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Variedades

‘Titane’ tem cenas explícitas de violência misturadas a um erotismo latente

26 de janeiro de 2022 Variedades
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Titane foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado e chega agora ao Brasil (Divulgação/Mubi)
Por Leonardo Sanchez, da Folhapress

SÃO PAULO – Foi com certo alvoroço que o mundo cinéfilo recebeu, em julho do ano passado, a notícia de que Julia Ducournau havia vencido a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Não só por ela estar ainda em seu segundo longa-metragem ou por ser a segunda mulher a ganhar a honraria, mas também porque seu filme, “Titane”, incomoda.

Um terror corporal -ou “body horror”, como o subgênero é mais conhecido-, o filme, que chega ao Brasil pelo Mubi, não modera nas cenas explícitas de violência e tem um erotismo latente que perpassa toda a trama. O estilo rendeu desde elogios que alçaram “Titane” ao posto de melhor filme do ano, ou divisor de águas cinematográfico, até críticas que o rotularam de escandaloso demais ou mesmo machista.

O último comentário se escorava principalmente numa das primeiras cenas do longa, em que a protagonista Alexia, vivida por Agathe Rousselle, chega ao trabalho, numa espécie de feira de carros esportivos. Lá, ela e outras mulheres são pagas para esfregar os seios e a virilha nos vidros e capôs reluzentes dos veículos, num verdadeiro banquete erótico para o que se convencionou chamar de “hétero top”.

“A sensualidade aqui é uma armadilha, porque minha intenção foi justamente simular o olhar masculino que objetifica as mulheres para depois inverter a situação e termos a protagonista olhando o espectador diretamente pela câmera, reivindicando esse lugar de observador”, diz Ducournau, que acredita que quem viu misoginia na trama “entendeu tudo errado”.

“Eu tratei o corpo da Agathe da mesma forma que eu tratei o do Vincent [Lindon, protagonista masculino do filme], no sentido de que eu não tinha como objetivo sexualizar nenhum deles. Não há glamour neles, não há maquiagem. Meu retrato do corpo foi para mostrar o quão vulneráveis, o quão mortais eles são. As pessoas podem se lembrar do que quiserem de ‘Titane’ -eu sei o que há no meu filme.”

De fato, “Titane” nunca esconde a que veio e serve desde o princípio um coquetel de sangue, suor e outros fluidos corporais. Pouco depois do lap dance veicular, Alexia é perseguida ameaçadoramente por um macho babão, que a assedia depois de dizer que está apaixonado. A protagonista, então, enfia um palito metálico na cabeça do rapaz, que convulsiona até a morte.

Ela não se abala, nem com o perigo que correu nem com a morte que acabou de provocar. O que mais parece incomodar Alexia -que puxa friamente o palito da orelha do cadáver e o prende novamente num coque- é o vômito grudado em seu ombro.

A partir daí, a protagonista embarca numa onda de assassinatos inexplicáveis e grotescos, que não poupam a sensibilidade do espectador. Até que, procurada pela polícia, Alexia decide se passar por um garoto que está desaparecido há uma década, assumindo uma forma andrógina e indo morar com um trágico bombeiro que acredita ter reencontrado seu menino.

Mas há um porém -Alexia está grávida. E o pai é um carro. Isso mesmo, um carro com quem a protagonista “transou” momentos depois de seu primeiro assassinato. Na cena, seu corpo nu deixa o chuveiro e desfila, pingando, por um galpão. Ela encontra o carro de faróis acesos, numa demonstração de excitação, e se ajeita no banco traseiro. Enquanto o carro balança para cima e para baixo, ela se amarra aos cintos de segurança e é tomada por um orgasmo potente e libertador.

“A violência foi uma necessidade no meu filme, para que eu pudesse alcançar o arco transformativo que queria. Eu imaginei o final da trama, que para mim é um final de amor, e depois fui desenvolvendo as outras partes”, afirma Ducournau.

“Minha intenção era criar uma sinergia com o que o corpo dela sentia, sofria. Para chegar a isso eu tive que partir de um lugar onde não havia amor, com uma personagem desconectada de sua humanidade”, diz sobre Alexia, que sente uma estranha atração por carros e metais desde a infância.

Não é só o corpo da protagonista ou os de suas vítimas que são expostos com crueza. Enquanto ela precisa quebrar o nariz, raspar os cabelos e enrolar os seios em faixas para assumir o garoto desaparecido, o bombeiro de Lindon aplica diariamente esteroides em suas nádegas, roxas pelas pontadas constantes e dolorosas que recebem.

Está armado o “body horror”, que abriu “Titane” para interpretações queer e também para uma rejeição daquilo que é feminino como forma de sobreviver a uma sociedade fervorosamente patriarcal.

Não é exclusividade do filme de Ducournau, no entanto, essa ressignificação do que antes era motivo para misoginia. O empoderamento feminino -apesar de, no caso de “Titane”, ele ter sido questionado- acompanhou vários dos destaques cinematográficos de 2021, ano em que as mulheres venceram não só a Palma de Ouro em decisão histórica, mas também o Oscar -com Chloé Zhao e seu “Nomadland”- e o Leão de Ouro -Audrey Diwan, com “L’Événement”, que fala sobre aborto.

Em Berlim, “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental”, o vencedor do Urso de Ouro, não teve uma mulher na direção, mas acompanhou uma professora que vê sua carreira ameaçada quando um vídeo íntimo vaza. Ela então enfrenta seus detratores provando que sim, mulheres também sentem desejo e prazer.

Ainda nos festivais, o croata “Murina” acompanhou uma garota que desafia as opressões de seu pai; o brasileiro “Medusa” mostrou a rebeldia feminina diante dos silenciamentos vindos das instituições e da cultura à sua volta, e “A Filha Perdida” peitou a maternidade.

Questionada se existe hoje um movimento de emancipação feminina na indústria, Julia Ducournau não hesita. “Sim, podemos dizer que sim. Até porque não estamos falando apenas das histórias, mas de toda a equipe no entorno delas, que faz com que elas aconteçam”, diz a cineasta francesa.

“Não é recente que as mulheres estejam fazendo trabalhos avant-garde, isso existe há muito tempo, mas no passado a maioria desses trabalhos não era vista ou ouvida. Eles existiam, mas eram rejeitados por serem de mulheres. E talvez, talvez, nós estejamos agora num momento da história em que já não é mais possível dispensar esses trabalhos tão facilmente. Mas eu digo talvez porque sou muito cautelosa com essas coisas.”

Aos 38 anos, Ducournau sabe do significado que sua Palma de Ouro teve, principalmente por “Titane” ser o filme que é. Ela esperava ser considerada para um prêmio como esse aos 70 e poucos anos, brinca, e não tão cedo assim.

“Mas quando eu subi no palco em Cannes, eu me senti extremamente conectada a Jane Campion”, diz sobre a primeira cineasta a arrematar a Palma de Ouro, em 1993, e que pode vencer o Oscar neste ano. “Havia esse sentimento de que algo maior estava acontecendo, e eu pensei que se havia uma segunda mulher ganhando o prêmio, é porque haverá uma terceira. E eu acho que agora nós não teremos que esperar 28 anos para isso.”

TITANE

Quando Estreia nesta sexta (28), no Mubi
Elenco Agathe Rousselle, Vincent Lindon e Lais Salameh
Produção França/Bélgica, 2021
Direção Julia Ducournau

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Assuntos cinema, Filme, mubi, titane
Redação 26 de janeiro de 2022
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