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Dia a Dia

Um ano após colapso em Manaus, ômicron é nova ameaça à saúde pública

12 de janeiro de 2022 Dia a Dia
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cilindros de oxigenio
Policiais militares ajudaram a transportar cilindros de oxigênio: crise da Covid em janeiro de 2021 (Foto: Lucas Silva/Secom)
Por Júlia Barbon, da Folhapress

RIO DE JANEIRO – “Cientistas encontram variante inédita com origem no Amazonas”, dizia o título de uma reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo em 12 de janeiro de 2021. Era o prenúncio de meses caóticos, que começariam com pacientes morrendo sem ar nos hospitais de Manaus.

Um ano depois, o Brasil vive mais uma vez o medo de uma nova crise, com uma nova linhagem do coronavírus. A rápida disseminação da variante ômicron já faz testes acabarem, prontos-socorros lotarem e internações subirem rapidamente nas capitais.

Por outro lado, a cepa menos agressiva agora encontra um país majoritariamente vacinado e com capacidade de resposta mais rápida para ampliar leitos, fatores que contribuem para uma média diária de mortes oito vezes menor do que naquele momento.

“Mas o colapso pode se manifestar de diferentes maneiras em cada cidade. Tivemos a crise do oxigênio de Manaus, depois a crise do kit intubação em São Paulo. Agora, tem preocupado o afastamento de profissionais de saúde infectados, que pode causar uma crise de recursos humanos, por exemplo”, diz o sanitarista Christovam Barcellos, da Fiocruz.

O cientista lembra também a possibilidade de acontecerem surtos em regiões menos vacinadas como o Norte. Amapá, Roraima e Acre estão no fim do ranking do país, com menos da metade de sua população com o ciclo completo.

Nos dias que precederam a crise em Manaus, no entanto, nem vacina existia ainda no Brasil. O Instituto Butantan e a Fiocruz aguardavam o aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para usar de forma emergencial os imunizantes importados.

Países europeus, Estados Unidos e Argentina começavam a imunizar suas populações, e a pressão sobre o governo federal crescia, com o estado de São Paulo ameaçando iniciar a campanha por conta própria –o que acabou acontecendo em 17 de janeiro.

O Brasil havia acabado de atingir a marca de 200 mil mortos pela Covid-19 (que seria triplicada dez meses depois), lamentada por Jair Bolsonaro (PL) em uma live nas suas redes sociais nas quais acrescentou que “a vida continua”.

O presidente já havia trocado de ministro da Saúde duas vezes a essa altura, deixando Luís Henrique Mandetta (DEM) e Nelson Teich para trás. Na cadeira estava o general Eduardo Pazuello, que concordou em ampliar a oferta de cloroquina sem respaldo científico e ignorou os avisos sobre a escassez de oxigênio em Manaus.

Até então, Bolsonaro tinha o discurso alinhado ao do ex-presidente americano Donald Trump, que por sua vez via seu país bater a cifra de 4.000 mortos por dia, seguindo uma tendência de alta no mundo inteiro.

As principais preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS) naquela época eram as variantes alfa (surgida no Reino Unido) e beta (África do Sul). Ainda nem se falava em delta (Índia), e a gama (Brasil) acabava de ser descoberta.

Foi ela quem fez explodir os casos, internações e óbitos no Amazonas naquele momento, antes de qualquer outro lugar. “Estava começando a subir no resto do Brasil. Neste ano, não sabemos, porque estamos com uma falha de dados tremenda desde dezembro”, ressalta Barcellos.

O epidemiologista Raphael Guimarães, do Observatório Covid-19 da Fiocruz, concorda: “Há duas diferenças muito grandes nos dois períodos. Primeiro, a vacinação. Segundo, o apagão de dados. Estamos navegando no escuro e não temos como prever cenários para tomar as decisões corretas”.

Isso porque os sistemas do Ministério da Saúde estão instáveis há um mês, após ataques hackers, e o país continua sem uma política ampla de testagem. O jornal Folha de S.Paulo mostrou neste sábado (7) que o número de infecções pode dobrar para 1 milhão por dia em duas semanas, considerando casos não notificados estimados pela Universidade de Washington.

A doença agora de fato tem sido mais branda, mas, com a alta transmissão, não está descartado o risco de os hospitais lotarem. Segundo dados de deslocamento do Google, hoje o índice de permanência em casa é bem menor do que um ano atrás.

“Pense que você tem mil casos e cem evoluem para internação. Mas se você tem dez vezes mais casos, vai ter dez vezes mais internações”, lembra Guimarães, acrescentando que essa pressão nos sistemas de saúde deve ficar mais clara daqui a cerca de dez dias, quando houver piora dos pacientes que se infectaram recentemente.

Ele, porém, diz achar difícil um cenário tão caótico como no início de 2021, com 90% a 100% de ocupação de UTIs em muitos estados brasileiros. Contribui para o sentimento de esperança a perspectiva de entrega de uma vacina produzida totalmente em território nacional pela Fiocruz já no início de fevereiro, após liberação da Anvisa na sexta (7).

Pesquisadores ressaltam que a Covid-19 tem seguido a trajetória dos anos anteriores e de gripes comuns, com o surgimento de novas variantes no hemisfério norte no fim do verão, com pico no inverno e em seguida aumento no hemisfério sul.

Seguindo essa lógica, a variante ômicron poderia representar uma espécie de começo do fim da pandemia. “É uma tendência que toda epidemia tem, de passar a ter variantes menos agressivas para que se transmitam mais. Mas ainda é muito perigoso. Um surto desse como poucos vacinados é uma tragédia”, ressalta o sanitarista Barcellos.

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Assuntos colapso na saúde, Covid-19, Covid-19 em Manaus, oxigênio
Murilo Rodrigues 12 de janeiro de 2022
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