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Esporte

Superliga é ápice da revolução dos bilionários estrangeiros no futebol

20 de abril de 2021 Esporte
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Estádio Santiago Bernabéu será palco da decisão da Copa Libertadores (Foto: Divulgação)
Estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid: clube quer participar da Superliga (Foto: Divulgação)
Por Alex Sabino, da Folhapress

SÃO PAULO – Em entrevista ao site The Athletic publicada no final de março, o agente italiano Mino Raiola defendeu a ideia de que a Fifa deveria ser “desmantelada” e substituída por uma “plataforma”.

“Eu acho que a Fifa não deveria existir”, afirmou o empresário de Erling Haaland, Paul Pogba, Zlatan Ibrahimovic e outros dos mais badalados nomes do futebol mundial.

Dezenove dias depois da veiculação de suas declarações, 12 dos clubes mais ricos do planeta dispararam contra a Uefa e anunciaram a criação de uma Superliga europeia. Recebida com protestos e acusações de ganância por boa parte da comunidade do futebol, o projeto começaria na próxima temporada, em agosto.

“É um assunto muito complexo. Não vejo outra solução que não seja um alinhamento (entre os times rebeldes e a Uefa). Fala-se em sanções, como expulsão dos clubes da Superliga e de jogadores, mas são punições muito difíceis de serem implementadas. Muita coisa vai acontecer ainda. Há muitas variáveis em jogo”, afirma o advogado Marcos Motta, especialista em direito esportivo internacional e que tem Neymar entre seus clientes.

Segundo a imprensa inglesa, dirigentes dos seis times do país envolvidos (Arsenal. Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham Hotspur) já estão em negociações para fechar contratos de transmissão. O valor poderia chegar a 4 bilhões de euros (R$ 26,7 bilhões).

Não seria a primeira revolução no futebol provocada pelo dinheiro. A Champions League, torneio diretamente ameaçado pela Superliga, já passou por isso. Criada em 1955 como Copa da Europa, enfrentou oposição de associações nacionais. A Federação Inglesa impediu o Chelsea de participar da edição inaugural. Em 1992, a competição mudou de nome, abarcou mais times (antes apenas os campeões nacionais participavam) e se tornou o torneio de clubes mais rico do planeta.

O Bayern de Munique embolsou 130 milhões de euros (R$ 868 milhões pela cotação atual) na campanha do título do ano passado.
No mesmo ano da criação da nova Champions nasceu a Premier League, para substituir a antiga Division One, na Inglaterra. A liga nacional de futebol que mais fatura no planeta em contratos de TV (5 bilhões de libras ou R$ 38,8 bilhões apenas pelo acordo para mostrar partidas no Reino Unido) mudou a maneira de se transmitir os jogos e virou exemplo para outros países.

Mas seu surgimento também teve enorme oposição de torcedores e políticos na época. Ironicamente, mais tarde criou um sistema que passou a ser combatido pelos mais ricos e os uniu em um grupo que foi a semente da nova Superliga. A Premier League foi criada pela regra de que o dinheiro da TV tem de ser dividido em partes iguais entre todos os participantes. Com o passar do tempo, isso mudou.

Na última temporada, cada clube recebeu exatamente a mesma quantia (cerca de R$ 217 milhões) do valor global pelos direitos no Reino Unido. Um valor extra foi pago de acordo com o número de partidas mostradas. Os contratos internacionais renderam R$ 293,8 milhões em valores atuais por equipe.

Ferran Soriano, diretor executivo do Manchester City, nunca se conformou com a divisão do dinheiro desde que chegou ao clube, em 2012. O espanhol pleiteava um sistema mais parecido com o espanhol, em que Barcelona e Real Madrid (dois dos representantes do país na Superliga, ao lado do Atlético de Madrid) embolsam mais do que os outros. O novo torneio continental deverá seguir esse raciocínio.

Além dos ingleses e espanhóis, os italianos Juventus, Milan e Internazionale também estão envolvidos.

A reação ao anúncio foi gigantesca entre dirigentes de outras equipes, treinadores, torcedores e até jogadores. Bruno Fernandes, português do Manchester United, e Ander Herrera, espanhol do PSG, clube que até o momento recusou a oferta da Superliga, se manifestaram contra.

Após partida desta segunda, 19, entre Leeds United e Liverpool, Patrick Bamford (do Leeds) e James Milner (Liverpool) fizeram o mesmo.

