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Variedades

Português percorre o Rio Negro em busca de falantes do ‘nheengatu’

4 de dezembro de 2021 Variedades
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Cena de Nheegatu - O Filme: em busca dos últimos falantes (Foto: Reprodução)
Cena de Nheegatu – O Filme: em busca dos últimos falantes (Foto: Reprodução)
Por Naief Haddad, da Folhapress

SÃO PAULO – O nheengatu, também chamado de língua geral, se consolidou ao longo dos séculos 16 e 17 na Amazônia. Vem, grosso modo, da união do vocabulário tupi com a gramática da língua portuguesa e servia como forma de comunicação entre índios e jesuítas durante a colonização. Como escreveu o sociólogo José de Souza Martins no jornal Folha de S.Paulo, “é a verdadeira língua nacional brasileira”.

O nheengatu era muito falado na região até o século 18, quando foi proibido pelo rei de Portugal, mas se manteve vivo ao longo dos dois séculos seguintes. Hoje, no entanto, o idioma definha – está “severamente ameaçado”, segundo o Atlas de Línguas em Perigo da Unesco. Há cerca de 6.000 falantes, especialmente em comunidades às margens do rio Negro na Amazônia brasileira e também na Colômbia e na Venezuela.

Um idioma antes dominante num território enorme e hoje talvez nos seus últimos suspiros é um tema fecundo para um documentário. Pode interessar a quem gosta de linguística e história do Brasil. No entanto, “Nheengatu”, dirigido pelo português José Barahona, não faz jus à riqueza do assunto.

O cineasta também percorre questões da religião, da alimentação e até da política como se não confiasse que a língua, por si só, fosse suficiente como matéria-prima para um documentário. Essa indefinição resulta numa amálgama muitas vezes superficial.

Levados por um barco pelo Rio Negro, Barahona e sua equipe desembarcaram em algumas comunidades onde sabiam que o nheengatu ainda era falado e ficavam poucos dias em cada um desses locais.

Ao longo da viagem, ouvem dos indígenas que o nheengatu só resiste entre os mais velhos, os mais jovens não querem saber de cultivar a língua dos ancestrais. Uma indígena idosa mostra uma Bíblia traduzida para o idioma. Há ainda passagens em que familiares ou amigos do Alto Rio Negro conversam em nheengatu – aparecem legendas em português.

Alguns momentos são apenas triviais, outros são curiosos, mas a abordagem raramente vai além das águas rasas. Um contraponto é a participação de um idoso que, enquanto rema sua canoa, conta a história de um deus transformado em gafanhoto. Ele está entre os poucos personagens ligados à espiritualidade dos antepassados. As religiões cristãs, especialmente as evangélicas, são predominantes na região.

Aliás, o filme parece mais atento aos dilemas da fé do que da língua, mas mesmo nessa seara não apresenta surpresas e nem sequer se aproxima da complexidade do assunto, como faz “Ex-Pajé” (2018), de Luiz Bolognesi.

Por outro lado, as imagens do rio Negro captadas pela equipe de Barahona durante o dia e à noite são formidáveis. É uma ironia que um filme dedicado a uma língua cresça justamente quando se expressa sem palavras.

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Assuntos Nheegatu, Rio Negro
Cleber Oliveira 4 de dezembro de 2021
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