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Política

Teoria da conspiração nos EUA, QAnon chega ao Brasil em livro

27 de agosto de 2020 Política
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Movimento QAnon surgiu nos EUA - Foto YouTube-Divulgação
Movimento QAnon surgiu nos EUA (Foto: YouTube/Divulgação)
Fábio Zanini, da Folhapress

SÃO PAULO – “Reinício! Este é plano do projeto QAnon. A atual estrutura de controle e poder será; destruída”.

Essa mensagem, que parece saída de um jogo de videogame, é na verdade de um e-book que acabou de ser lançado no Brasil, com o objetivo de atrair adeptos ao mais novo movimento da extrema direita a ser importado dos EUA.

O QAnon (pronuncia-se ‘quíanon’) surgiu em 2017, com todos os elementos de uma típica comunidade de amalucados discutindo teorias da conspiração. Tudo muito folclórico, até essa franja da direita americana começar a ganhar espaço nos debates políticos e a ocupar espaços eleitorais.

No início de agosto, pela primeira vez uma adepta do movimento conquistou o direito de se candidatar a uma cadeira na Câmara dos Deputados dos EUA. Marjorie Greene, do estado da Geórgia, tem grandes chances de ser eleita em novembro, concorrendo pelo Partido Republicano.

O próprio presidente Donald Trump foi perguntado por jornalistas na semana passada sobre o QAnon. Disse que tinha pouca informação sobre o movimento, mas se mostrou satisfeito com o fato de contar com a simpatia de seus membros.

Fica até difícil identificar uma ideologia propriamente dita no QAnon. É uma mistureba de teses bizarras que, grosso modo, denunciam uma certa “elite financeira mundial” por financiar de satanismo a pedofilia.

A salvação só virá após uma intensa mobilização conservadora que varrerá essa casta diabólica do mapa. Esse momento tem vários nomes: ‘Reset’ (reinício), ‘Grande Tempestade’, ou ‘Grande Despertar’.

Politicamente, os adeptos desse movimento são fortes apoiadores de Trump e de outros líderes globais da direita populista. No Brasil, isso se traduz na defesa de Jair Bolsonaro. Também há uma forte presença de um discurso cristão ultraconservador, que não poupa nem o papa Francisco.

O QAnon se baseia fortemente em símbolos, a começar pelo nome do movimento. A letra ‘Q’ se refere a uma suposta pessoa (alguns acreditam ser um grupo de pessoas) que teria uma posição importante na estrutura de governo americano e acesso a relatórios secretos do ‘Deep State’, o ‘Estado profundo’.

‘Anon’ é referência ao fato de que muitos dos seus seguidores imediatos são anônimos e decifram as denúncias postadas de forma cifrada por ‘Q’, que depois alimentam teorias conspiratórias.

A coisa toda surgiu pela primeira vez na plataforma 4Chan, um fórum virtual muito usado pela direita. Hoje, se espalhou por redes como Twitter, Telegram e YouTube.

No Brasil, o QAnon começou a adquirir alguma popularidade a partir do começo deste ano e ainda parece ser algo restrito. Não há parlamentares ou pessoas ligadas ao governo Bolsonaro que explicitamente assumam pertencer a ele, embora compartilhem algumas pautas, métodos e valores.

Tem sido cada vez mais comum, por exemplo, encontrar referências à ameaça representada por pedófilos em tuítes de expoentes do bolsonarismo.

Embora seja basicamente um movimento de redes sociais, referências isoladas à letra ‘Q’ já apareceram em algumas manifestações de apoiadores do presidente em Brasília e São Paulo.

Os mandachuvas da comunidade usam pseudônimos. O autor do e-book recém-lançado no Brasil, por exemplo, se apresenta como Witcher Frog (sapo feiticeiro).

O livro destinado ao público brasileiro, lançado em 17 de agosto, se chama ‘O Movimento QAnon – Introdução à História que Mudará o Mundo’. Tem 50 páginas e pode ser comprado na internet por R$ 5,90, no site de outro integrante da comunidade, chamado Paladin Rood.

“Fé, coragem e força movem o movimento Q. A última cruzada diante da perenidade de um mundo perdido e dominado pelas trevas. O movimento Q se tornou a nova religião do cristianismo e do conservadorismo unindo-os pelo sentimento e objetivo de vencer o mal e as injustiças”, diz um trecho do livro.

Na capa, há uma ilustração em que ‘Pepe The Frog’, personagem símbolo da direita radical americana, monta um cavalo enquanto o prédio do Congresso americano arde em chamas.

A lista de inimigos do movimento é grande. Como relata o livro, são “multibilionários globalistas, ditadores sanguinários, políticos corruptos, a grande mídia, bigtechs do Vale do Silício, os maiores bancos do mundo, a bigpharma (farmacêuticas), organizações criminosas, organizações terroristas, grandes narcotraficantes, organizações de tráfico humano, redes de pedofilia, militares traidores de alta patente, agência de inteligência nacionais e internacionais”.