“Os clubes deveriam ser expulsos da Champions League e espero que isso aconteça na sexta-feira, 23. Então vamos ver como o torneio vai terminar”, disse Jesper Moller, integrante do comitê executivo da Uefa. Entre os quatro semifinalistas do torneio, apenas o PSG não faz parte da Superliga.

O presidente da entidade europeia, Aleksander Ceferin, disse que os atletas das equipes poderiam ser proibidos de jogar a Eurocopa e a Copa do Mundo e comparou os dirigentes dos times envolvidos a serpentes.

“É inviável justificar a expulsão dos clubes da Champions por um motivo muito concreto. A Superliga não existe. Ela existe como ideia que eles querem colocar em prática. Existe um projeto. Seria uma medida altamente ilegal”, afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em direito desportivo.

Ele e Motta lembram que a ideia da Superliga existe há mais de dez anos, mas os clubes sempre tiveram medo de punições. Desta vez há uma diferença: os donos. À exceção de veteranos como Joan Laporta (novo presidente do Barcelona), Florentino Pérez (presidente do Real Madrid e da Superliga) e da família Agnelli na Juventus, a cartolagem da Superliga é composta por pessoas sem ligação antiga com o futebol.

Dos 12 participantes, apenas Barcelona e Real Madrid não são uma propriedade privada. Além deles, Juventus e Tottenham (controlado por ingleses) não têm participação estrangeira na sociedade.

Arsenal, Manchester United, Liverpool e Milan estão nas mãos de famílias ou investidores americanos. O Manchester City é de uma empresa subsidiária do conglomerado controlado pela realeza dos Emirados Árabes. O Chelsea foi vendido no início do século a um magnata russo.

A Internazionale é mantida com dinheiro chinês, e o Atlético de Madrid possui um israelense como acionista minoritário.
Há o componente de cultura dos esportes americanos por trás da ideia de times permanentes, sem rebaixamentos ou acessos, como pretende a Superliga.

Stan Kroenke, dono do Arsenal, também tem equipes de futebol americano (Los Angeles Rams), basquete (Denver Nuggets) e hóquei (Colorado Avalanche). A famíia Glazer, controladora do Manchester United e originária do mercado de shopping centers, possui o Tampa Bay Buccaneers, da NFL. O Fenway Sports Group é dono do Liverpool e do Boston Red Sox, da liga de beisebol dos EUA.

O City Football Group possui outras seis equipes ao redor do mundo: New York City (EUA), Melbourne CIty (AUS), Yokohama Marinos (JAP), Club Atletico Torque (URU), Girona (ESP) e Sichuan Jiuniu (CHN).

Alguns deles causam polêmicas em atividades fora do futebol. A família real dos Emirados Árabes e, por consequência, o país, não são signatários da maioria dos tratados de direitos humanos. As liberdades de expressão e de imprensa são restritas. Roman Abramovich, dono do Chelsea, tem ligações com o presidente russo Vladimir Putin e é acusado de ter aproveitado para comprar companhias estatais quando a União Soviética foi desmantelada, a preços abaixo do mercado.

O Milan pertence ao fundo de investimento americano Elliott Management. Um dos seus CEOs, Paul Singer, tem histórico de se aproveitar de países em moratória com o FMI (Fundo Monetário Internacional), adquirir títulos do governo por centavos e depois processá-los para receber o valor de mercado.

Singer processou a Argentina por US$ 2 bilhões e venceu nas cortes americanas e do Reino Unido. Com os papéis do tesouro peruano, teve lucro de 400% utilizando o mesmo expediente.

Eles chegaram aos poucos, comemoram títulos e agora podem ser responsáveis por uma revolução diferente das anteriores no futebol. Uma mudança que pode ter efeito proporcional, para os clubes, ao que a Lei Bosman provocou para os atletas.

Em 1995, o belga Jean Marc Bosman ganhou um processo na Corte Europeia de Justiça e acabou com os direitos das equipes segurarem os registros de jogadores sem contrato. A mudança multiplicou o valor das transferências e provocou disparada nos salários.

“O caso Bosman deu liberdade contratual aos atletas. Agora se trata do caso Bosman para os clubes e pode desencadear um efeito bola de neve nos demais continentes. Pode chegar à Ásia, ao continente americano e a todos os outros”, projeta Carlezzo.

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Assuntos Fifa, futebol estrangeiro, futebol europeu, Superliga europeia, UEFA
Redação 20 de abril de 2021
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