
Do ATUAL
MANAUS — Há 15 anos, o manejo da mandioca e outras práticas agrícolas tradicionais do médio e alto Rio Negro foram reconhecidos pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como Patrimônio Cultural do Brasil.
Conhecido como Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, o conjunto reúne saberes, técnicas e relações sociais cultivadas há gerações por comunidades indígenas da região que transformam o plantio da mandioca em símbolo de identidade, memória e resistência cultural.
Esses e outros saberes agora estão registrados e disponíveis para acesso na plataforma Bem Brasileiro, lançada no início de outubro pelo instituto. Nela, é possível encontrar informações sobre saberes, rituais, festas, manifestações artísticas e espaços culturais reconhecidos em nível federal como Patrimônio Cultural do Brasil. São mais de dois mil itens reunidos em um só lugar, incluindo fotografias, vídeos, publicações e documentos.
O Amazonas se faz presente especialmente com o Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e de Parintins, o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro e a Cachoeira de Iauaretê: lugar sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri, além da presença no estado de outros bens registrados com abrangência nacional.
Cada registro reflete a força das tradições amazonenses e a importância da proteção e promoção desses saberes e celebrações para a valorização do que é genuinamente brasileiro. “Esses registros revelam histórias de resistência, saberes ancestrais e modos de vida que continuam pulsando em nosso território. Com o Bem Brasileiro, o Iphan amplia o acesso a essas narrativas, aproxima a sociedade dos guardiões dessas tradições e reforça o compromisso com a salvaguarda e o respeito à diversidade cultural amazônica”, comenta a superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiro.
Desenvolvida pelo Iphan em parceria com o Ibict (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) e o Laboratório de Inteligência de Redes da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade de Brasília (FCI/UnB), a plataforma facilita o acesso a informações relacionadas ao patrimônio cultural imaterial do país. Estão disponíveis desde os pedidos de registro e pareceres elaborados durante o processo de reconhecimento de um bem cultural até as ações de monitoramento, defesa e fomento que o Iphan realiza após o registro — tudo como parte da missão de proteger e promover o patrimônio cultural brasileiro. A plataforma possui interface intuitiva e linguagem acessível, voltada a qualquer pessoa interessada no tema.
Ferramenta para pesquisadores
Com diversas opções de filtro de busca, a plataforma Bem Brasileiro permite ao usuário fazer pesquisas específicas por estados, datas de registro, temas (tais como “cultura alimentar”, “catolicismo popular” ou “povos de terreiro e de matriz africana”) ou por Livros de Registro – os arquivos oficiais nos quais o Iphan inscreve um bem de natureza imaterial como Patrimônio Cultural. São quatro arquivos: o Livro dos Saberes; o das Celebrações; o das Formas de Expressão; e o dos Lugares. (A título de comparação, bens de natureza material são inscritos em Livros do Tombo, de onde vem o termo “tombamento”, para o seu reconhecimento pelo Iphan.)
Também ficou fácil realizar buscas sobre bens que compartilham atributos em comum. Em poucos cliques, por exemplo, uma pesquisa sobre Complexo cultural do boi-bumbá do Médio Amazonas e Parintins, pode levar a outros bens registrados no estado do Amazonas ou relativos a celebrações culturais, ou que também estejam inscritos no Livro das Celebrações.
A plataforma ainda traz uma relação de agentes dedicados aos bens que constituem o Patrimônio Imaterial nos diversos territórios do País, como mestres, grupos culturais e organizações parceiras do Iphan na preservação e promoção desse patrimônio, com seus respectivos meios de contato. “Queremos sempre frisar que a salvaguarda do patrimônio imaterial é uma responsabilidade compartilhada por todas as esferas do poder público e pela sociedade civil”, diz o diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Deyvesson Gusmão.
Patrimônio que aponta para o futuro
Outra novidade da plataforma é relacionar cada bem registrado a Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as metas globais definidas pela Organização das Nações Unidas para a construção de um mundo mais justo, inclusivo e ambientalmente equilibrado. A ideia é evidenciar que a preservação de saberes e práticas constituintes do patrimônio cultural brasileiro, longe de comprometer o desenvolvimento de uma nação, pode justamente contribuir para a solução de alguns dos maiores desafios socioeconômicos e ambientais da atualidade.
Para o presidente, a plataforma tem potencial para ser ainda mais relevante à medida que integrar outros repositórios do Instituto, como listas de bens materiais tombados ou de sítios arqueológicos cadastrados no País.
“O Patrimônio Imaterial é o primeiro passo de um projeto mais amplo, de promoção de todo o Patrimônio Cultural Brasileiro nas suas diversas tipologias”, diz Grass. “Patrimônio é tudo aquilo que conta quem nós somos como povo, seja uma igreja histórica, um terreiro, um sítio arqueológico ou o saber de uma comunidade tradicional. Enfim, tudo que é Bem Brasileiro”.
