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Variedades

Tarsila do Amaral, além de pintora, deixou uma música inédita

1 de fevereiro de 2022 Variedades
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Tela ‘A caipirinha’ (1923), de Tarsila do Amaral: mestre da pintura (Foto: Ding Musa /Divulgação)
Por Lucas Fróes, da Folhapress

SALVADOR – Autora de algumas das obras mais conhecidas e importantes do movimento modernista, como as telas “Abaporu” e “Operários”, a pintora Tarsila do Amaral foi também compositora de uma música ainda inédita.

“Rondo d’Amour” é uma canção em lá menor para voz e piano. A obra era desconhecida até novembro do ano passado, quando a partitura manuscrita por Tarsila foi achada em Campinas, no interior paulista, na casa da sobrinha-neta da artista, Maria Clara do Amaral. A partitura chamou a atenção do pianista Durval Cesetti, que visitava a família.

“Eu acho que teve um momento em que ela teve dúvida para onde iria seguir, se era para a música ou para a pintura”, diz Tarsilinha do Amaral, também sobrinha-neta da pintora. A família de Tarsila atestou a autenticidade da autoria da obra pela caligrafia da artista, que deixou sua assinatura na partitura.

Com Durval Cesetti ao piano, e as vozes da soprano Elke Riedel e do tenor Kaio Morais, “Rondo d’Amour” foi gravada no último dia 25 de janeiro, no auditório da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde os três são professores.

“Eu fiquei bem impressionado com a qualidade, parece Fauré”, diz Cesetti, comparando Tarsila ao pianista francês Gabriel Fauré.

“Começa como se fosse algo mais simples, apenas com tônica e dominante, mas logo tem algumas sofisticações harmônicas bem interessantes”, afirma.

A ligação de Cesetti com a família de Tarsila do Amaral começou por sua colaboração com o Instituto Piano Brasileiro, que o levou a gravar obras da pianista Lydia Dias do Amaral, mãe de Tarsila. No final do ano passado, ele foi convidado para um sarau na fazenda da família, em Mombuca, no interior de São Paulo, para a comemoração dos 91 anos de Guilherme do Amaral, sobrinho de Tarsila.

No sarau, Cesetti tocou no piano que pertenceu à pintora e que fora escolhido para ela pelo pianista Sousa Lima. No repertório, 16 músicas de Lydia Dias do Amaral, algumas já gravadas por ele, como “Liberdade”, uma homenagem à abolição da escravidão no Brasil, em 1888.

Em breve, Cesetti gravará mais obras de Lydia, entre elas “Tarsila”, música que a mãe fez para a filha. Guilherme do Amaral era o último membro da família que chegou a ver a avó Lydia tocando piano. “Foi a maior homenagem que a gente poderia fazer para ele”, conta Tarsilinha sobre o pai, que morreu em janeiro.

“Lydia tem obras belíssimas, muito interessantes”, diz Cesetti, que as diferencia do estilo da única música de Tarsila encontrada até hoje. Só na sua “Rondo d’Amour” é que há letra, em francês, língua em que foi primeiro alfabetizada.

Devido ao estado da partitura, Cesetti precisou da ajuda de uma amiga diplomata, que trabalha na embaixada do Brasil em Paris, para decifrar trechos da letra. “Geralmente, alguém comporia uma canção sobre um poema já existente”, diz Cesetti, que fez uma busca na internet e não achou resultados para aqueles versos, o que reforça que Tarsila é também autora da letra.

Tarsilinha supõe que “Rondo d’Amour” foi composta entre 1913 e 1920, antes da ida da tia-avó a Paris. Ela voltou ao Brasil em 1922, depois da Semana de Arte Moderna, de que tomou conhecimento através das cartas trocadas com a pintora Anita Malfatti, sua amiga. As duas formaram o Grupo dos Cinco, ao lado de Oswald de Andrade –com quem Tarsila foi casada–, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade.

Foi por estímulo de Sousa Lima, seu professor de piano, que Tarsila foi a Paris para completar os estudos em pintura. Quando lá chegou, os dois deram um corajoso passeio em volta da torre Eiffel num avião da Primeira Guerra Mundial.

Em outra estada em Paris, Tarsila roubou a cena num jantar em homenagem a Santos Dumont, com uma personificação de “Autorretrato”, sua própria obra. “Ela chegou um pouco atrasada, com aquele manteau vermelho, com aquele visual, cabelo puxado para trás, batom vermelho. A festa parou para verem minha tia”, conta Tarsilinha.

“Eu lembro de uma bonbonnière de cristal cheia de bombons Sonho de Valsa, que eu adorava. Eu saía do quarto [de Tarsila] comendo bombons e vendo no corredor aquelas obras dela, aquele manto de veludo que é o autorretrato dela, passava pela sala e via aquele baita piano lindo”, diz Maria Clara, falando sobre as recordações que tem da tia-avó.

No último terço de sua vida, Tarsila do Amaral passou por uma série de tragédias pessoais. Primeiro, perdeu a única neta, Beatriz, que se afogou com uma amiga que tentava salvar. Depois, por um erro médico, ficou paraplégica. Por fim, perdeu a filha única, Dulce, vítima de diabetes.

“Admirável Tarsila, que, entre seus possíveis sofrimentos e suas lutas, tem sempre a generosidade de nos dar uma pintura feliz, gostosa e boa”, escreveu o amigo Mário de Andrade, antes mesmo dessas tragédias acontecerem.

Quase 50 anos depois da sua morte, e mais de cem depois de compor “Rondo d’Amour”, Tarsila do Amaral generosamente nos presenteia. Dessa vez com uma música.

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Assuntos Tarsila do Amaral
Murilo Rodrigues 1 de fevereiro de 2022
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