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Valmir Lima

Por que eu sou de esquerda ou estou à esquerda

3 de outubro de 2026 Valmir Lima
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Esquerda x Direita

MANAUS – Nestes tempos a sociedade brasileira e mundial trava um debate acalorado sobre esquerda e direita como se os participantes do debate fossem membros de torcidas de futebol. Diferente do futebol, na sociedade não se escolha ser de esquerda ou de direita. Essa condição nasce com o ser humano, que é essencialmente político.

Para entender o que estou afirmando é preciso recorrer aos que vieram antes de nós e estudaram profundamente as sociedades até chegarmos ao atual estágio, que na economia e na política chamamos de capitalismo. Que é definido, em poucas palavras, como um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no lucro e no trabalho assalariado.

Nem sempre foi assim. Na antiguidade, a sociedade era organizada de outras formas. Uma delas foi a escravocrata. Parte da sociedade se considerava nobres e exploravam a força de trabalho de outros para viver confortavelmente, enquanto aqueles que produziam todos os bens, alimentos, casas e outros meios para o conforto da nobreza viviam apenas para trabalhar e comer. Era uma maioria que vivia bem enquanto a maioria vivia na miséria.

Mais tarde, com o fim da escravidão, a sociedade feudal passou a explorar a força de trabalho dos mais pobres de outra forma: Os senhores donos das terras cediam essas terras para que os agricultores plantassem. Esses senhores ficavam com metade da produção e comprava a outra metade a preços baixos, e ainda cobrava impostos dos trabalhadores. Os donos das terras, o clero, e a nobreza viviam confortavelmente, enquanto os que exploravam a terra e produziam tudo para o consumo dessas “comunidades” viviam na pobreza e na miséria.

No século XV (anos de 1400) surge o capitalismo, primeiro focado no comércio de mercadorias até o século XVIII (anos 1700). Depois, veio o capitalismo industrial, focado na fabricação de produtos em massa com uso de máquinas. E mais recentemente, nos anos de 1900 (século XX), o capitalismo financeiro, caracterizado pelo poder dos bancos e das grandes empresas globais, que ganham dinheiro apenas com as transações no mercado financeiro.

Foi no início do capitalismo industrial que Karl Marx e Friedrich Engels passaram a estudar esses movimentos desde o sistema escravocrata até o capitalismo, e chegaram à conclusão de que em todas as sociedades há exploradores e explorados. Essa situação sempre existiu, mas ninguém havia refletido sobre ela, e aceitavam como normal. Revelaram esses teóricos que existe uma luta de classes, sem que as pessoas a reconheçam como uma luta entre quem explora e quem é explorado. Há uma série de instrumentos para que as pessoas exploradas se acomodem e aceitem essa condição.

Foi a partir desses estudos que Marx e Engels lançaram as bases do Socialismo e do Comunismo. Aqui não há espaço para explicação da diferença entre Socialismo e Comunismo. Mas em síntese, era a ideia de que os trabalhadores poderiam ser os donos dos meios de produção e partilhar os lucros entre si, criando uma sociedade em que não houvesse exploradores e explorados.

Mas vamos ao que é o tema central desse texto, ou seja, que não escolhemos se somos de direita ou de esquerda.

Foi a partir das teorias marxistas que a classe trabalhadora começou a se organizar. Foi a partir dessas teorias que os explorados passaram a despertar para a sua condição de explorado, e começaram a criar movimentos para reivindicar direitos. Esses movimentos passaram a ser chamados de esquerda. Portanto, quem explorava era a direita e quem era explorado, a esquerda. Por isso, não era uma escolha. Você nascia no berço de uma família trabalhadora, explorada. Ou nascia em berço de ouro, na nobreza, nas mansões dos donos dos meios de produção, da fábrica, da grande loja, das fazendas.

