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Economia

Tecnologia avança no agronegócio e gera mercado em inovação no Brasil

4 de fevereiro de 2021 Economia
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Agronegócio
Colheitadeiras: mecanização permite maior produção em menor área de plantio (Foto: Agência Brasil)
Por Beatriz Montesanti, da Folhapress

SÃO PAULO – Tecnologias desenvolvidas para o campo estão transformando o agronegócio e têm sido vistas por empreendedores e investidores como o potencial brasileiro em inovação.

O avanço da digitalização permeia todas as etapas da cadeia produtiva, da facilitação de crédito para o agricultor ao acompanhamento remoto de lavouras, passando pelo uso de inteligência artificial para a distribuição de alimentos.

O entusiasmo com o setor se reflete nos investimentos feitos nos últimos tempos nas chamadas agtechs, como são chamadas as startups dedicadas a desenvolver inovação para a lavoura. Foram US$ 70 milhões investidos no ano passado em venture capital, de acordo com a Distrito Dataminer.

Para Bruno Profeta, responsável pelos investimentos no setor na KPTL –hoje são nove agtechs no portfólio da gestora –, o Brasil vive um momento de inflexão, em que o potencial agropecuário é pressionado pelo aumento da demanda por alimentos, forçando o processo de digitalização.

“É uma tempestade perfeita de elementos que criam um ambiente propício para o surgimento das startups: mercado ultrarrelevante, histórico grande, capacidade de produção de conhecimento específico, e agora temos as ferramentas computacionais que podem ser aplicadas à realidade do campo. É o que aconteceu na indústria há 20 anos, o princípio é o mesmo, uma revolução de informações”.

Ele também acrescenta a preocupação crescente na sociedade por uma agricultura sustentável. “Fortalecem algumas pautas, como rastreabilidade da cadeia. O consumidor quer ter a informação de como o alimento foi produzido, forçando a necessidade do setor de incorporar soluções”.

No início do ano, a gestora fez um aporte de R$ 3 milhões na Ecotrace, startup de rastreabilidade de carne bovina, aves e algodão, que atende gigantes do mercado, como a JBS, a Minerva e a Frigo. O sistema, que usa tecnologia blockchain, permite maior transparência ao processo produtivo. “Há seis anos esse tipo de tecnologia não estava maduro, mas hoje eu consigo permitir que o produtor assista ao abate online, por exemplo”, diz Flavio Redi, presidente-executivo da empresa.

Outra gestora a se voltar para o setor é a SP Ventures, que surgiu para espelhar o que era então feito no Vale do Silício e acabou se especializando inteiramente no que considera a vocação nacional.

Em novembro, a SP Ventures fechou um fundo com investimentos da Mosaic, Adisseo e Carl Deane que supera R$ 30 milhões. O objetivo é fazer aportes em startups de agricultura e alimentos na América Latina, que cumpram com os critérios de ESG, sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança.

“Somos potência nas principais commodities agrícolas, e a demanda por alimentos vai aumentar muito com o crescimento populacional. O Brasil abocanha boa parte dessa grande demanda, mas precisamos mudar nossa produção, prepará-la para as mudanças climáticas”, diz o sócio-fundador Francisco Jardim.

Em seu portfólio está a Bart Digital, uma plataforma que oferece soluções digitais para o financiamento agrícola. “O motivo para eu atuar no agro foi o tamanho do mercado e a carência de soluções. Há muitos problemas para serem endereçados e, por isso, muitas oportunidades de ação”, diz Mariana Bonora, presidente-executiva da empresa.

“Eu era advogada e trabalhava com operações de crédito agrícola, mas me incomodava muito com a burocracia, a dificuldade em coletar informações. Quando decidi empreender, comecei a trabalhar como a tecnologia poderia ajudar no processo de financiamento mais rápido”, diz.

A ferramenta viabiliza, por exemplo, a emissão e registros de recebíveis de forma eletrônica, o que permitiu que insumos chegassem ao campo durante a pandemia quando cartórios pararam as atividades.

“A pandemia impulsionou a digitalização de todos os setores, e no agro não foi diferente. O produtor rural não estava acostumado a assinar digitalmente, nem as empresas. Tivemos que fazer também um trabalho de adaptação cultural, de explicar que esse tipo de operação é seguro”, afirma.

Outra empresa que também usa a tecnologia para facilitar o crédito rural é a Agronow. A startup faz monitoramento de safras agrícolas a partir de imagens de satélite. São dados como talhões com safras plantadas ou o nível de umidade do solo e que podem ser usados para a análise de concessão de empréstimo.

“Há uma revolução tecnológica no campo que está mudando profundamente o mercado de crédito. Coletamos uma quantidade massiva de dados e disponibilizamos informações mais precisas e seguras. É um risco menor para quem empresta, juros mais baixos para o produtor e, no fim da cadeia, eventualmente, custo mais baixo ao consumidor”, diz Rafael Coelho, presidente-executivo da Agronow.

Recentemente, a empresa recebeu um aporte de R$ 4 milhões encabeçado pela ACE e o BTG Pactual. Mas, enquanto startups são identificáveis por serem negócios com potencial de rápido crescimento, inovação agrícola não funciona no mesmo ritmo. Investidores e empreendedores citam como uma peculiaridade do setor a necessidade de paciência.

“O ciclo de desenvolvimento de escala é mais lento, porque há janelas de plantio, colheita, você não vende o ano todo. O processo de sazonalidade reduz o ritmo de crescimento da empresa”, afirma Jardim, da SP Ventures.

Outro problema, uma constante entre empresas de inovação no Brasil, é a falta de recursos disponíveis. “Está melhor, mas ainda temos a escassez de investimento que faz a gente ficar atrás dos EUA, por exemplo, onde as startups têm disponibilidade de recurso maior para ter uma estratégia mais específica desde o início. Nosso fôlego é menor para ousar e testar novas hipóteses”, diz Bomura.

Vice-presidente de vendas e novos negócios da israelense Agritask, Amir Szuster também destaca a importância da conectividade. “Startups dependem de internet no campo para soluções eficientes. O desafio do Brasil é fazer a inclusão dos produtores pequenos e médios nessa onda de inovação. E esse é um tema que deve envolver também universidades e governo”.

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Assuntos agronegócio, inovação tecnológica
Cleber Oliveira 4 de fevereiro de 2021
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