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>Dia a Dia

Na era dos aplicativos, taxistas têm vida difícil: 'Se fosse só pelo táxi, ia passar fome'

15 de dezembro de 2019 >Dia a Dia
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táxi manaus
Taxistas afirmam que passam a manhã sem fazer corridas em alguns dias (Foto: Murilo Rodrigues/ATUAL)
Por Iolanda Ventura, da Redação

MANAUS – Uma taxa de R$ 94,50 para a empresa e mais R$ 500 por semana pelo aluguel do carro. Essa é a despesa que Ana Cristina Fernandes, 33, precisa pagar para trabalhar como taxista em Manaus.

Além dos R$ 594,50, a motorista também paga R$ 270 anualmente para o IMMU (Instituto Municipal de Mobilidade Urbana) para manter a regularização do registro profissional. Além desses gastos, a adesão aos aplicativos de transporte é considerada pouco atrativa devido ao preço baixo das viagens, a maioria de itinerários curtos.

Ana Cristina trabalha há 10 anos como taxista. Atualmente, ela fica em um ponto próximo à Avenida Eduardo Ribeiro, no Centro de Manaus.

Mesmo com grande quantidade de pessoas que circulam no local diariamente, Cristina relata dificuldades para conseguir passageiros com a concorrência do transporte por aplicativo.

“Reduziu de 100% para 40%. Hoje em dia eu transporto, no máximo, uns seis passageiros por dia. Antigamente eram 20 ou 15, dependendo do movimento. Era muito bom”, lembra.

De acordo com Ana Cristina, antes dos aplicativos a renda líquida mensal era em torno de R$ 2 mil. “Hoje em dia eu devo ter uns R$ 800 mais ou menos”, afirma.

Aplicativo de táxi

Com o aplicativo Táxi Manaus, lançado em maio de 2018, uma parceria do IMMU com o Sintax (Sindicato dos Taxistas do Amazonas), Ana Cristina afirma que faz até seis corridas e que a ferramenta ajudou a melhorar a renda.

“Sou credenciada do Táxi Manaus. Olha, ele ajuda bastante na renda. Tem muitas coisas a ser mudadas, mas ajuda bastante”, diz.

taxistas manaus
Ana Cristina fica em um ponto próximo à Avenida Eduardo Ribeiro (Foto: Murilo Rodrigues/ATUAL)

A vantagem do app não é um consenso entre a categoria. David Melo da Silva trabalha há cinco anos na profissão e em um ponto próximo à Sefaz (Secretaria de Fazenda do Amazonas). O taxista chegou a usar o aplicativo por um ano, mas não viu retorno financeiro.

“Em relação ao Táxi Manaus, eles exigiam o certificado e, com isso, a gente tinha direito a pegar, se cadastrar e utilizar o aplicativo. Mas após todo mundo conseguir esse certificado estão cobrando uma taxa de R$ 60 para as pessoas que quiserem permanecer trabalhando com o aplicativo”, disse.

David alega que preferiu não usar mais o Táxi Manaus porque não conseguia corridas suficientes para que fossem cobrados os R$ 60, além de outros fatores como o preço alto da gasolina.

Ele afirma que devido à grande quantidade de taxistas, os usuários não pediam o serviço pelo aplicativo, apenas se deslocavam até o motorista mais próximo em um dos pontos onde ficam estacionados.

Outro problema, segundo ele, é a falta de precisão na localização e o tempo para chegar ao ponto de encontro.

“Eles estipulavam cinco minutos para pegar o cliente, mas a gente tem um trânsito bem complicado. Tem uma cidade que não tem uma estrutura boa para receber tanto a classe dos taxistas como dos aplicativos”, diz David.

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O taxista José Welington não concorda com preços de viagens em horários de pico (Foto: Murilo Rodrigues/ATUAL)

Para o taxista José Welington de Melo, 80, o maior problema do Táxi Manaus eram os valores das corridas nos horários de pico.

“O nosso aplicativo Táxi Manaus tem um preço muito baixo num horário de pico. Nos outros horários não, mas no horário de pico já fiz corrida daqui [Centro Histórico] lá para a Cidade Nova por R$ 20, corrida que passa mais de duas horas”, reclama.

José Welington fica em um ponto próximo ao Teatro Amazonas. Ele é taxista há 20 anos, e hoje lamenta que em alguns dias passa a manhã toda no local sem realizar uma corrida.

“Antes, eu fazia mais ou menos umas dez ou 12 corridas (por dia). Hoje em dia, faço 4 ou 3”, revela.

