
Por Kézia Martins, especial para o ATUAL
MANAUS – Ykamiabas, longa-metragem dirigido pela escritora, jornalista e cineasta amazonense Regina Melo, mostra a trajetória das Icamiabas, mulheres guerreiras do imaginário amazônico, para abordar resistência feminina e proteção da floresta.
O filme é baseado no romance Ykamiabas: Filhas da Lua, Mulheres da Terra, publicado pela primeira vez em 2004. A obra é originária de uma pesquisa da autora sobre os registros históricos e mitológicos relacionados às guerreiras e aos muiraquitãs. Regina conta que começou a estudar o tema ao questionar por que narrativas masculinas eram classificadas como mitos, enquanto a história das Icamiabas era frequentemente tratada como lenda.

“Quando você vai tratar de mitos masculinos, você chama de mito. Quando vai falar das Icamiabas, chama de lenda. Na minha opinião, isso é uma forma de diminuir essas mulheres”, afirma. A pesquisa reuniu obras raras, estudos históricos e trabalhos de autores como o padre Casimiro Béksta e Fernando Sampaio, além de pesquisas do Museu Emílio Goeldi, do Pará.
A aprovação no edital Ruth de Souza, voltada para diretores estreantes, garantiu a oportunidade de transformar sua escrita em audiovisual. E com um orçamento de R$ 2 milhões, a produção foi gravada durante seis semanas, entre maio e junho de 2026. As filmagens ocorreram em Manaus, Nhamundá, Serra da Lua, Tarumã e na região da nascente do rio Água Branca.
O planejamento começou em 2024 e a produção em 2025, mas parte do projeto inicial precisou ser reduzida por falta de recursos. A proposta previa cenas em países como Turquia e Grécia e em regiões da Escandinávia.
A equipe trabalha agora na circulação do longa. A previsão é realizar aproximadamente cem exibições em cidades brasileiras. Manaus será a primeira a receber o filme, seguida por Fortaleza, Natal e São Paulo. Também está prevista uma pré-estreia em Nhamundá, município que inspirou parte da história e apoiou as gravações.
Segundo Regina, concluir uma produção audiovisual representa apenas uma das etapas enfrentadas por quem faz cinema na Amazônia. Além do financiamento, realizadores da região encontram dificuldades relacionadas à logística, à distribuição e ao acesso ao mercado nacional. Apesar dos obstáculos, ela demonstra otimismo com a retomada das políticas públicas para o audiovisual. “Agora a gente está vivendo um momento muito bom do cinema brasileiro. São muitos editais. O Ministério da Cultura voltou. Então, eu acho que é o momento de a gente aproveitar”.
Para a diretora, Ykamiabas não é apenas uma adaptação do livro, mas uma recriação da narrativa tradicional a partir da perspectiva feminina. Ela reuniu registros históricos e culturais para construir uma história com linguagem cinematográfica.
“Existia um mosaico de informações históricas que nunca foi juntado. Eu saí juntando os pedacinhos e tecendo uma história. Eu acredito que fiz a recriação do mito, ou a reinvenção do mito. O mito visto pela percepção de uma mulher”, relatou.
Regina avalia que o romance ajudou a ampliar o interesse pelas guerreiras amazônicas. Segundo ela, o nome Icamiabas passou a ser adotado por associações de mulheres, grupos de teatro e outras iniciativas culturais. “Eu acho que dei uma grande contribuição para o Amazonas”.
Participação indígena
Alguns dias de filmagem mobilizaram mais de cem pessoas, entre atores, técnicos, figurantes e profissionais de apoio. A produção do filme também se destacou pela participação indígena. O elenco reuniu aproximadamente 60 indígenas de 15 etnias, entre elas Baré, Tikuna, Tukano, Miranha, Kambeba e Tapuia. Além de atuar, participantes colaboraram com a tradução de diálogos para o Nheengatu, língua utilizada em parte das cenas.
“Com toda a dificuldade que a gente teve, nós reunimos um elenco de 60 indígenas, de 15 etnias diferentes. Foi tudo muito mágico”, disse a diretora.
A Amazônia aparece no longa não apenas como cenário, mas como parte da narrativa. A produção reúne paisagens, gastronomia, figurinos, musicalidade e costumes regionais. “Eu procuro falar da Amazônia com gosto, com cores, com cheiros. Não dá para contar uma história sem mostrar tudo isso. Eu gosto de mostrar Manaus, o Teatro Amazonas e o rio. A história vai sendo contada, mas também vai mostrando onde ela se passa”.
Universo amazônico
A trilha sonora original também busca aprofundar essa experiência. Parte das composições é assinada por Regina em parceria com o músico Adalberto Holanda. Segundo a diretora, a combinação entre música, fotografia, paisagens e elementos culturais foi pensada para provocar uma imersão do público no universo amazônico.
Para Regina, a principal diferença entre escrever um livro e dirigir um filme está no caráter coletivo da produção audiovisual. Enquanto a escrita é desenvolvida individualmente, o cinema depende da colaboração de profissionais de diferentes áreas.
“O escritor, que é a minha essência, é um ser sozinho. Ele escreve sozinho. Mas, para fazer um filme, você não faz um filme sozinho. E é aí que está a magia”, afirma. A equipe reuniu profissionais experientes e pessoas que estavam tendo o primeiro contato com o audiovisual, em um processo de troca de conhecimentos durante as gravações.
A diretora trabalha na continuidade da história. O roteiro do segundo filme está sendo escrito em parceria com a filha e pretende utilizar o universo das Icamiabas para discutir violência contra a mulher e feminicídio.
Regina também relaciona as guerreiras aos debates sobre preservação ambiental e mudanças climáticas, “Eu penso que as Icamiabas são um referencial feminino importante, que liga as mulheres à terra. Elas não são apenas mulheres de luta, são mulheres de proteção da floresta”, afirma.
Com o longa, a cineasta espera despertar principalmente o interesse de jovens e mulheres por uma história ainda pouco conhecida. Para Regina, porém, a mensagem precisa chegar ao espectador por meio do encantamento proporcionado pela linguagem audiovisual.
“A gente tem que buscar esse público que desconhece essa história, mas pela magia também. Para mim, o cinema tem que ter fotografia, tem que encantar. Não basta contar só uma boa história”, defende.
O cronograma preliminar prevê cabine de imprensa em 29 de agosto, pré-estreia em Nhamundá no dia 5 de setembro e início do circuito de exibições em Manaus em setembro. As datas ainda serão confirmadas e divulgadas oficialmente nas redes sociais da produção em @ykamiabasofilme.
Ykamiabas é um filme de fantasia, com classificação indicativa de 14 anos.

Link do trailer: https://www.youtube.com/watch?v=m2zSYd5xa-I
Site: https://ykamiabas.com.br/
