
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – A visita de Flávio Bolsonaro (PL) a Manaus seria só um compromisso de campanha, não fosse o passado sombrio do bolsonarismo com o modelo econômico adotado pelo Brasil para incentivar indústrias a se instalarem nestas terras distantes. O modelo Zona Franca de Manaus foi duramente atacado nos quatro anos em que seu pai, Jair Bolsonaro, foi presidente da República.
Paulo Guedes, o superministro da Economia de Bolsonaro, nunca escondeu a vontade de acabar com os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, e tomou medidas drásticas, que ameaçaram de morte a economia do Amazonas. E fez isso sob aplausos de muitos que agora carregaram Flávio Bolsonaro nos braços durante passagem por Manaus.
A frase “100% Zona Franca de Manaus” na estampa da camisa usada pelo senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro durante sua visita à fábrica da Moto Honda, no Polo Industrial de Manaus, na semana passada não tem qualquer significado econômico, mas faz parte de uma estratégia política para afastar o fantasma ou o monstro que Paulo Guedes e Bolsonaro pai plantaram por aqui.
Era preciso Flávio Bolsonaro apresentar defesa, explicar-se sobre as medidas adotadas pelo pai e que decretavam a falência do modelo Zona Franca de Manaus. O modelo só se manteve de pé durante o governo bolsonarista porque os políticos do amazonas, com exceção de Capitão Alberto Neto e outros do PL, recorreram ao Supremo Tribunal Federal e conseguiram reverter os decretos anti-ZFM.
Paulo Guedes, inclusive, cantou a pedra antes mesmo de assumir o cargo de ministro da Economia. Disse com todas as letras que para acabar com a Zona Franca nem precisava mexer no modelo, mas conceder à indústria nacional os mesmos incentivos garantidos às empresas instaladas aqui. E foi isso que fez por pelo menos três vezes.
Em março de 2022, Flávio Bolsonaro defendeu a redução de até 25% do IPI determinada pelo governo do então presidente Jair Bolsonaro. Na ocasião, classificou a medida como uma “vitória de todo o Brasil”.
A redução das alíquotas foi contestada pelos senadores Eduardo Braga (MDB) e Omar Aziz (PSD) porque diminuía a diferença tributária entre produtos fabricados fora da Zona Franca e aqueles produzidos no Polo Industrial de Manaus. Em abril daquele ano, o governo federal ampliou a redução do IPI para 35% para a maioria dos produtos.
Na época, Flávio também defendeu uma alternativa para a atividade econômica da região diante das mudanças no IPI.
O discurso abraçado pelo bolsonarismo no Amazonas era uma tragédia, porque, na prática, defendia o fim dos incentivos sem criar novas alternativas econômicas, apenas com a promessa de criá-las no futuro.
A indústria incentivada do Amazonas sobreviveu aos ataques bolsonaristas, e foi fortalecida na reforma tributária realizada na gestão de Lula. O resultado é mais emprego para os amazonenses com a vinda de novas indústrias para Manaus.
Mas não foi fácil. A extrema direita e a direita golpista se uniu contra a Zona Franca de Manaus e tentaram barrar os incentivos durante a votação da reforma tributária no Congresso Nacional. Mais uma vez foram derrotadas.
Por isso, era necessário a Flávio Bolsonaro fazer a mea-culpa. O “100% Zona Franca” na camiseta é um atestado de burrice, porque denuncia que havia, e ainda há, o desejo de acabar com o modelo, não para gerar mais competitividade entre os Estados, como dizem os paulistas que também tentam acabar com a Zona Franca, mas para levar aos estados do sudeste e do sul as indústrias que geram emprego aqui.
Não se trata de uma vontade ou não de Flávio Bolsonaro, mas de um pensamento da extrema direita e do liberalismo por ela defendido de que não se deve tratar de forma desigual os desiguais, mesmo que isso signifique o fim de um modelo econômico que traz desenvolvimento a uma região remota.
Por isso é que nada poderia ser mais patético do que usar uma camiseta amarela com a inscrição “100% Zona Franca”.