Para se manter, José Welington conta com a aposentadoria. “Eu só trabalho com táxi, mas eu tenho a minha aposentadoria. Apesar que é uma mixaria que a gente ganha do INSS, mas se fosse só pelo táxi eu ia passar fome”, afirma Wellington.

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Onde José Welington fica não há movimento de passageiros, mesmo em área turística (Foto: Murilo Rodrigues/ATUAL)

Há oito anos trabalhando com táxi no Centro, Lourival Marques dos Santos Filho, 59, observa que houve uma redução significativa de colegas de profissão.

“De 100%, hoje está numa faixa de 50%. Quebrou muito. Antes, a gente fazia uma faixa de dez ou 12 corridas ao dia, hoje fazemos de 5 a 6”, afirma.

Lourival nunca usou o Táxi Manaus por receio. “Nunca usei. Isso aí foi uma invenção que teve aí, mas uns colegas que botaram não acharam que foi muito futuro não, até saíram do aplicativo”, diz.

E o sindicato?

A queixa dos taxistas sobre o aplicativo Táxi Manaus não reflete a realidade, na opinião de José Carlos Sousa, presidente do Sintax, o Táxi Manaus tem 50 mil usuários e realiza, em média, 3 mil corridas por dia em diferentes zonas da capital.

Sousa afirma que não tem uma média da quantidade de viagens antes do aplicativo, pois não tem esse controle, mas afirma que o Táxi Manaus aumentou o lucro dos motoristas.

“Os taxistas que aderiram ao aplicativo tiveram um aumento de mais de 30% na sua renda”, diz o presidente do Sintax.

O aplicativo Táxi Manaus está disponível para todos os 4.032 permissionários, mais os seus auxiliares. Mas, por ser um produto do sindicato, somente os associados podem usar, explica José Carlos Sousa.

“Para que nós possamos manter o controle e qualidade do serviço, ele é disponibilizado a quem faz parte do sindicato. E como não é obrigado você ser sindicalizado, então nós temos hoje em torno de 500 permissões e mais alguns auxiliares”, explica o sindicalista.

Redução de taxas

O Projeto de Lei 397/2019, de autoria da Prefeitura de Manaus, aprovado na CMM (Câmara Municipal de Manaus) na terça-feira, 10, ampliou para 92% as taxas que deixarão de ser pagas pelos taxistas.

Além da redução das taxas, há o aumento no prazo de validade do veículo, que passa de cinco para dez anos, e a permissão para que o taxista exerça outra atividade remunerada fora do sistema.

Os altos valores cobrados para que o taxista possa circular com o veículo é a razão das inadimplências, mas o IMMU não sabe qual a média de valores devidos.

O instituto alega que variam mês a mês, e não há dados fechados. “A inadimplência sempre há e, atualmente, não está acima da média de meses anteriores”, informou o instituto em nota, tentando minimizar a situação, sem apresentar dados.

Sobre o interesse para adesão ao serviço de taxistas, o IMMU informa que “neste ano não foi aberta licitação para novos táxis, então, não há como saber se haveria ou não pessoas interessadas no serviço. Eles só buscam se inscrever quando há licitação”. A mais recente ocorreu em 2017.

De acordo com o órgão, das 4.032 licenças de táxis na cidade, 700 não estão operando. Com isso, são 3.332 taxistas circulando em Manaus.

Concorrência

O projeto de lei apresentado à CCM para reduzir taxas foi uma reivindicação do próprio sindicato. Questionado se a inadimplência motivou a proposta, José Carlos Sousa afirma que esse foi um dos fatores.

“É claro que não é só isso. Além de toda essa questão financeira, existe também a modernização do sistema. Esse projeto da prefeitura está agraciando também a desburocratização do sistema, a facilidade para que você exerça a profissão até para poder concorrer com esse modal de aplicativos”, diz o presidente do Sintax.

Quanto à possibilidade de taxistas migrarem para o transporte por aplicativo, já que o PL abriu espaço para atuação em outra atividade, José Carlos diz que não acredita nessa migração.

“Nós pedimos isso no projeto para que haja essa possibilidade de você ter um táxi como sua fonte de renda principal, mas que você recompõe aquela perda de 70% devido à pulverização no mercado com uma outra atividade paralela ou similar”, diz.

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Assuntos immu, sintax, Táxi Manaus, taxistas, Transporte por aplicativo
Redação 15 de dezembro de 2019
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