa” e formar dívidas com mais camadas que “cebola”.

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