
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS – A organização da atenção primária em saúde, de competência do município, precisa ser repensada e restruturada conforme a real necessidade da população que “muitas vezes trabalha o dia inteiro e só tem o horário noturno para procurar uma assistência médica”. A afirmação é da secretária de Saúde do Governo do Amazonas, Nayara Maksoud, em entrevista ao ATUAL nesta sexta-feira (4).
Ao falar dos avanços no sistema de saúde do Amazonas, a secretária disse que “precisamos ter uma atenção primária forte e resolutiva, que trabalhe de acordo com o perfil epidemiológico, que faça com que a capilaridade em horários alternativos aconteça para que a população tenha uma porta de entrada assertiva e o Estado do Amazonas, com o amplo corpo de rede de saúde, possa vir a complementar o atendimento à população”, disse Nayara.
“[É necessário] o repensar da organização [da atenção básica] com unidades em horários diferenciados conforme a real necessidade da população, que muitas vezes trabalha o dia inteiro e só tem o horário noturno para procurar uma assistência médica”, completou Nayara.
A secretária comanda a pasta que, neste ano, tem orçamento de R$ 4 bilhões, valor que é superior ao mínimo constitucionalmente exigido. Na entrevista ao ATUAL, Nayara disse que o estado tem trabalhado para descentralizar os serviços de saúde com investimentos em unidades nos municípios polos, que são responsáveis por receber demanda de cidades vizinhas.
Em Manaus, que tem 2 milhões de habitantes, segundo o IBGE, há muitos anos a insuficiência no atendimento básico à população gera o aumento da demanda em unidades de saúde de média complexidade, como os SPAs (Serviço de Pronto Atendimento) e as UPAs (Unidade de Pronto Atendimento). Na capital amazonense, segundo Nayara, cerca de 3 mil usuários são atendidos por dia em cada SPA, que funciona 24 horas.
Segundo a secretária, 60% das pessoas atendidas nos SPAs são classificadas como urgência básica, ou seja, são pacientes que poderiam ter sido atendidas em uma UBS (Unidade Básica de Saúde).
“[Os atendimentos nos SPAs são] das mais diversas situações. Desde uma dor de cabeça, um paciente que precisa trocar uma sonda, um paciente que precisa rever seu curativo, até situações de muita emergência. O estado está aberto 24 horas para atender a população”, afirmou a secretária.
“O estado do amazonas acaba sendo responsável por grande parte da população que poderia ter sido atendida de forma resolutiva e eficiente pela atenção primária”, completou.
Para a Nayara, na relação entre o estado e o município no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde), a prefeitura deve ofertar serviços que previnem o agravamento de doenças. Consequentemente, a cobertura maior evita o aumento da demanda nas unidades de média complexidade.
“A atenção primária precisa, sim, garantir exame laboratorial, exame de apoio e diagnóstico, garantir que esse paciente seja muito bem classificado em seu risco, que seja feito um plano terapêutico para ele”, afirmou a secretária.
“Senão as principais doenças que são predominantes, que são hipertensão, diabetes, hoje tem uma população idosa mais predominante, ela acaba não conseguindo fazer o seguimento dessas patologias, e ela vem e agudiza, e vem parar no pronto-socorro ou SPA”, completou Nayara.
A secretária foi questionada sobre a cobrança do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), a respeito de recursos para o Samu (Serviço Móvel de Urgência) e para a Farmácia Básica. Ela explicou que o estado complementa o serviço móvel de urgência e emergência partir do momento que executa o serviço inter-hospitalar. Para a secretária, esse tipo de complementação ao município é mais eficiente.
“Quando você faz a transferência de um paciente de um hospital para outro, quando precisa fazer a transferência de paciente e uma unidade de suporte intermediário, como uma UPA ou SPA, para um hospital. Isso também é um complemento, que é maior do que se a gente fosse fazer uma contrapartida financeira ao município”, disse Nayara.
“É uma das missões do Samu, mas sabemos que a estrutura não comporta. Então, nós precisamos entregar também uma garantia de assistência ao usuário. Aí o estado também se responsabilizou e entrou com essa contrapartida. São contrapartidas que já existem e são além do que deveriam estar sendo executadas”, disse Nayara.
Descentralização
Ao ser questionada se o orçamento da Secretaria de Saúde do Amazonas é suficiente para atender a demanda, Nayara afirmou que gerir recursos requer “atenção e concentração” e um planejamento assertivo com prioridades.
Conforme a secretária, o fator amazônico é um desafio, pois faz com que os custos aumentem. No entanto, “o muito ou pouco vai depender dos caminhos que são necessários para que a saúde percorra ao longo do ano. “O orçamento existente, de R$ 4 bilhões, precisa ser muito bem executado para que se tenha entregas efetivas à população”, disse Nayara.
De acordo com a secretária, o Governo do Amazonas aumentou, nos últimos quatro anos, os investimentos na área da saúde, com objetivo de complementar a saúde básica e descentralizar o atendimento de alta e complexidade, que por muitos anos se concentraram na capital amazonense.
Atualmente, a rede estadual inclui 59 unidades de saúde em Manaus, incluindo Caics (Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente), pronto-socorro adultos e infantis. O estado também unidades de saúdes no interior.
Nos últimos anos, o estado tem reestruturado unidades de saúde em cidades no interior do estado consideradas como “polo”, que abrigam hospitais de média complexidade. Entre os municípios estão Humaitá, Tefé, Itacoatiara, Manacapuru e Parintins. Esses municípios são responsáveis por receber a demanda das cidades vizinhas, classificadas de “satélites”.
“Nós realizamos uma repactuação com as prefeituras, inclusive, de cofinanciamento de farmácia básica, de atenção primária, repasse de incentivo regional para que os municípios pudessem ser mais resolutivos, nós pudéssemos fazer com que aqueles chamados polos de saúde tivessem uma estrutura maior para que a população não precisasse, em todos os casos, para especialidades médicas, se deslocar para Manaus”, afirmou Nayara.
A secretária defende que os municípios do interior também sejam mais resolutivos. Segundo ela, por isso, o estado tem reestruturado as unidades nos polos de saúde do Amazonas.
” A partir do momento em que o estado consegue fazer uma restruturação em municípios polos para atender as cidades satélites, esse orçamento vai começar a trabalhar de forma mais capilarizada sem estar tão depende a população do interior para o deslocamento para a capital para a média complexidade”, afirmou Nayara.