A esquerda não eram as famílias em si, mas aquelas pessoas que começaram a entender como funcionava a sociedade e a querer mudança. Era esquerda, porque, para a direita, esquerda sempre foi coisa ruim. Quem não lembra de quando uma criança começava a usar a mão esquerda para comer ou para escrever. Até na minha infância, os pais batiam nas crianças para que comessem com a mão direita, porque comer com a esquerda era coisa ruim. O ladrão que questionou Jesus na cruz estava à esquerda, enquanto o que ficou calado, estava à direita. Portanto, reivindicar direitos na sociedade capitalista virou sinónimo de coisa ruim, a esquerda.

Esse sentimento de que a esquerda é coisa ruim foi alimentado, desde o princípio, pelos meios de comunicação de massa, que também surgem com o capitalismo. Também foi alimentado pela igreja, em grande medida. Em algumas épocas mais, em outras, menos. Quando, na década de 1980, os bispos e padres da América Latina aderiram à Teologia da Libertação, que fazia uma opção preferencial pelos pobres, a direta se revoltou e o Vaticano tratou de abafar o “movimento”.

Além de criar o sentimento de repulsa na sociedade contra aqueles que queriam vida melhor para os explorados, os que detinham o poder na sociedade criaram outros mecanismos para combater os movimentos reivindicatórios. Um desses mecanismo foi a polícia, que passou a reprimir fortemente quem ousasse contrariar a ordem estabelecida, ou seja, quem questionasse a forma de organização da sociedade em que uns vivem para produzir a riqueza enquanto outros vivem para usufruir dessa riqueza.

Ao longo do século passado (anos de 1900), esse movimento ganhou força, ganhou adeptos em todos os setores da sociedade. Os trabalhadores passaram a se organizar e a conquistar direitos, mesmo sob forte pressão da direita. Direita não é essa querela entre petismo e bolsonarismo. É uma questão muito mais profunda que precisamos entender para decidirmos de que lado estamos.

Esse movimento chegou à política no século passado, mas foi derrotada pela força do regime militar. A ditadura militar foi um movimento para impedir que o então presidente João Goulart fizesse as reformas que mudariam o Brasil, como a reforma agrária, e as reformas na economia, com mais direitos aos trabalhadores. A desculpa para o golpe militar foi a ameaça do comunismo, que sempre foi “vendido” para a população como um coisa ruim. A antiga União Soviética foi um fracasso como experimento do socialismo, porque seus governantes traíram os princípios marxistas. Mas a China comunista dá exemplo ao mundo de como é possível mudar a realidade de sua população, com distribuição da riqueza.

Quando comecei a entender a vida, meu pai era a única pessoa que trabalhava na família. Éramos dez pessoas em casa. Meu pai pedreiro, ganhava salário que mal dava pra a alimentação, roupas e pagar as contas de energia e água. Ele não tinha consciência de classe. Foi educado com a ideia de que ser rico ou ser pobre é vontade de Deus. E para ele, estava tudo bem. Ele queria que os filhos estudassem para “ser alguém na vida”. E estava certo neste sentido, porque só a educação é capaz de salvar uma pessoa da miséria e da pobreza. Por isso, os governantes do Brasil nunca se importaram com a educação para os mais pobres.

Eu teria milhares de palavras a acrescentar a esse texto para explicar por que eu estou à esquerda. Mas acho que você já entendeu. Por isso, vou lhe poupar o tempo. “Quem tiver ouvidos, ouça!”.


Valmir Lima é jornalista, graduado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), com pesquisa sobre rádios comunitárias no Amazonas. Atuou como professor em cursos de Jornalismo na Ufam e em instituições de ensino superior em Manaus. Trabalhou como repórter nos jornais A Crítica e Diário do Amazonas e como editor de opinião e política no Diário do Amazonas. Fundador do site AMAZONAS ATUAL.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos capitalismo, direita, esquerda, exploradores, explorados, pobres, ricos, socialismo
Valmir Lima 3 de outubro de 2026
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