
Do ATUAL*
MANAUS – Monitoramento do Observatório BR-319 mostra que seis municípios no sul da rodovia – Canutama, Humaitá, Lábrea, Manicoré, Tapauá e Porto Velho (RO) – próximos à fronteira agrícola da Amazônia, foram responsáveis por 94% de todo o desmatamento detectado nos 13 municípios da BR-319 entre o Amazonas e Rondônia, somando 159.659 hectares.
O resultado foi divulgado nesta terça-feira (28) e consta na publicação Retrospectiva 2022: desmatamento e focos de calor na área de influência da rodovia BR-319.
Os cinco municípios da BR-319 com mais focos de calor em 2022 foram: Porto Velho (RO), Lábrea, Manicoré, Humaitá e Canutama que, juntos, somaram 89% do total detectado ou 12.553 focos de calor. Além disso, seis municípios bateram recorde de desmatamento da série histórica (de 2010 a 2022) ano passado: Beruri, Borba, Canutama, Lábrea, Manicoré e Tapauá.
O pior mês de desmatamento na BR-319 foi maio, quando oito municípios (Beruri, Borba, Canutama, Humaitá, Lábrea, Manicoré, Porto Velho e Tapauá) acumularam recordes para o período. Em se tratando de incêndios, setembro foi o mês mais crítico com recordes em nove municípios (Autazes, Beruri, Borba, Canutama, Humaitá, Lábrea, Manaus, Porto Velho e Tapauá).
A situação na BR-319 é parte da tendência registrada no Amazonas, estado da Amazônia Legal que apresentou o maior aumento de desmatamento em relação a 2021, com 24%, e, novamente, foi o segundo mais desmatado da região, ficando atrás apenas do Pará. A Amazônia Legal também registrou, pela quinta vez consecutiva, o ano de maior desmatamento. A exceção foi Rondônia, que teve redução de 7% no desmatamento em comparação a 2021.
“Os sucessivos recordes de desmatamento e focos de calor registrados nos últimos quatro anos na BR-319 são efeito do desmonte da política ambiental no Brasil e da desmobilização de órgãos de comando e controle”, diz Paula Guarido, responsável pela análise de dados da publicação.
“A soma do incentivo a atividades ilegais, como desmatamento, garimpo e grilagem, a não destinação de terras públicas e a falta de fiscalização por parte das esferas federal e estadual, nos trouxe a esse cenário”, disse Guarido.
A retrospectiva é resultado dos monitoramentos mensais produzidos pelo OBR-319 e publicados no informativo e no site da rede. Além disso, são produzidos estudos técnicos que indicam situações críticas e soluções, com o avanço de ramais no sul da rodovia.
Desmatamento e focos de calor

Canutama, Humaitá, Lábrea, Manicoré e Porto Velho integraram a lista dos dez municípios da Amazônia Legal mais desmatados do mês ao longo de 2022. Essa lista leva em consideração os 772 municípios dos nove estados da Amazônia Legal.
Lábrea, que foi o município da BR-319 que apresentou o maior desmatamento ao longo de 2022, com 55.332,93 hectares, também integrou a lista em todos os meses do ano, exceto em dezembro.
Três municípios da BR-319 apareceram no ranking mensal dos dez com mais focos de calor da Amazônia Legal ao longo de 2022. Porto Velho em julho, agosto, setembro e novembro; Lábrea em agosto e setembro; e Manicoré em julho.
Unidades de Conservação
A análise do OBR-319 aponta que 25 das 42 Unidades de Conservação (UCs) monitoradas pela rede apresentaram desmatamento em 2022, ou seja, 60%.
As mais desmatadas foram: a Reserva Extrativista Jaci-Paraná, com 4.254 ha; a Floresta Estadual Tapauá, com 1.830 ha; e o Parque Nacional Mapinguari, com 1.176 ha de perda florestal. O dado mais alarmante veio da Floresta Estadual Tapauá, que apresentou aumento de 891% em relação a 2021. As três figuraram entre as dez mais desmatadas da Amazônia Legal ao longo de 2022.
“Observamos nos últimos anos uma forte pressão sobre as Áreas Protegidas localizadas na área de influência da rodovia. Além de todos os danos ambientais, os danos sociais e econômicos precisam de atenção especial, já que os impactos comprometem o desenvolvimento da sociobieconomia e a manutenção dos importantes serviços ambientais providos por esta imensa região”, alertou Fernanda Meirelles, secretária executiva do OBR-319.
Mesmo assim, houve uma redução no desmatamento nas UCs monitoradas pelo OBR-319. Segundo o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), foram desmatados 8.225 ha dentro destas áreas em 2022, o que representa uma queda de 30% em comparação aos números registrados em 2021.
Vinte e nove das 42 Unidades de Conservação monitoradas apresentaram focos de calor em 2022. De longe, a UC com maior número de focos no ano foi a Jaci-Paraná, com 1.042 registros, seguida pelo Parna dos Campos Amazônicos, com 100 focos, e pelo Parna Mapinguari, que teve 87 focos.
No total, 1.583 focos foram detectados nas UCs monitoradas, um aumento de 35% em comparação a 2021, que apresentou 1.169 focos. Esse foi o maior número de focos de calor registrados nas UCs sob influência da rodovia BR-319 desde 2010.
Já em relação às terras indígenas, foram registrados 3.678 ha desmatados nas 69 TIs monitoradas pelo OBR-319, o que representa um aumento de 24% em relação a 2021 e o maior valor de desmatamento da série histórica.
Vinte e nove apresentaram desmatamento em 2022, ou seja, 42%. A mais desmatada foi a TI Karipuna, com 1.733 ha, seguida pela TI Sepoti, com 482 ha, e pela Tenharim-Marmelos, com 429 ha. As três, mais as TIs Sissaíma, Jauary, Murutinga-Tracajá e Boca do Acre apareceram no ranking das dez mais desmatadas da Amazônia Legal ao longo de 2022.
A TI Jacareúba-Katawixi, que teve sua Portaria de Restrição de Uso renovada recentemente, após um ano sem proteção, foi a 12ª mais desmatada no ranking das TIs monitoradas pelo OBR-319, com perda 50 ha. Esse valor representa um aumento de 77% em relação a 2021.
Sobre os focos de calor, 41 das 69 TIs apresentaram o total de 544 focos de calor ao longo de 2022, um aumento de 44% em relação a 2021. O número também foi um recorde para as TIs da BR-319, considerando os últimos 13 anos. A TI que teve o maior número de focos detectados no ano foi a Karipuna, com 112 focos, seguida pela Tenharim-Marmelos, com 71, e a Deni, com 43.
*Com informações do OBR-319
