A concentração da renda e da riqueza: uma questão econômica

15 de setembro de 2008: o grande grupo financeiro Lehman Brothers entra em falência nos Estados Unidos. Até então, a economia-norte-americana vinha de um longo período de estabilidade monetária, de baixo nível de desemprego e de crescimento econômico sustentado. O ambiente de negócios era típico de um ciclo de prosperidade econômica e de otimismo da população quanto aos cenários futuros.

Poucos analistas anteciparam a crise que estava chegando, como seriam profundos os custos econômicos e sociais subsequentes, como os seus impactos perversos iriam se espraiar por todo o Mundo. Falava-se, à época, da Grande Moderação do capitalismo e do fim dos ciclos econômicos recessivos ou inflacionários. Robert Lucas, prêmio Nobel de Economia, havia escrito que a análise macroeconômica tinha evoluído e resolvido, para todos os efeitos práticos, o problema de como uma sociedade pode se prevenir contra uma depressão econômica. Um argumento que se tornou ilusório com o derretimento dos sistemas financeiros nos países desenvolvidos, tendo como consequência uma crise econômica mundial mais profunda do que a Grande Depressão de 1929.

A questão que se colocou era compreender como a falência de apenas um banco, no mundo trilionário dos negócios econômico-financeiros, pôde funcionar como uma faísca de alto poder incendiário das modernas e vigorosas economias capitalistas no século XXI. Em Economia, denomina-se esse processo de tipping point, ponto de inflexão ou ponto crítico no processo de evolução de um fenômeno ou de um evento que conduz a um desenvolvimento irreversível ou a um retrocesso inexorável. É semelhante a uma doença infecciosa que atinge um ponto para além de qualquer habilidade local no sentido de controlar seu espraiamento mais amplo. Ou semelhante ao colapso de grandes geleiras em função das mudanças climáticas. Ou, até mesmo, a uma inesperada corrida bancária decorrente de um boato qualquer.

Um exemplo mais prosaico é uma cena do filme “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin. Um grupo de operários descansa no horário de almoço na rua em frente à fabrica na qual trabalham e onde estão insatisfeitos com o que fazem e com o que recebem. Passa um caminhão carregado de explosivos com uma bandeira vermelha sinalizando que a carga é perigosa. A bandeira cai. Chaplin pega a bandeira e corre atrás do caminhão para entregá-la. Os trabalhadores se erguem imediatamente para segui-lo, iniciando uma marcha de protesto. A cena é de 1936, nos Estados Unidos, no contexto da depressão econômica de 1929.

Willian Nordhaus, da Universidade de Yale, afirma que quando um sistema aparentemente estável e sob controle experimenta uma profunda descontinuidade no seu comportamento ocorre um tipping point. E que o tempo exato e a magnitude de tal inflexão são quase sempre impossíveis de predizer.

Ele pode ocorrer rápida e inesperadamente ou pode até mesmo não ocorrer. Mas, se as pessoas acreditarem que essa ruptura vai ocorrer, acabam por provocá-la, numa expectativa ou profecia autoconfirmada.

De fato, é muito difícil prever quando ocorre um ponto de descontinuidade estrutural em processos econômicos ou políticos. Mas é possível vislumbrá-lo num horizonte não muito distante, quando é precedido de indicativos que despontam num período de grandes tensões e conflitos ideológicos como estamos vivendo atualmente no Brasil. A grande dúvida: será possível prever o ponto de virada antes de ultrapassá-lo, ou somente depois disso? É bom lembrar, contudo, que o melhor cenário para o futuro do País será aquele que inventarmos e construirmos.

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Paulo R. Haddad é professor emérito da UFMG.  Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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