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Economia

Setor de serviços sofre na Bolsa por descontos ao consumidor no coronavírus

30 de março de 2020 Economia
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Alta do dólar em 9 de março de 2020
Os impactos do coronavírus na economia brasileira se refletem na bolsa de valores (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)
Por Júlia Moura, da Folhapress

SÃO PAULO – Nas últimas semanas, o setor de serviços tem sido um dos mais prejudicados na Bolsa brasileira. Enquanto o Ibovespa iniciou uma recuperação das fortes quedas em março, empresas de energia, saneamento e telefonia acumulam desvalorização expressivas. A Sabesp, por exemplo, recuou cerca de 20% nas duas últimas semanas, quase o dobro do Ibovespa, que caiu 11%.

Segundo analistas, o movimento reflete a isenção e concessão de descontos nas cobranças desses serviços e a queda no consumo, pela indústria, durante a crise do coronavírus.

“É uma combinação de preocupação e risco generalizado. Investidores não sabem para quem vai ficar a conta desses benefícios”, diz Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital.

No dia 19, devido à pandemia, o governador João Doria (PSDB) isentou da cobrança da conta de água para famílias pobres no estado de São Paulo. Um total de 506 mil serão beneficiados de abril a junho.

Medidas semelhantes foram anunciadas em diversos estados, incluindo contas de luz e gás.
“É um impacto direto na geração de caixa desses setores e não sabemos por quanto tempo. E, em um momento de incerteza, o mercado exagera as reações, assemelhando isso de forma mais agressiva do que deveria”, diz Giacomo Diniz, professor do Ibmec.

Na terça (24), após pedido de Doria para que a população de baixa renda seja isenta de pagamento da conta de luz, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciou a suspensão por 90 dias a possibilidade de cortes no fornecimento de energia elétrica em caso de inadimplência do consumidor. Segundo a agência, a resolução poderá ser estendida.

A medida vale para distribuidoras de eletricidade de todo o país, de modo a beneficiar residências urbanas e rurais, unidades de saúde e de segurança pública, instalações de telecomunicações, e centros de produção de vacinas, soros e combustíveis, entre outros.

Como o consumo residencial responde por 47% do faturamento das distribuidoras, a Aneel pediu que os consumidores que têm condições mantenham os pagamentos.

“Ainda não está claro como as elétricas vão ser compensadas por essas medidas. Independente de quanto tempo e quão severa seja a recessão, elas certamente vão precisar de mais capital de giro, porque vão ter aumento de inadimplência e queda do consumo”, diz Thomaz Fortes, gestor de fundos da Warren.

Além disso, as distribuidoras podem ter que arcar com excedentes contratuais, situação semelhante à que culminou com empréstimo bilionário cobrado na conta de luz entre 2014 e 2019.

Isso porque as distribuidoras têm contratos bilaterais de suprimento ou compram energia também em leilões do governo, em contratos de longo prazo com base em projeções futuras de demanda. Caso não consigam vender toda a energia contratada e não houver demanda pelas sobras no mercado livre, arcam com o prejuízo.

Segundo a agência de notícias Reuters, a distribuidora Cemig a e comercializadora Voltener, da Votorantim, anunciaram que podem declarar força maior em contratos. Essa cláusula permite que as empresas reduzam suas compras em casos de eventos fora do controle.

Desde que o coronavírus começou a impactar as Bolsas globais, a Cemig já se desvalorizou cerca de 40%. Só em março, a queda é de 34%.

A queda do setor de serviço não foi brusca no início da crise porque muitos investidores optaram por esses papéis de modo a proteger a carteira. Geralmente, essas companhias têm receitas fixas, sem grandes gastos, gerando expressivos dividendos ao acionista.

“Quando você investe nessas empresas, você busca estabilidade no fluxo de caixa, porque são serviços básicos. E elas boas pagadoras de dividendos, já nível de investimento é baixo. Mas, nesta crise, nem esses setores vão ser poupados” afirma Diniz, do Ibmec.

Fortes, da Warren, aponta que as geradoras também se desvalorizam “por tabela”, com receio de investidores que as distribuidoras solicitem redução de contratos.

“Transmissoras continuam boas para se investir, porque elas têm receita fixa corrigida pela inflação. Elas são mais seguras pois têm mais condição de atravessar o momento de crise”, afirma o gestor.

As companhias de telefonia também são penalizadas por investidores. Por determinação da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), provedores de internet vão ter que flexibilizar os prazos de pagamento para consumidores inadimplentes em áreas do país tenham restrições de deslocamentos devido ao coronavírus.

A agência também determinou, no dia 15, a ampliação de acesso a não assinantes, com liberação de redes wi-fi em alguns locais públicos, e aumento da velocidade de conexão nos acessos fixos à banda larga. Também serão necessárias campanhas publicitárias e plano de ação para garantir estabilidade técnica do sistema neste momento de aumento do consumo de internet.

Além disso, a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) aprovou, no dia 18, um projeto que obriga as operadoras a fornecerem gratuitamente acesso a aplicativos, sites e serviços de streaming enquanto durar o estado de calamidade.

Desde então, a Vivo perdeu cerca de R$ 9 bilhões em valor de marcado. Agora, a empresa vale R$ 81,8 bilhões, o menor patamar desde maio de 2019.

Para se proteger, as operadoras pediram ao Ministério da Economia a postergação até dezembro deste ano do pagamento de taxas e contribuições federais e das outorgas de telefonia. No total, são R$ 4,7 bilhões que vencem neste mês. Com esse dinheiro, elas pretendem aumentar a capacidade das redes para evitar um apagão.

Muitas empresas também ofertaram bônus de internet para os clientes, sem custo adicional. todas essas medidas elevam os gastos da companhia e reduzem suas receitas e, consequentemente, o seu lucro.

“O mercado vive uma combinação de preocupação e risco generalizado. Investidores não sabem para quem vai ficar a conta desses benefícios e até as classes mais altas têm risco de inadimplência”, diz Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital.

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Assuntos Bolsa de Valores, Bovespa, Covid-19, pandemia de coronavírus, setor elétrico
Valmir Lima 30 de março de 2020
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