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Valmir Lima

Recortes da História. Quem tem olhos, veja; quem tem ouvidos, ouça

12 de outubro de 2018 Valmir Lima
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Marcha da Familia 1964 sao paulo
Marcha da Família às vésperas do Golpe Militar de 1964, em São Paulo (Foto: Companhia da Memória)

MANAUS – O texto a seguir é um fragmento de “Marcha funestra”, de Tiago Demenici, então estudante de jornalismo, publicado na revista Caros Amigos especial sobre o Golpe Militar de 1964, publicada em março de 2004, quando a tomada do poder pelos militares no Brasil completou 40 anos. No trecho aqui reproduzido, o autor fala da chamada “Marcha da Família” puxada por setores conservadores da Igreja Católica, com importante participação das mulheres, que se diziam anticomunistas e carregavam o terço nas mãos.

“19 de março, a antevéspera do golpe

O vice-governador tinha razão [o autor se referia a Laudo Natel, vice-governador de São Paulo]. Seja por curiosidade ou por adesão às palavras de ordem da marcha, naquela quinta-feira, 19 de março de 1964, foi meio milhão de pessoas à Praça da República, centro de São Paulo. O dia era de São José, padroeiro da família, a televisão mostrava a novela Alma Cigana, de Ivani Ribeiro, porém as atenções estavam voltadas para um capítulo único: a Marcha da Família com Deus, pela Liberdade.

Da Praça da República, às 16 horas, a manifestação foi para a Praça da Sé, onde chegou por volta das 18 horas e 50. As faixas contra o governo [de João Goulart] diziam: ‘Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários’, ‘Vermelho bom, só batom’, ‘Verde, amarelo, sem foice nem martelo’. ‘Viva a democracia, abaixo o comunismo’.

‘Eu estive na Marcha da Família e, Santo Deus, meio milhão de pessoas! Eu via todo aquele pessoal da classe média alta puxando o cordão, padres, a máquina da igreja a serviço daquilo. A grana estava lá e atrás da grana todas as pessoas que queriam a grana. Pensei: isso não pode dar certo’, lembra István Jancsó, diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na USP.

Já nas escadarias da Sé, local dos discursos, Leonor Mendes de Barros [mulher do então governador de São Paulo, Ademar de Barros] hasteou a bandeira do Brasil, enquanto a banda da Força Pública [atual Polícia Militar] executava o Hino Nacional. A ‘Oração pela Salvação da Democracia’, feita para o evento, foi rezada e os discursos começaram.

O combinado é que cada um teria cinco minutos para falar. Aproximadamente vinte pessoas, entre políticos, religiosos e representantes de entidades falaram nas escadarias. Geraldo Goulart, um veterano de 1932: ‘Aqui estamos sem tanques de guerra, sem metralhadoras. Estamos com a nossa alma e com nossa arma, a Constituição’. Everaldo Magalhães, deputado estadual da Guanabara, Rio de Janeiro: ‘O Fidel Castro brasileiro Leonel Brizola…’ Nesse instante, o deputado foi interrompido pela massa que gritava: ‘Um, dois, três, Brizola no xadrez. Se tiver lugar, vai o Jango também’.

O presidente do Congresso Nacional, Auro Soares de Moura Andrade, foi o último a discursar: ‘Que sejam feitas as reformas, mas pela liberdade. Senão, não. Pela Constituição. Senão, não. Pela consciência cristã do nosso povo. Senão, não’.

Os discursos falavam principalmente da situação do país e criticavam duramente o governo e os ‘comunistas’.

João Goulart [o Jango] diria dias depois: ‘Nas grandes passeatas, os cartazes não eram dirigidos contra a pessoa do presidente ou contra as reformas de base. Todos visavam atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas’”.

Almino Afonso, nascido em Humaitá, no Amazonas, um dos políticos brasileiros mais respeitados ainda vivo, ministro do Trabalho no Governo João Goulart, em entrevista na mesma edição da Caros Amigos, em março de 2004, foi questionado pela jornalista Marina Amaral: “Se o senhor fosse explicar a um jovem de hoje, em poucas palavras, por que o Jango caiu, o que diria?

A resposta de Almino Afonso:

“Diria porque houve um golpe de Estado. Não é o Jango que caiu, é toda uma ordem. Porque o que estava em jogo naquele momento não era o Jango em si, nem [Leonel] Brizola, não era o [Miguel] Arraes, ou o Julião [Francisco Julião, líder do movimento por reforma agrária no Brasil nas décadas de 1950 e 1960], as principais lideranças daquelas forças que eram consideradas de esquerda no sentido amplo do termo. Se fosse isso, não viveríamos 21 anos de regime militar. Se fossem eles a razão de ser do golpe, ponha cinco anos e o país teria sido redemocratizado. A ordem teria sido restabelecida. O presidente poderia ter ficado no exílio a vida inteira, Brizola igual, ou voltado sem direitos políticos. Não, é que havia uma emergência popular, em todos os níveis. Os estudantes queriam coisas, os trabalhadores rurais queriam, pela primeira vez, ter direito a salário, os direitos trabalhistas. E os trabalhadores do campo, que geralmente trabalhavam com a meia, com a terça, com o cambão, queriam acesso à terra, reforma agrária. Os trabalhadores, os soldados, os sargentos queriam ter direito a fazer uma universidade. Quer coisa mais linda? Os soldados, os cabos, os sargentos, inclusive, queriam ter o direito ao voto, uma coisa tão banal. Os sargentos queriam direito ao voto.

De repente, a sociedade acordou. As mulheres começaram a se organizar. Não havia mulheres organizadas no país até então, salvo coisas mais antigas daquela Berta Lutz, mas tinham ficado lá atrás na luta pelo direito de a mulher votar. Mas não bastava só isso para a mulher. As mulheres estavam cada vez mais querendo outras conquistas. Então começaram a se organizar e a entrar nesse debate com homens. Lá estavam as mulheres. Os padres deixaram de dizer a Bíblia citando versículos de Davi, começaram a discutir o que é o dever do católico, numa sociedade esmagada pela fome, pelo desemprego, pela prostituição. Esses eram os sermões. Se você fosse às igrejas dos dominicanos naquela época, eram comícios. Frei Josaphat, Frei Chico… Os intelectuais criaram o Comando Geral dos Intelectuais, o CGI, presidido pelo professor Vieira Pinto, um filósofo. E o ISEB, que existia desde o tempo do Juscelino, estava a todo vapor. Lá estavam o Guerreiro Ramos, o Roland Corbussier, as grandes figuras da intelectualidade. Fui um período de muitos livros publicados. As poesias… Havia uma coleção, Violões da Rua, de poesia de cunho social. O Vinícius [de Moraes], que era o poeta da intimidade, da delicadeza, tem dois ou três poemas fantásticos dessa época. Foi essa efervescência maravilhosa que o golpe derrubou.”

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Assuntos Almino Afonso, ditadura militar, golpe militar, Igreja Católica, joão goulart, Marcha da Família
Redação 12 de outubro de 2018
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