Também sobra para a maçonaria, para os defensores das estratégias de isolamento social contra a pandemia e para a China. Bill e Hillary Clinton estão entre os alvos prediletos.

Segundo o livro, a Fundação Clinton “é uma das principais responsáveis pelo tráfico de crianças em todo o mundo”. Hillary é descrita como uma satanista cujo objetivo é destruir a família.

Mas há teorias para todos os gostos, desde as recicladas, como a de que o ex-presidente George Bush simulou os ataques de 11 de setembro de 2001, até novidades, como a de que John Kennedy Jr., filho do ex-presidente JFK, não morreu num acidente aéreo em 1999 e vai ressurgir como um apoiador de Trump.

Um dos aspectos mais pitorescos é o uso de símbolos, mapas e números que seriam indicados por ‘Q’ e decodificados por seus seguidores mundo afora. No Brasil, um dos principais ‘tradutores’ é o perfil Dom Esdras (outro pseudônimo), que tem 73 mil seguidores no Twitter.

Um dos raros adeptos do QAnon brasileiro que não usa pseudônimo é o professor aposentado Stuart Linhares, 55, morador de Florianópolis (SC). Apoiador de Bolsonaro, ele disse, por telefone, que começou a ter contato com o movimento no começo do ano, buscando na internet.

“Fui pesquisando sites e vídeos, vi assuntos de cair o queixo, como uma rede de pedofilia internacional da elite financeira mundial. Comentei com outro amigo meu, que me mandou um link no Twitter, me deu uns negócios para eu seguir, pesquisar. E comecei a acessar um, outro e cheguei no QAnon”, afirmou.

Para Linhares, seria exagero dizer que o QAnon no Brasil é um movimento. “Movimento é uma coisa organizada, que traça estratégias. Por enquanto são pessoas que estão se informando, trocando ideias”, diz ele, que estima ter cerca de 80 pessoas com as quais interage.

O contato com outros membros dessa comunidade, afirma ele, se dá puramente por meio de redes sociais. Ele contribuiu com R$ 40 para uma vaquinha online que viabilizou a publicação do e-book, mas diz desconhecer a identidade real do autor.

De acordo com Linhares, as informações relatadas pelo QAnon são em geral embasadas em fontes confiáveis. “Não tem sensacionalismo. Tem coisa que não é verdade, que é fruto de entusiasmo de alguns. Mas algumas coisas têm fundo de verdade, sim, e merecem ser investigadas, apuradas”, afirma.

“Travamos uma luta contra uma elite que manda e não aparece. Antigamente eles passavam incólumes”, diz Linhares. “Nos EUA, o QAnon são pessoas de alto nível, altamente instruídas, que mostram o que está acontecendo por baixo dos panos. São militares de alta patente, políticos, patriotas, que querem defender o país”.

No repertório do movimento, a pedofilia tem lugar especial. É como se fosse a mãe de todas as teses conspiratórias, diz o professor Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Observatório da Extrema Direita. “É um tema que tem grande apelo na sociedade, e não apenas para os setores conservadores. E é também muito forte para deslegitimar inimigos políticos”, afirma Caldeira Neto.

Embora sem usar o rótulo QAnon, traços dessa estratégia de mobilização vêm sendo usadas por diversos bolsonaristas, como se viu recentemente na campanha de difamação contra o youtuber Felipe Neto. Também foram alvos o MBL (Movimento Brasil Livre) e ministros de cortes superioras.

Segundo Caldeira Neto, o QAnon é mais um exemplo da tentativa da direita brasileira de emular novos produtos que surgem nos EUA. Um exemplo anterior foi a estética ‘vaporwave’, que combina referências estéticas dos anos 80 e 90 a uma linguagem de videogame.

“É novamente o rito de tentar reproduzir as expressões da direita radical americana no Brasil. Não dá para dizer ainda o que essa vai virar, mas mostra uma capacidade de interlocução com setores cristãos, na pauta de costumes”, afirma.

Nos EUA, diz Caldeira Neto, o QAnon já está um passo à frente e diversificou a pauta da pedofilia para outros temas, como a ameaça da China, a ‘farsa’ do coronavírus ou os interesses por trás da implantação da tecnologia 5G. “Tudo isso entra como uma denúncia do suposto Deep State (Estado profundo), que teria vários braços, seria um polvo com vários tentáculos”, afirma.

A força mobilizadora do QAnon já se manifesta na campanha americana em prol de Trump, com ataques frequentes a supostas relações do Partido Democrata com pedófilos. No Brasil, é improvável que essa comunidade tenha peso decisivo -ao menos por enquanto.

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Assuntos QAnon, teoria da conspiração
Cleber Oliveira 27 de agosto de 2020
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