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Variedades

Policial ‘Peçanha’ diz muito sobre o Brasil, afirma Antonio Tebet

22 de outubro de 2021 Variedades
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Por Karina Matias, da Folhapress

SÃO PAULO – Não é para ser profundo nem tem a intenção de ganhar o Oscar. “Peçanha Contra o Animal”, o segundo filme produzido pelo Porta dos Fundos e que estreia nesta sexta (22) na Amazon Prime Video, é um besteirol com orgulho.

“Quando escrevi esse filme, a ideia era fazer o pessoal rir com esse personagem que é o mais popular do Porta, o Peçanha”, diz Antonio Tabet, um dos fundadores do grupo e criador e intérprete do anti-herói.

Antonio Tebet como Peçanha: personagem está em filme do Porta dos Fundos (Foto: Porta dos Fundos/YouTube/Reprodução)
Antonio Tebet como Peçanha: personagem está em filme do Porta dos Fundos (Foto: Porta dos Fundos/YouTube/Reprodução)

Para o humorista, o sucesso de Peçanha, um policial incompetente, bruto, com um pé na corrupção, machista, racista e homofóbico, diz muito sobre o Brasil. “É curioso porque ele é um cara péssimo, mas ele está tentando melhorar. Ele já entende que existe essa coisa do politicamente correto, e tenta consertar [algumas coisas nele mesmo], mas da maneira torta e enviesada dele”, afirma.

O filme faz piada disso. Na história, Peçanha e o policial Mesquita, interpretado por Pedro Benevides, precisam descobrir e prender Animal, um serial killer que vem espalhando terror em Nova Iguaçu, no Rio.

Logo no início, quando os policiais vão até o local do crime de mais uma vítima do assassino, ele diz para Mesquita, com seu habitual jeito de falar errado: “Eu não suporto, não tolero gordofobice. Eu poderia, inclusive, ser um gordofobista porque eu tenho lugar de fala que eu já fui gordo”.

Peçanha, prossegue Tabet, tem o raro poder de ser querido pelos dois lados do Brasil polarizado. Para os que sabem que ser machista, racista e homofóbico em 2021 é muito errado, o policial é visto como uma crítica. O que ele de fato é, segundo Tabet.

Já os que acham que tudo isso é mimimi e frescura se identificam com ele. “Mas entendem que isso é tosco e no fundo sabem que precisam melhorar”, opina. “O Brasil é um pouco isso, né. Tem muitos Peçanhas por aí. E eles estão aumentando… se você for para a zona oeste do Rio, tem um em cada esquina. Se você for para Brasília, tem alguns em cargo de poder”, diz. “O verdadeiro mito que tem no Brasil é o Peçanha. As pessoas adoram ele, dos dois lados”, completa Pedro Benevides.

Como seria se o policial tivesse de usar uma câmera de vídeo acoplada ao uniforme, assim como adotado em São Paulo? Tabet ri: “O conteúdo seria proibido para menores”, responde inicialmente. Na sequência afirma: “Ele ia transmitir ao vivo pelo gatonet do Peçanha, seria o novo Polícia 24 horas”, diverte-se.

O humorista frisa que o objetivo do filme é fazer rir, ainda que só o fato de um personagem como o Peçanha existir seja uma crítica por si só “a tudo que estamos passando”.

“É diferente de algumas produções mais robustas do Porta, como os nossos especiais de fim de ano. Queria fazer uma coisa bem besteirol mesmo, algo leve”, enfatiza, acrescentando que a série de filmes “Corra que a Polícia Vem Aí” (lançados no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990) foi uma referência para a produção.

Peçanha, relembra ele, foi nascendo aos poucos. O embrião do policial tosco e estúpido surgiu ainda antes do Porta dos Fundos, em vídeos do canal Anões em Chamas (precursor do Porta) chamados CSI Nova Iguaçu, em que satirizavam a ciência forense usada pela polícia no Brasil em detrimento a todos os recursos de última geração mostrados nas séries americanas.

Muitos dos vídeos dessa época foram gravados em Nova Iguaçu e é, por isso, que o filme se passa na cidade da baixada fluminense. Já no Porta, Tabet nem consegue se lembrar exatamente a primeira vez que um vídeo de Peçanha foi ao ar. É certo que o policial não tinha nome nem a sua voz característica.

“Não era nossa ideia ter um personagem assim. Mas ele acabou virando recorrente nas esquetes, as pessoas começaram a amar e começaram a pedir por um conteúdo mais longo”, salienta. O filme surgiu a partir desta demanda.

Com pouco mais de uma hora de duração, é quase que um especial do Peçanha, e não tem nada a ver com “Contrato Vitalício”, primeiro longa do Porta dos Fundos, de 2016, e que na visão do próprio Tabet, não funcionou muito. “Eu achei uma merda”, diz – o crítico Thales de Menezes, da Folha, elogiou a produção.

O diretor Vinicius Videla salienta que, por ser diferente do que o Porta costuma fazer, a proposta de “Peçanha Contra o Animal” é atrair um novo público, afeito a esse tipo de humor besteirol. “O personagem, as piadas e o tom de humor é aquele que agrada o fã do Porta, mas a ideia é expandir”, diz.

Além de Peçanha, outros personagens conhecidos do público aparecem na produção, que conta também com Rafael Portugal no elenco e participações especiais de Valesca Popozuda e Sérgio Loroza.

Evelyn Castro no papel de Xayane Corrêa, uma policial que tem um método bem inusitado para fazer análises periciais, provoca riso e desconforto em uma das cenas que mais chamam a atenção no filme. A atriz conta ter perturbado Tabet para conseguir fazer o papel de uma PM na trama.

Na visão dela, a forma como as mulheres são retratadas no humor tem melhorado nos últimos anos, ainda que a passos lentos. “A mulher saiu daquele lugar de objeto, percebo muito isso no Porta dos Fundos”, diz.

No entanto, ela afirma que ainda há muito machismo estrutural nos roteiros, mesmo em projetos escritos por mulheres. “Acho que as mentes estão abertas para compreender isso e cabe a nós mulheres do humor nos colocarmos também. Por que mulheres não podem fazer determinados personagens?”, indaga.

Para interpretar Xayane, Evelyn afirma que uma de suas inspirações foi uma PM que conheceu na vida real, quando frequentava um bar na Praça da Bandeira, zona norte do Rio. “A PM Cacau era muito vaidosa, ela tinha um pompom rosa na algema dela, isso não é mentira, e eu me encantei por ela, ela virou um símbolo. Quando fui fazer a Xayane, ela me veio”, relata.

A atriz destaca que atualmente “tem muita gente com preguiça de pensar”. “E o humor é um caminho que ajuda as pessoas a pensar e a sair das frases decoradas e repetidas em passeatas”.

Tabet concorda. Para ele, o humor não é só uma forma de provocar riso ou fazer com que as pessoas esqueçam os problemas do cotidiano. Ele também pode ensinar e informar. “Eu acho que o humor mata com gentileza. Ele vai certeiro e atinge o público onde ele não está acostumado a ser atingido. Fazendo carinho, ele consegue convencer a pessoa de algo que precisa ser mudado não só nela mesma, mas em alguém que ela conhece ou na sociedade de modo geral”, conclui.

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Assuntos Antonio Tebet, Peçanha, Porta dos Fundos
Cleber Oliveira 22 de outubro de 2021
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