Amor e ódio à camisa

Pode até conter exageros, mas alguns correspondentes de guerra brasileiros já contaram uma recorrente e dramática história, envolvendo uma certa camisa amarela, mais ou menos assim:

“O jornalista – acompanhado do fotógrafo ou do cinegrafista – sai em busca de notícias e acaba adentrando um território de conflito bélico. Percebe o erro ao ser cercado por um grupo de soldados (ou guerrilheiros) fortemente armados. Sob a mira das metralhadoras, mãos ao alto, a dupla responde aos gritos tentando explicar que não são espiões do exército inimigo.

O barulho das armas engatilhadas demonstram que os combatentes não acreditaram neles. A execução parece ser inevitável. É quando um deles tem a ideia de, cuidadosamente, abrir o casaco e mostrar que usa a camisa da Seleção Brasileira. Nesse momento, os brasileiros também repetem o nome da nação e de jogadores famosos como Pelé, Zico, Ronaldinho.

Logo, o clima de pavor se dissipa. Os rostos carrancudos e taciturnos agora são só sorrisos.  Os soldados baixam as armas e oferecem abraços. Doravante, todos são ‘amigos de infância’. De repente, surge uma bola. A guerra é interrompida”.

Menos intrépidas e façanhosas, há ainda vários relatos de turistas brasileiros no exterior que conseguem vencer resistências, superar embaraços, resolver confusões como a perda do passaporte, simplesmente por ter usado o uniforme da Seleção. Quem fez viagens internacionais recentes também constatou que nem mesmo o ‘7 a 1’ para a Alemanha conseguiu diminuir a simpatia e a força despertadas pela camisa canarinho.

Se o fascínio e a receptividade internacional por um dos nossos maiores símbolos continua ganhando de ‘goleada’, internamente há vários que estão olhando o uniforme nacional como uma espécie de ‘gol contra’.  Por questões ideológicas e políticas, há brasileiros que começaram a ter ojeriza pela farda do time tupiniquim.  Surgiu até uma proposta de substituição.

Tudo começou quando a camisa da Seleção foi bastante usada nos protestos favoráveis e que resultaram no impeachment da presidente Dilma. As manifestações eram a comprovação de que a esquerda havia perdido a hegemonia das ruas e a liderança na mobilização popular.

O discurso esquerdista sempre foi de estar ao lado ou lutar pelo povo. “Como assim o povão está contra um governo de esquerda?”.  A reação foi dizer que não era o ‘verdadeiro povo’, quem protestava era ‘manifantoche’, ‘pato da Fiesp’, um manipulado.

A desqualificação também envolveu o futebol. Em resposta à revolta contra a corrupção, a esquerda enfocou o brasão exposto da camisa da Seleção. “Que ironia! Protestar contra a corrupção usando a camisa de uma entidade corrupta como a CBF”, diziam. Para eles, a amarelinha não era a camisa do Brasil, mas representava a CBF. Conforme essa narrativa, estava errado quem vibrou, gritando ‘Brasil’ em cada gol ou título. O brado deveria ser ‘CBF!’.

A súbita aversão à blusa dourada parece que não terá trégua nem na Copa. Foi até criada uma versão alternativa por causa de uma raiva de um juiz, quer dizer, juíza. A ideia surgiu em reação à notícia de que um grupo de jovens – usando a camisa oficial da Seleção – fizera um mutirão para limpar e pintar o prédio da ministra do STF, Carmen Lúcia. No dia anterior, o local havia sido pichado e vandalizado por descontentes com o voto dela contrário a um habeas corpus para evitar a prisão de Lula.

“Por favor alguém cria uma camiseta da CBF vermelha. Não quero usar a amarela na Copa e ser confundida com um ‘pato paneleiro’”, escreveu Marcela Sathler, amiga da designer mineira Luísa dos Anjos Cardoso. Assim, a estilista criou uma camisa da seleção vermelha, incluindo foice e martelo. Devido à uma notificação judicial da CBF, a mineira teve que tirar o brasão da CBD (antecessora da CBF) e agora, no escudo, aparece escrito “Brasil”, rodeado por seis estrelas.

Segundo a designer, há uma grande demanda pelo produto, vendido pela internet a R$ 45 (fora o frete). Como demonstram os artigos que usam o rosto de Che Guevara, mercadorias consideradas anticapitalistas são muito lucrativas, pois, no preço delas também estaria embutido o apelo da rebeldia de uma suposta ‘luta contra o sistema’.

Curioso é que o Brasil já jogou de vermelho, no Sul-Americano de 1917, nos jogos contra Uruguai (perdeu de 4 a 0) e Chile (venceu por 5 a 0).  Isso porque, na época, as três seleções usavam uniforme branco. O Brasil perdeu os sorteios, teve de trocar a camisa e só encontrou material esportivo de cor vermelha nas lojas de Montevidéu.

O Brasil parou de usar branco devido à traumática derrota na Copa de 1950. Era a perda da inocência. Foi com o pano amarelo que o País conquistou suas maiores glórias esportivas. E a camisa amarela do Brasil – não da CBF- virou uma espécie de capa de super-herói em que o brasileiro acredita possuir a melhor versão de si mesmo.  “Já ninguém tem mais vergonha de sua condição nacional. (…) O povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos: — o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas”, ressaltou Nelson Rodrigues, sobre o título de 1958.

Amarelo e vermelho são as cores escolhidas para cartões. O amarelo é atenção, advertência; o vermelho é expulsão. Avaliar o que merece atenção e o que deve ser expulso é algo muito importante nas questões políticas.

Já no futebol, que com o time “vestido de sol” se realize os versos de otimismo de Carlos Drummond de Andrade: “A vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo lavou os corações, entusiasmou as filas, uniu os desafetos e tornou possível a solução imediata dos nossos problemas”.

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